quinta-feira, 17 de maio de 2012

Extinção? Refundação

A fazer fé no que li nos jornais e vi na televisão, ou muito me engano, ou a igreja católica vai brevemente extinguir-se, ou terá, inevitavelmente, de sofrer uma profunda remodelação. Ou então, alterar todos os seus códices e refundar-se.
- E porquê? Já que perguntaram, responderei:- Então não perdeu o corpo de deus e todos os santos?

sábado, 14 de abril de 2012

O momento já é de saudade

Chamava-se Bela Maria Dourado Ferreira Mendes. Era a Bela, a Bela Maria, até a Belinha. Sabiamos da(s) sua(s) fragilidade(s). Ela também. Sabiamos que estava cansada de viver. Não esperavamos é que tivesse resolvido partir tão cedo. Foi a MULHER que me "aturou" durante quarenta e cinco anos. "Deu-nos" um casal de filhos que amamos e três netos que adoramos. Mesmo na doença tentou sempre estar de bem com a vida, mas, de tanto lutar não resistiu ao chamamento e resolveu partir para a viagem sem retorno, hoje, manhã cedo. Sabemos que alcançou a paz que merecia. BEM HAJAS pelo que por nós fizeste enquanto estiveste connosco
Em sua memória aqui fica um poema de José Gomes Ferreira 

"Devia morrer-se de outra maneira.
Transformarmo-nos em fumo, por exemplo.
Ou em nuvens.
Quando nos sentíssemos cansados, fartos do mesmo sol a fingir de novo todas as manhãs, convocaríamos os amigos mais íntimos com um cartão de convite para o ritual do Grande Desfazer: «Fulano de Tal comunica ao mundo que vai transformar-se em nuvem hoje às 9 horas. Traje de passeio.»
E então, solenemente, com passos de reter tempo, fatos escuros, olhos de lua de cerimónia, viríamos todos assistir à despedida.
Apertos de mãos quentes. Ternura de calafrio. Adeus! Adeus!»
E, pouco a pouco, devagarinho, sem sofrimento, numa lassidão de arrancar raízes… (primeiro, os olhos… em seguida, os lábios… depois os cabelos…) a carne, em vez de apodrecer, começaria a transfigurar-se em fumo… tão leve… tão subtil… tão pólen… como aquela nuvem além (vêem?) – nesta tarde de outono ainda tocada por um vento de lábios azuis…"


                                              

quarta-feira, 21 de março de 2012

Dia Mundial da Poesia

Hoje é o Dia Mundial da Poesia. Aproveitê-mo-lo para ler um livro de poesia, ou mesmo só um poema, ou para assistir a uma qualquer sessão de poesia. Eu vou estar em Amarante na Biblioteca Municipal Albano Sardoeira  para participar na iniciativa "Letras e Poesia" com os alunos e familiares da Escola EB 2/3 de Amarante.

A poesia é uma casa cheia de versos onde moram os poetas
A poesia gosta de acordar cedo para ter tempo de se espreguiçar antes de ouvir a música dos pássaros.

TEMPO DE POESIA

Todo o tempo é de poesia.

Desde a névoa da manhã
à névoa do outro dia.

Desde a quentura do ventre
à frigidez da agonia.

Todo o tempo é de poesia.

Entre bombas que deflagram.
Corolas que se desdobram.
Corpos que sangue soçobram.
Vidas que a amar se consagram.

Sob a cúpula sombria
das mãos que pedem vingança.
Sob o arco da aliança
da celeste alegoria.

Todo tempo é de poesia.

Desde a arrumação do caos
à confusão da harmonia.

Poema de António Gedeão

segunda-feira, 5 de março de 2012

Corrigir a nossa História?

Há dias, o jornalista Manuel António Pina, na sua crónica diária no JN, esta com o título “Apague-se a História”, contava-nos que um procurador brasileiro quer que seja retirada do Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, a notação “cigano” no seu sentido pejorativo: “que, ou aquele que trapaceia, velhaco, burlador”. Diz o procurador “por semear a intolerância étnica”. Diz-nos MAP que “é o método de recalcamento típico das hordas do política e linguisticamente correcto: matar o mensageiro quando ele dá notícia de acontecimentos que… não deveriam ter acontecido”. E então teria que chegar a vez dos dicionários, “enquanto não chega a descafeinização das línguas de todos os usos e sentidos preconceituosos que nelas se foram acumulando ao longo dos séculos”.
“A língua portuguesa, por exemplo, seria limpa do uso de “judeu” ou “escocês” no sentido de avarento, “judiarias” no sentido de maldades, ou ainda expressões como “trabalhar como um negro”, “trabalhar como um mouro”, “trabalhar como um galego”, “gozar como um preto”, etc…Isto é, seria limpar da sua História. E, já agora, porque não limpar a própria História dos factos feios e deixar só os bonitos e “correctos”?”
É aqui que estou em desacordo com MAP, pelo menos no que à nossa História diz respeito. Que em inúmeros factos e fastos está cheia de inexactidões, criadas no tempo dos quarenta e tal ano de obscurantismo que nos governou. Era preciso mostrar ao mundo que na nossa História não havia misérias, só grandezas. E então havia que “dourar” as histórias. Querem factos? Dois ou três. Temos aquela “santa” rainha que enquanto o seu marido-rei se dedicava a escrever cantigas de amigo “ai deus i u é”, dava umas escapadelas até junto do(s) escudeiro(s) para que este(s) a ajudassem na colheita das rosas. Ou então aquele nobre aio que de corda ao pescoço, se foi entregar, com a família, ao rei de Leão. A história não nos diz porquê. Mas nós sabemos. Ou a daquele outro “santo” que rezava, “borrado de medo”, atrás de um penedo enquanto a batalha decorria. Como estes, há muitos outros factos “adocicados” na nossa História. Seria bom que a História fosse refeita. Eu sei, eu sei, a confusão que isso iria causar! Fora isto, que nos valha São Pancrácio ou então Nossa Senhora das Coisas Impossíveis.

