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sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Chegar aqui

Hoje, na Biblioteca de Gaia, um grupo de cidadãos independentes, apoiantes da candidatura de Manuel Alegre à Presidência, organizou uma sessão de poesia do cidadão-poeta Manuel Alegre. Estive lá. Acabo de chegar. Fui convidado para abrir a sessão com o poema "Apresentação". Além deste, disse também o poema "Chegar Aqui". É um poema que nos fala do nosso passado, também do nosso presente, e se interroga quanto ao futuro. É um poema intemporal, já que foi escrito há mais de quarenta anos.
 Ei-lo:

CHEGAR AQUI

É claro que tudo isto é uma chatice
Estávamos habituados a acreditar em qualquer coisa
Fosse a Terra Prometida O Dia de Amanhã ou A Esperança
Assim chamada para ser sabe-se lá o quê
Brasil ou África talvez Europa
Havia uma fé uma fezada uma saída
Havia aquela luz de que falou Jorge de Sena
Esperança era o seu nome
Uma pequena luz Não isto

A aventura partiu para outros lados
A retórica aumenta
A vida baixa

Não há lugar para a beleza
Não há tempo
Eis a cidade com seu rosto desolado
Degradação é o nome destes dias
Amigos que desgraça etc. António Nobre
Ou Camilo Pessanha
Eu vi a luz
Em um país perdido
Mas agora nem essa É só chatice
E perdição

E navegámos tanto tempo
São Gabriel Santa Maria Frol de la Mar
Não há dúvida temos um passado
Talvez de mais
Talvez tanto que não deixa lugar para o futuro

Mas fomos pelo mar chegámos longe

E agora Portugal que será de ti
Se não formos capazes de chegar
Aqui

 Carantonhas, tenham um bom fim de semana. Aproveitem-no bem, se possível lendo poesia.

domingo, 21 de março de 2010

Poema para começar o dia

Estamos nos primeiros minutos do dia 21, Dia Mundial da Poesia. E para iniciar o dia trouxe-vos um poema de Manuel Alegre. Mais logo voltarei ao tema, com outro desenvolvimento.
Fiquemos então com

O SERMÃO DA MONTANHA


Alguém há-de subir de novo a uma montanha
do outro lado das palavras do outro lado do tempo

Alguém há-de falar no meio do deserto
dizer o quando o como o para quê


Não é possível que as tribos não se encontrem
não é possível que se percam sem sentido
Alguém há-de subir de novo a uma montanha
alguém com doze tábuas e um poema


Não é possível ficar onde se está
despojados de luz despojados do ser
O deus que está em Delfos mandará o oráculo
a água que fala há-de falar de novo


Não é possível o homem ter perdido


Alguém há-de subir de novo a uma montanha
Alguém com doze tábuas e um sentido

Carantonhas, tenham um bom dia, com muita e boa poesia. Mas não se esqueçam que, como dizia o poeta brasileiro Mário Quintana, "fazer versos é fácil. Fazer poesia é que é dificil".

terça-feira, 12 de maio de 2009

Manuel Alegre




Imagem "roubada" a sergeicartoons.com

Manuel Alegre é, para mim, um dos maiores poetas portugueses, senão o maior, a partir da segunda metade do séc. XX. Já Mário Sacramento dizia, referindo-se ao seu livro de estreia, que havia nascido o maior poeta do neo-realismo português. Chegou mesmo a compará-lo a Camões referindo o lado epopeico da sua poesia.

Manuel Alegre faz anos hoje.

Manuel Alegre de Melo Duarte, nasceu em Águeda a 12 de Maio de 1936. Estudou no Porto, em Lisboa e na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra. Foi campeão de natação e fez teatro no TEUC (Teatro dos Estudantes da Univ. Coimbra). Em 1961 foi mobilizado para Angola, onde participa num movimento de resistência no interior das Forças Armadas e numa tentativa de revolta militar.Preso pela PIDE, passa seis meses na Fortaleza de S. Paulo de Luanda, onde escreve grande parte dos poemas do seu primeiro livro, Praça da Canção. Em 1963 voltou a Coimbra, mas porque continuou a ser perseguido, entra na clandestinidade, e é eleito membro do comité nacional da Frente de Libertação Nacional e passa a trabalhar em Argel na emissora "Voz da Liberdade". Regressou a Portugal após o 25 de Abril. Escreve entre outros, Praça da Canção, O Canto e as Armas, Livro do Português Errante, Senhora das Tempestades, todos poesia; Alma, Terceira Rosa (romance); O Homem do País Azul, contos e Cão Como Nós, novela.

