Para lembrar o dia 25 de Abril, dêmos lugar à poesia, uma das mais poderosas e eficazes armas que contribuíram para derrubar a ditadura.Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo
Sophia de Mello Breyner Andresen
LETRA PARA UM HINO
É possível falar sem um nó na garganta
é possível amar sem que venham proibir
é possível correr sem que seja a fugir.
Se tens vontade de cantar não tenhas medo: canta.
É possível andar sem olhar para o chão
é possível viver sem que seja de rastos.
Os teus olhos nasceram para olhar os astros
se te apetece dizer não grita comigo: não
É possível viver de outro modo. É
possível transformares em arma a tua mão.
É possível o amor. É possível o pão.
É possível viver de pé.
Não te deixes murchar. Não deixes que te domem.
É possível viver sem fingir que se vive.
É possível ser homem.
É possível ser livre livre livre.
Manuel Alegre
«QUEM A TEM…»
Não hei-de morrer sem saber
qual a cor da liberdade.
Eu não posso senão ser
desta terra em que nasci.
Embora ao mundo pertença
e sempre a verdade vença,
qual será ser livre aqui,
não hei-de morrer sem saber.
Trocaram tudo em maldade,
é quase um crime viver.
Mas, embora escondam tudo
e me queiram cego e mudo,
não hei-de morrer sem saber
qual a cor da liberdade.
Jorge de Sena
35 d.a. (depois de abril)
e os manuscritos antigos falam de ti e das pessoas que tu viste
enquanto nascias entre flores, multidões e tinta de jornal
e viste a luz, numa gruta isolada entre a pedra e o mar
enquanto a dimensão da perspectiva era enigma e urgência
e tópico de uma terapia absoluta
e cresceste com adornos impressionistas, exigências compulsivas
e categorias de crise entre a camisa de luxo e o coração doente
e tens a emoção fácil, a norma rebuscada, o espelho relativo
e tens memória paradoxal em “part-time”
cravada na tua alma de medo
estás colado à condição de mudança milimétrica
entre as pernas da consciência e os limites eróticos
da censura tradicional
e preferes escondes o rosto, ficares preso em cartazes
do ontem que não vemos
e as coisas complicam-se quando te chamam:
- abril! abril! abril!
e tu calas a resposta, e tu morres no silêncio
quase estúpido e quase cobarde do sujeito anónimo
e é pena, porque, qualquer dia
ninguém te conhece
Nelson Ferraz
Um dia diferente
amanhã
quando nascer um hino de alegria
em todos os olhares
de todas as crianças
quando o meu sangue vermelho
e a minha boca vermelha
se transformarem
e quando amadurecerem os meus braços
as espigas dos meus dedoos
e os homens finalmente se encontrarem
e se chamarem de novo irmãos
e quando houver em cada pensamento
a raíz futura de um poema
e uma verdade pura em cada beijo
e em cada beijo uma canção de paz
amanhã
meu amor minha pátria meu poema
cantaremos a cada aurora
um dia diferente
Joaquim Pessoa