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terça-feira, 4 de janeiro de 2011

O primeiro poema de 2011

Ora aqui está o primeiro poema de 2011. É um poema do poeta brasileiro Mário Quintana. Fala-nos da vida e do seu percurso    no mapa do tempo. Mas será que a vida corre no tempo, como nos diz o poeta? Fica a dúvida. E o número 666. O número da besta.Que de alguma forma está também relacionado com o tempo.

SEISCENTOS E SESSENTA E SEIS

A vida é uns deveres que nós trouxemos para fazer em casa.
Quando se vê, já são 6 horas: há tempo...
Quando se vê, já é 6ªfeira...
Quando se vê, passaram 60 anos...
Agora, é tarde demais para ser reprovado...
E se me dessem - um dia - uma outra oportunidade,
eu nem olhava o relógio.
seguia sempre, sempre em frente ...

E iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas.
Mario Quintana ( In: Esconderijo do tempo)

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Poema para acabar o dia

Tendo ainda como tema o vento, aqui fica um interessante poema de Ruy Belo,, que apesar de nos conduzir para o seu tom laudatório surpreende pelo fim inesperado.

O VALOR DO VENTO

Está hoje um dia de vento e eu gosto do vento
O vento tem entrado nos meus versos de todas as maneiras
e só entram nos meus versos as coisas de que gosto
O vento das árvores o vento dos cabelos
o vento do inverno o vento do verão
O vento é o melhor veículo que conheço
Só ele traz o perfume das flores só ele traz
a música que jaz à beira-mar em agosto
Mas só hoje soube o verdadeiro valor do vento
O vento actualmente vale oitenta escudos
Partiu-se o vidro grande da janela do meu quarto.

A fotografia que ilustra o texto, não lhe respeita directamente, é um cartaz do filme "E Tudo O Vento Levou (Gone with the wind)", de 1939, com Vivian Leigh, Clark Gable e Olivia de Haviland, que ainda hoje, 71 anos depois, continua a ser um êxito. Por isso a quis aqui.

Passem um bom dia

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

O Jardineiro Míope

Estava há pouco a acabar de jantar, e de repente, bruummmm, um estoiro enorme. Foi um trovão, mesmo aqui por cima.O Nico (o meu gato), que me fazia companhia, assustou-se, saltou do aparador para a mesa, da mesa para o aparador, do aparador para o chão, deixou uma restolhada e foi esconder-se. Diante de tal estoiro, eu cá, pensei "eh pá, o tempo está zangado.Ou será «Deus», que lá em cima não está a gostar do que se passa cá em baixo?".Para os ateus será o Tempo, para os cristãos será Deus. Mas o que é facto é que o mau tempo, em especial a chuva não nos deixa e em vez de benefício, está a tornar-se um prejuízo. Já me desviava do trovão. Depois de ouvir o estoiro, lembrei-me de um poema de Sidónio Muralha. Se aceitarmos que Deus, que segundo dizem tudo vê, é a entidade que comanda tudo, não teremos dificuldade em acreditar no que escreveu Sidónio Muralha no seu poema O Jardineiro Míope. Mas que terá a ver um jardineiro, com uma trovoada. Vamos ver. 


O JARDINEIRO MÍOPE


O jardineiro míope levanta-se às cinco horas e vai dar alpista
às flores
E a seguir rega os pássaros
e enquanto vai regando vai dizendo:
“que bem que cantam as minhas papoulas”
Um dia, a Liga das Senhoras Mais Bondosas do Mundo,
teve um gesto malvado
e ofereceu óculos ao jardineiro míope
que ajustou implacavelmente as imagens
perdeu toda a poesia
e viu tudo de maneira tão clara
que teve a ideia escura de pedir emprego de funcionário público
enquanto a presidente da Liga
da Liga Mais Bondosa
mais bondosa do mundo
subia para o céu
e se sentava à mão direita de Deus Padre
que lhe enfiou uma bofetada divina
que todos nós ouvimos em forma de trovão.

Boas trovoadas, carantonhas