(Notas biográficas in O Quadrado (contos), edição Dom Quixote)

O seu livro de estreia, Praça da Canção, começa com um belíssimo texto,poema em prosa, Rosas Vermelhas.

É desse texto que vamos transcrever alguns excertos, uma vez que é algo extenso.

Rosas Vermelhas

"Nasci em Maio, o mês das rosas, diz-se. Talvez por isso eu fiz das rosas a minha flor, um símbolo, uma espécie de bandeira para mim mesmo.

E todos os anos, quando chegava o mês de Maio, ou mais exactamente, no dia 12 de Maio, às dez e um quarto da manhã (que foi a hora em que eu nasci), a minha mãe abria a porta do meu quarto, acordava-me com um beijo e colocava numa jarra um ramo de rosas vermelhas, sem palavras. Só as suas mãos, compondo as rosas, oficiavam nesse estranho silêncio cheio de ritos e ternura.

Nesse tempo o sol nascia exactamente no meu quarto. (...) Quando chegava o mês de Maio, eu abria a janela e ficava bêbado desse cheiro a fogueiras, carroças e ciganos. (...) E tudo estava certo, nesse tempo, ou pelo menos, nada tinha o sabor do irremediável. (...) Não havia polícia nesse tempo. Ninguém roubaria a tranquilidade do meu sonho, ninguém viria a meio da noite para me levar, porque bastava eu chamar:

-Mãe!

E logo essa voz tão calma, entrava dentro de mim, mandava embora os fantasmas, (...)

Em Maio de 1963 eu estava na cadeia. Por vezes, a meio da noite, um grito abalava as traves da minha cabeça, direi mesmo da minha vida, e eu acordava suado, dolorido, como se um rato (talvez o medo?) me roesse o estômago. E era inútil chamar. Onde ficara essa voz que dantes vinha repor o meu sono no seu lugar, repondo a paz dentro de mim? (...)

Eu estava, pela primeira vez, fisicamente só (...) era terrível essa manhã sem manhã, essa realidade branca e gelada (...) era terrível acordar nessa estreita paisagem com sete passos de comprimento por sete de largura (...)

Os fantasmas tinham entrado no meu sono (...) os fantasmas eram donos do país. E se eles viessem de repente, a meio da noite e eu chamasse:

-Mãe!

a voz (tão calma) de minha mãe já nada poderia contra eles. (...) Eu nunca pude suportar a sujeição. Acaso poderia ter escolhido outro caminho?

Por isso, em Maio de 1963, eu estava na cadeia, isto é, de certo modo, eu estava no meu posto. No dia 12 não acordei com o beijo de minha mãe.

Porém, nessa manhã (não posso dizer ao certo porque não tinha relógio, mas talvez - quem sabe? -, às dez e um quarto, que foi a hora em que eu nasci), o carcereiro abriu a porta e entregou-me, já aberta, uma carta de minha mãe. E ao desdobrar as folhas que vinham dentro do sobrescrito violado, a pétala vermelha duma rosa vermelha, caiu, como uma lágrima de sangue, no chão da minha cela."

sábado, 25 de abril de 2009

LIBERDADE



Para lembrar o dia 25 de Abril, dêmos lugar à poesia, uma das mais poderosas e eficazes armas que contribuíram para derrubar a ditadura.

Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo

Sophia de Mello Breyner Andresen


LETRA PARA UM HINO

É
possível falar sem um nó na garganta
é possível amar sem que venham proibir
é possível correr sem que seja a fugir.
Se tens vontade de cantar não tenhas medo: canta.

É possível andar sem olhar para o chão
é possível viver sem que seja de rastos.
Os teus olhos nasceram para olhar os astros
se te apetece dizer não grita comigo: não

É possível viver de outro modo. É
possível transformares em arma a tua mão.
É possível o amor. É possível o pão.
É possível viver de pé.

