Hoje é Dia de Reis. Ainda se cantam as Janeiras. Há alguns anos, muitos, era feriado. Na minha aldeia, além das Janeiras, cantavam-se Os Reis. Fui à "arca do velho" ver o que lá havia sobre o tema. Lá encontrei a história de três amigos de extratos sociais diferentes, - um, filho da pequena burguesia rural, pai doutor de leis,outro, filho do operariado, mãe costureira, e o outro, filho de mãe solteira, trabalhadora agrícola, - que durante a sua meninice se juntavam para "cantar os reis". Constríam uma pequena caixa iluminada (por vezes uma velha gaiola já desactivada) onde instalavam o presépio, e lá iam de casa em casa cantando, na esperança de serem recompensados. E ninguém se escusava, cada um dava o que podia, desde chouriças até dinheiro. Era assim todos os anos. Hoje, os três amigos já não cantam "os reis". Dois foram para a cidade. Um, é doutor de leis no Alentejo, e embora tenha notícias dele, já não o vejo há cerca de quarenta anos. É o Dr. César Miguel. O outro é bancário reformado, é o sr.Amílcar. O último ainda vive lá na nossa aldeia, reformado do trabalho numas caves. É o Arlindo. Só Arlindo.
Carantonha- s.f.-contorsão do rosto, esgar, máscara, cara feia, carranca, caraça. * Em criança, na região de onde sou natural, e onde então vivia, quando se brincava ao carnaval, o artefacto que nos ocultava o rosto, era a carantonha porque por norma era coisa feia. O tempo passa, a evolução acontece, e hoje, pelo menos quando jogamos ao carnaval, usamos uma máscara. Ou será que não a usamos todos os dias?
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quarta-feira, 6 de janeiro de 2010
sexta-feira, 4 de dezembro de 2009
Amigos parte l
Este escrito deveria ter acontecido ontem aqui no blog. Já saberão porque não. Ontem foi, para mim, um dia cheio. Foi um dia de rever amigos. Todos colegas - de profissão - mas só alguns amigos de peito. Todos já na reserva. Foi o dia em que aconteceu um daqueles dois ou três almoços anuais onde habitualmente nos encontramos. Alguns de nós já não se viam há algum tempo, porque por isto ou aquilo, nem sempre é possível estarmos todos. E então, num restaurante de Matosinhos, saboreando bom peixe, todos saboreámos também boas - e algumas menos boas, mas essas em menor número - recordações. Vieram à baila as "gafes" que por vezes aconteciam, algumas delas e ainda bem presentes no nosso anedotário. E também as coisas boas que profissionalmente fizemos, os laços que fomos cimentando, e as pedras no sapato que (felizmente nem todos) tivemos que aguentar. Como é que está a família, já tens netos, e quantos, o que é que fazes agora, as perguntas do costume, uns não fazem nada, outros vão buscar e levar os netos à escola, um vai prá quinta onde se entretém com a sachola, outros ainda, fazem aquilo que sempre gostaram de fazer fora da profissão. E chegámos todos à conclusão que felizmente ainda estamos vivos. Bem, muitos de vocês sabem como são estes almoços. Até ao próximo.AMIGO
Mal nos conhecemos
Inaugurámos a palavra amigo.
"Amigo" é um sorriso
De boca em boca,
Um olhar bem limpo,
Uma casa, mesmo modesta, que se oferece,
Um coração pronto a pulsar
Na nossa mão!
"Amigo" (recordam-se, vocês aí,
Escrupulosos detritos?)
"Amigo" é o contrário de inimigo!
"Amigo" é o erro corrigido,
Não o erro perseguido, explorado,
É a verdade partilhada, practicada.
"Amigo" é a solidão derrotada!
"Amigo" é uma grande tarefa,
Um trabalho sem fim,
Um espaço útil, um tempo fértil,
"Amigo" vai ser, é já uma grande festa!
Alexandre O'Neill
domingo, 8 de fevereiro de 2009
Amizade
Imagem "roubada" a "meuslivros.weblog.com.pt"Hoje fui tomado pelo desejo compulsivo de escrever uma carta. Não me lembro já há quantos anos não escrevo uma carta. Mas uma carta em papel, usando uma caneta, daquelas chamadas de tinta permanente. Se pudesse recuar mais algum tempo preferia que a caneta fosse daquelas com aparo, de molhar no tinteiro, e que nos obrigava a aperfeiçoar a letra. Há tanta gente, tantos amigos, amigas, que já não vejo ou ouço há tanto tempo!... E aqueles que já partiram sem que tivesse a possibilidade de, ao menos, acenar-lhes um adeus. Lá, onde estarão, as cartas demoram a chegar.
Tu, meu amigo, a quem não vejo há muito, de quem tenho poucas notícias, ainda continuas a tocar (practicar, dizias tu) piano? Lembras-te dos fins de tarde, ou das noites em que tu te sentavas ao piano e eu lia, ou dizia, poemas? Tempos bonitos, não eram? É verdade, que é feito da tua filha que tinha ouvido absoluto? Possívelmente já te terá dado netos. E quando em algumas noites quentes nos sentávamos no teu terraço bebendo uma ou duas cervejas, e sem nos preocuparmos com as horas, falávamos de tudo, até dos comentários (invejosos, seria?) dos nossos colegas que, no emprego, nos chamavam "os intelectuais"? Belos tempos! Um dia destes temos de marcar um encontro para re-vivermos.
E tu, amiga, a quem vi crescer, num meio hotil, tanto o familiar como o que te rodeava, mas sempre com vontade de ir mais além? Embora não tenha notícias tuas (sempre foste avessa a isso) sei que hoje estás na "cidade grande" onde practicas a arte que sempre quiseste abraçar, o teatro. Por amigos comuns vou sabenmdo que a vida não está fácil, embora aí haja mais oportunidades que por aqui. Eu sei que é dificil vencer os lóbis, mas com a vontade que eu sei que tens de vencer, hás-de conseguir. Espero por notícias tuas.
Por último, para ti, amigo, que estás mais próximo, e com quem estive em tempos mais ou menos recentes, uma menção especial. Sei que passaste por um momento difícil que te fez ser hospitalizado, a fim de seres submetido a uma intervenção cirúrgica. Sei que correu bem e que em breve estarás em casa, talvez já amanhã. Espero que recuperes depressa, e já agora enquanto recuperas, que te vás lembrando dos tempos em que nos chamávas "os intelectuais". Pois, pois, foste tu o autor do epíteto, lembras-te?Tu eras perito nessas coisas. Até inventaste uma expressão nova, "o verso do reverso da medalha"! Vamos encontrar-nos brevemente, para aquele almoço.
Cheguei ao fim da carta. Foi realmente escrita em papel de carta e com caneta. Fica aqui a sua transcrição.
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