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terça-feira, 15 de abril de 2014

DOIS ANOS

Hoje, porque a nossa passagem pelo tempo é inexorável, à distância de dois anos da tua partida, vivemos de recordar memórias. E lembro-me de como tu gostavas de flores. E como eu só tas trazia em ocasiões especiais, “puxavas-me as orelhas”,por não tas oferecer mais vezes. Eu sei que não era tanto a flor que contava, mas o gesto. Então, hoje, para te ter mais presente, comprei uma rosa, que por aqui ficará até que também ela se vá. Espero que gostes.
Deixo-te com um bonito poema de Eugénio de Andrade e um beijo terno de saudade.

Poema VIII

Foi para ti que criei as rosas.
Foi para ti que lhes dei perfume.
Para ti rasguei ribeiros
E dei às romãs a cor do lume.

Foi para ti que pus no céu a lua
E o verde mais verde dos pinhais.
Foi para ti que deitei no chão
Um corpo aberto como os animais

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Este texto foi publicado ontem no Facebook.O aniversário da Bela Maria foi ontem

"Não houve almoço festivo nem bolo, nem flores. À mesa (fisicamente) era só eu. Mas tu estiveste cá, como muitas vezes acontece. Era o teu aniversário. Quando te apetecer cá voltar, prometo que te levarei

ATÉ AO PÔR DO SOL

Levar-te-ei, sorrindo, pelo braço
até quando as palavras
não forem mais que sombras;
até quando as estátuas
se aborreçam da da vida e pulverizem;
até quando os lagos
noivarem as nuvens e se puser o sol.
Levar-te-ei, não esqueças,
até ao pôr do sol.

(poema de Rebordão Navarro)"

sábado, 2 de novembro de 2013

Saudade

Se fosses ainda matéria, seria hoje o dia de visitar-te, estar algum tempo contigo à conversa. E levar-te flores.
Mas sabes, ainda te “vejo” cá por casa, muito presente, ainda converso muito contigo.
Hoje, que és espírito, será o dia em que num silêncio recolhido, estarei em frente a ti, olhos nos olhos, mão na mão, a dizer-te que te amo. E as flores que te levaria, se fosses matéria, deixo-tas em jeito de homenagem num bonito e singelo poema de Eugénio de Andrade:

E de súbito desaba o silêncio
É um silêncio sem ti
Sem álamos
Sem luas

Só nas minhas mãos ouço a música das tuas.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Lembrar Josè Afonso

25 anos é muito tempo? Para algumas coisas parece que foi ontem. Para outras, se a lei do esquecimento não as varrer da memória, um quarto de século é já a saudade que nos morde. No caso de Zeca Afonso, o maior cantor de intervenção português, que nos deixou num  23 de Fevereiro de há 25 anos, é (foi) a memória colectiva que ficou(a) mais pobre. O Zeca foi um prolífico autor de canções, que musicou. Mas para alé disso escreveu muitos poemas que não musicou. Escreveu e musicou também poemas para peças de teatro da Barraca.
Aqui fica o registo de dois dos poemas não musicados:

«VENÂNCIO ERA COELHO»

Venâncio era coelho
Numa outra geração
Transmigrava de noite
De dia sucumbia
Quatro coisas Venâncio
Adorava fazer
Ver, comer, rogar pragas
Cortar as patas às moscas
Viaja sempre
Com apelidos falsos
Não declara
A bagagem que leva
Diz-se ministro
Papa
Boletineiro
Tem um metro e setenta
Não se importa
Que lhe mijem em cima

Atenção é vampiro

A PALAVRA

A palavra gatinha
Sem nada por cima
A palavra rompe
                              investe
                                          perfura
Comprida a palavra perde-se
Em redor da mesa reveste-se organiza-se

A palavra precisa de ternura

 O poema Epígrafe para a Arte de furtar, cantado pelo Zeca, é de Jorge de Sena.