Não te deixes murchar. Não deixes que te domem.
É possível viver sem fingir que se vive.
É possível ser homem.
É possível ser livre livre livre.

Manuel Alegre



«QUEM A TEM…»

Não hei-de morrer sem saber
qual a cor da liberdade.

Eu não posso senão ser
desta terra em que nasci.
Embora ao mundo pertença
e sempre a verdade vença,
qual será ser livre aqui,
não hei-de morrer sem saber.

Trocaram tudo em maldade,
é quase um crime viver.
Mas, embora escondam tudo
e me queiram cego e mudo,
não hei-de morrer sem saber
qual a cor da liberdade.

Jorge de Sena


35 d.a. (depois de abril)

e os manuscritos antigos falam de ti e das pessoas que tu viste
enquanto nascias entre flores, multidões e tinta de jornal


e viste a luz, numa gruta isolada entre a pedra e o mar
enquanto a dimensão da perspectiva era enigma e urgência
e tópico de uma terapia absoluta

e cresceste com adornos impressionistas, exigências compulsivas
e categorias de crise entre a camisa de luxo e o coração doente
e tens a emoção fácil, a norma rebuscada, o espelho relativo
e tens memória paradoxal em “part-time”
cravada na tua alma de medo

estás colado à condição de mudança milimétrica
entre as pernas da consciência e os limites eróticos
da censura tradicional

e preferes escondes o rosto, ficares preso em cartazes
do ontem que não vemos

e as coisas complicam-se quando te chamam:
- abril! abril! abril!

e tu calas a resposta, e tu morres no silêncio
quase estúpido e quase cobarde do sujeito anónimo

e é pena, porque, qualquer dia
ninguém te conhece


Nelson Ferraz


Um dia diferente

amanhã
quando nascer um hino de alegria
em todos os olhares
de todas as crianças

quando o meu sangue vermelho
e a minha boca vermelha
se transformarem

e quando amadurecerem os meus braços
as espigas dos meus dedoos
e os homens finalmente se encontrarem
e se chamarem de novo irmãos

e quando houver em cada pensamento
a raíz futura de um poema
e uma verdade pura em cada beijo
e em cada beijo uma canção de paz

amanhã
meu amor minha pátria meu poema
cantaremos a cada aurora
um dia diferente

Joaquim Pessoa

sexta-feira, 27 de março de 2009

Dia Mundial do Teatro


Comemora-se hoje, o Dia Mundial do Teatro. Em Portugal também. Talvez com não tantas iniciativas como seria para desejar. Digo, iniciativas gratuitas, pois neste dia, entendo que o teatro deve estar ao serviço do povo, pelo menos daquele povo que não tem possibilidades de usufruir regularmente do espectáculo teatral. Permito-me retirar da mensagem para este dia, escrita para Portugal, pelo director brasileiro Augusto Boal: " Teatro não pode ser apenas um evento - é forma de vida! Mesmo quando inconscientes, as relações humanas são estruturadas em forma teatral: o uso do espaço, a linguagem do corpo, a escolha das palavras e a modulação das vozes, o confronto de ideias e paixões, tudo o que fazemos no palco fazemos sempre nas nossas vidas: nós somos teatro! (...) Uma das principais funções da nossa arte é tornar conscientes esses espectáculos da vida diária, onde os actores são os próprios espectadores, o palco é a plateia, e a plateia, o palco. Somos todos artistas: fazendo teatro aprendemos a ver aquilo que nos salta aos olhos, mas que somos incapazes de ver, tão habituados estamos apenas a olhar. O que nos é familiar torna-se invisível. Fazer teatro, pelo contrário, ilumina o palco da nossa vida quotidiana."
Pela nossa parte, Companhia de Teatro do Vale do Sousa, entrámos bem nas comemorações. Às 9 horas da manhã estávamos na EB 1 de Mirelo, Paços de Ferreira, a representar a nossa peça "O Semeador de Palavras" para 250 crianças. Às 10, 11 e 12 horas estivemos na EB 1 de Paredes, a representar para 450 crianças. E às 14 horas terminámos no jardim Infantil de Rebordosa. Foi um dia em cheio, cansativo, mas recompensador, por termos sido tão bem acolhidos pelas crianças.
A título informativo, quaisquer duzentos euritos pagam o nosso "Semeador de Palavras", trabalho especialmente vocacionado para alunos do Ensino Básico. Se houver interessados, podem contactar para: 963062202, ou carantonha@netcabo.pt.
Em jeito de reflexão, até pela actualidade, deixo aqui o que há quase duzentos anos escreveu Almeida Garrett, o renovador do teatro português: "O Teatro é um grande meio de civilização, mas não prospera onde a não há".
Finalizo com um soneto de Manuel Alegre, escrito e editado no Dia Mundial do Teatro de 1997
O ACTOR
Do actor é ser ele sendo muitos
e sendo muitos só assim ser ele
Alegrias paixões amores e lutos
e as máscaras da vida à flor da pele.
O rico e o pobre o rei e o vagabundo
o rosto mais formoso e o mais medonho
que só ele é Ninguém e Todo-o-Mundo
e só por ele em cena a vida é sonho
Mas de todos só ele é todos nós
quem nos sonhamos quem não somos quem
por ele é outra vida em cada acto.
E é ele que vive de ser voz
de ser o corpo e a alma de ninguém
no teatro do mundo no teatro.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Acabem com a guerra, porra