domingo, 4 de março de 2012

Deus(es)

Desde sempre o Homem se interrogou sobre a sua origem, sempre pensou que havia “algo”, “uma força”, “um ser superior” que o havia criado, que justificasse a sua existência. E então criou ele próprio, não uma, mas várias imagens de seres que justificassem as suas emoções, os seus sentimentos, as suas grandezas e as suas misérias, mas também a existência de tudo o que o rodeava. E assim nasceram os deuses Havia deuses para tudo. Que foram colocados no lugar ideal, o Olimpo Com o correr do tempo o Homem foi evoluindo e entendeu que era uma chatice pedir contas ou explicar-se perante tantos deuses. Achou que era uma trabalheira. E então pensou, pensou, e reuniu-os todos num só, que tivesse o poder de todos os outros que já existiam, e criou-O. Deu existência ao Ser Supremo, ao Todo Poderoso, um ser omnipresente (que tem o dom da ubiquidade), omnipotente (que tem todo o poder) e omnisciente (que tudo sabe). E chamou-lhe Deus e colocou-O no céu. E delegou Nele a responsabilidade de tudo. Até do caos que é o mundo actual. Ou não tivesse sido Ele o criador de Babel. Em suma, de vez em quando é preciso perdir-Lhe responsabilidades, Mas…


Responsabilidades

Gostava de deitar Deus no meu colo
e dar-lhe uns açoites no rabo.
Deus é uma criança malcriada.
Uma criança caprichosa que tem mais brinquedos
do que aqueles que pode usar.
Nós  somos apenas bonecos abandonados
aos quais o dono arrancou os braços.
Um jogo de estratégia em que as baixas não contam.

Gostava de pôr Deus de joelhos, virado para a parede,
pôr-lhe umas grandes orelhas de burro,
mandá-lo para a cama sem jantar,
obrigá-lo a escrever um milhão de vezes:
Tenho de ser responsável,
tenho de acabar os trabalhos.
Infelizmente Deus é apenas uma criança malcriada,
não se lhe podem pedir responsabilidades.
Deveria castigar-se era os pais,
os que o criaram

Jorge Espina
(A tradução é minha)

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Lembrar Josè Afonso

25 anos é muito tempo? Para algumas coisas parece que foi ontem. Para outras, se a lei do esquecimento não as varrer da memória, um quarto de século é já a saudade que nos morde. No caso de Zeca Afonso, o maior cantor de intervenção português, que nos deixou num  23 de Fevereiro de há 25 anos, é (foi) a memória colectiva que ficou(a) mais pobre. O Zeca foi um prolífico autor de canções, que musicou. Mas para alé disso escreveu muitos poemas que não musicou. Escreveu e musicou também poemas para peças de teatro da Barraca.
Aqui fica o registo de dois dos poemas não musicados:

«VENÂNCIO ERA COELHO»

Venâncio era coelho
Numa outra geração
Transmigrava de noite
De dia sucumbia
Quatro coisas Venâncio
Adorava fazer
Ver, comer, rogar pragas
Cortar as patas às moscas
Viaja sempre
Com apelidos falsos
Não declara
A bagagem que leva
Diz-se ministro
Papa
Boletineiro
Tem um metro e setenta
Não se importa
Que lhe mijem em cima

Atenção é vampiro

A PALAVRA

A palavra gatinha
Sem nada por cima
A palavra rompe
                              investe
                                          perfura
Comprida a palavra perde-se
Em redor da mesa reveste-se organiza-se

A palavra precisa de ternura

 O poema Epígrafe para a Arte de furtar, cantado pelo Zeca, é de Jorge de Sena.

domingo, 29 de janeiro de 2012

Silêncio e tanta gente

"Silêncio e tanta gente" é, quanto a mim, uma das melhores canções da música portuguesa, pelo poema, porque de um poema se trata, e pela orquestração. Parece-me uma boa saída de domingo~e uma excelente preparação par o dia de trabalho de amanhã. Bom resto de domingo.