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terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Poema com Natal por tema VI

Trago-vos hoje um poema - um soneto - de Luis de Camões.

DOS CÉUS À TERRA

Dos Céus à Terra desce a mor Beleza
Une-se à nossa carne e fá-la nobre;
E sendo a Humanidade dantes pobre,
Hoje subida fica à mor alteza.

Busca o Senhor mais rico a mor pobreza;
Que a o mundo o seu amor descobre,
De palhas vis o corpo tenro cobre,
E por elas o mesmo Céu despreza.

Como? Deus em pobreza à terra desce.
O que é mais pobre tanto lhe contenta,
Que este somente rico lhe parece.

Pobreza este Presépio representa;
Mas tanto por ser pobre já merece,
Que quanto mais o é, mais lhe contenta.

domingo, 21 de março de 2010

Dia Mundial da Poesia

"A poesia é a linguagem na qual o homem explora a sua própria admiração"
Christopher Fry

Dia soalheiro, algo quente, como deverá ser o dia inicial da Primavera. Dia também, por todo o mundo, da Poesia. A Poesia é uma das sete artes tradicionais, pela qual a linguagem humana é utilizada com fins estéticos. Sucintamente, poesia é a arte de exprimir sentimentos pela palavra rimada. Actualmente não será tanto assim, uma vez que a maior parte dos autores utiliza já, o verso livre. A matéria-prima da poesia é a palavra, e assim como o pintor é livre de aplicar na tela as cores que entende, e o escultor extrai do barro ou da pedra a forma que a imaginação lhe sugere, assim o poeta tem toda a liberdade para manipular a palavra, ainda que isso signifique romper com as normas pelas quais a gramática se rege.

Para celebrar este dia da Poesia comecemos com um soneto do príncipe dos poetas portugueses, Luis de Camões:

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança:
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança:
Do mal ficam as mágoas da lembrança,
E do bem (se algum houve), as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.

E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto:
Que não se muda já como soía.

 Apreciemos de seguida a poesia de Alexandre O'Neill:

Há palavras que nos beijam

Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca,
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.


Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto,
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.


De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas, inesperadas
Como a poesia ou o amor.


(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído,
No papel abandonado)

Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.

E por último, Eugénio de Andrade:


ADEUS


Como se houvesse uma tempestade
escurecendo os teus cabelos,
ou se preferes, a minha boca nos teus olhos,
carregada de flores e dos teus dedos;


com se houvesse uma criança cega
aos tropeções dentro de ti,
eu falei em neve, e tu calavas
a voz onde contigo me perdi.


Como se a noite viesse e te levasse,
eu era só fome o que sentia;
digo-te adeus, como se não voltasse
ao país onde o teu corpo principia.


Como se houvesse nuvens sobre nuvens,
e sobre as nuvens mar perfeito,
ou se preferes, a tua boca clara
singrando largamente no meu peito.














terça-feira, 12 de maio de 2009

Manuel Alegre




Imagem "roubada" a sergeicartoons.com

Manuel Alegre é, para mim, um dos maiores poetas portugueses, senão o maior, a partir da segunda metade do séc. XX. Já Mário Sacramento dizia, referindo-se ao seu livro de estreia, que havia nascido o maior poeta do neo-realismo português. Chegou mesmo a compará-lo a Camões referindo o lado epopeico da sua poesia.

Manuel Alegre faz anos hoje.

Manuel Alegre de Melo Duarte, nasceu em Águeda a 12 de Maio de 1936. Estudou no Porto, em Lisboa e na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra. Foi campeão de natação e fez teatro no TEUC (Teatro dos Estudantes da Univ. Coimbra). Em 1961 foi mobilizado para Angola, onde participa num movimento de resistência no interior das Forças Armadas e numa tentativa de revolta militar.Preso pela PIDE, passa seis meses na Fortaleza de S. Paulo de Luanda, onde escreve grande parte dos poemas do seu primeiro livro, Praça da Canção. Em 1963 voltou a Coimbra, mas porque continuou a ser perseguido, entra na clandestinidade, e é eleito membro do comité nacional da Frente de Libertação Nacional e passa a trabalhar em Argel na emissora "Voz da Liberdade". Regressou a Portugal após o 25 de Abril. Escreve entre outros, Praça da Canção, O Canto e as Armas, Livro do Português Errante, Senhora das Tempestades, todos poesia; Alma, Terceira Rosa (romance); O Homem do País Azul, contos e Cão Como Nós, novela.

(Notas biográficas in O Quadrado (contos), edição Dom Quixote)

O seu livro de estreia, Praça da Canção, começa com um belíssimo texto,poema em prosa, Rosas Vermelhas.

É desse texto que vamos transcrever alguns excertos, uma vez que é algo extenso.

Rosas Vermelhas

"Nasci em Maio, o mês das rosas, diz-se. Talvez por isso eu fiz das rosas a minha flor, um símbolo, uma espécie de bandeira para mim mesmo.

E todos os anos, quando chegava o mês de Maio, ou mais exactamente, no dia 12 de Maio, às dez e um quarto da manhã (que foi a hora em que eu nasci), a minha mãe abria a porta do meu quarto, acordava-me com um beijo e colocava numa jarra um ramo de rosas vermelhas, sem palavras. Só as suas mãos, compondo as rosas, oficiavam nesse estranho silêncio cheio de ritos e ternura.

Nesse tempo o sol nascia exactamente no meu quarto. (...) Quando chegava o mês de Maio, eu abria a janela e ficava bêbado desse cheiro a fogueiras, carroças e ciganos. (...) E tudo estava certo, nesse tempo, ou pelo menos, nada tinha o sabor do irremediável. (...) Não havia polícia nesse tempo. Ninguém roubaria a tranquilidade do meu sonho, ninguém viria a meio da noite para me levar, porque bastava eu chamar:

-Mãe!

E logo essa voz tão calma, entrava dentro de mim, mandava embora os fantasmas, (...)

Em Maio de 1963 eu estava na cadeia. Por vezes, a meio da noite, um grito abalava as traves da minha cabeça, direi mesmo da minha vida, e eu acordava suado, dolorido, como se um rato (talvez o medo?) me roesse o estômago. E era inútil chamar. Onde ficara essa voz que dantes vinha repor o meu sono no seu lugar, repondo a paz dentro de mim? (...)

Eu estava, pela primeira vez, fisicamente só (...) era terrível essa manhã sem manhã, essa realidade branca e gelada (...) era terrível acordar nessa estreita paisagem com sete passos de comprimento por sete de largura (...)

Os fantasmas tinham entrado no meu sono (...) os fantasmas eram donos do país. E se eles viessem de repente, a meio da noite e eu chamasse:

-Mãe!

a voz (tão calma) de minha mãe já nada poderia contra eles. (...) Eu nunca pude suportar a sujeição. Acaso poderia ter escolhido outro caminho?

Por isso, em Maio de 1963, eu estava na cadeia, isto é, de certo modo, eu estava no meu posto. No dia 12 não acordei com o beijo de minha mãe.

Porém, nessa manhã (não posso dizer ao certo porque não tinha relógio, mas talvez - quem sabe? -, às dez e um quarto, que foi a hora em que eu nasci), o carcereiro abriu a porta e entregou-me, já aberta, uma carta de minha mãe. E ao desdobrar as folhas que vinham dentro do sobrescrito violado, a pétala vermelha duma rosa vermelha, caiu, como uma lágrima de sangue, no chão da minha cela."