Gostava de deixar aqui, não uma opinião, mas uma reflexão sobre o terrível conflito israelo-palestino ou palestino-israelita (e aqui a ordem dos factores não é arbitrária), mas não vou fazê-lo, pois temo correr o risco de repetir- e portanto tornar-me igual- o que tantos plumitivos, políticos, fazedores de opinião, senhores da guerra (pois também os há, ainda que não directamente metidos nela, antes interessados) já disseram. Que todos estes senhores se lembrem que numa guerra há sempre, pelo menos, dois opositores, e que ambos terão as suas razões. E como estou convencido que todos eles conhecerão a génese do território e do conflito, atrevo-me a perguntar quais os motivos que levam estes senhores acima citados, a tomar partido por um dos lados? Interesses, of course. Pela minha parte, embora tenha opinião sobre o conflito, não gostaria de tomar partido, uma vez que estou envolvido num conflito pessoal. Que é o de que, paradoxalmente, tomo o partido dos dois lados, uma vez que, embora não seja pacifista fundamentalista (não sou dos que dão facilmente a outra face), sou visceralmente contra a guerra, e o meu desejo é que os dois lados se entendam depressa, uma vez que inevitavelmente terão ad aeternum, de viver lado a lado. É então necessário que os senhores que governam o mundo instável em que vivemos, se mobilizem e desinteressadamente dêem as mãos aos dois lados. Assim seja. Este pobre escrito, em que afinal deixei uma tímida opinião, é o pretexto para deixar também dois belos poemas.
A GUERRA
Num ano qualquer,
houve uma batalha qualquer,
numa terra qualquer,
entre um rei qualquer
e outro rei qualquer.
No fim, um anjo qualquer
desceu no campo de batalha,
pegou nos cadáveres do rei qualquer
e do rei qualquer
e perguntou
para um deus qualquer:
_ Qual quer?
Poema de CARLOS PINHÃO, mais conhecido como jornalista desportivo, mas que foi também um excelente escritor e poeta, especialmente com obras para crianças
AS MÃOS
Com mãos se faz a paz se faz a guerra.
Com mãos tudo se faz e se desfaz.
Com mãos se faz o poema - e são de terra.
Com mãos se faz a guerra - e são a paz.
Com mãos se rasga ao mar. Com mãos se lavra.
Não são de pedras estas casas mas
de mãos. E estão no fruto e na palavra
as mãos que são o canto e são as armas.
E cravam-se no Tempo como farpas
as mãos que vês nas coisas transformadas.
Folhas que vão no vento: verdes harpas.
De mãos é cada flor cada cidade.
Ninguém pode vencer estas espadas:
nas tuas mãos começa a liberdade.
Poema de Manuel Alegre in O Canto e as Armas (1967), edição do autor (Poesia Nosso Tempo), Maio de 1970