A primavera está quase no fim. O reflorestamento da fauna e da flora, estarão quase terminados, se não o estiverem já, não tenham sofrido porventura das oscilações do tempo. Dentro de um mês já ai teremos o verão, parece mesmo que ele já cá está tão altas e desproporcionadas teem sido as temperaturas destes dias. Mas não foram as temperaturas que me lembraram a primavera. É que hoje, aqui na cidade, coisa que já vai sendo rara, vi uma andorinha esvoaçando em redor do jardim da praça. E que saudades me assaltaram. È que, já há muitos anos, quando vim morar para o prédio onde ainda hoje moro, durante anos havia ninhos de andorinha debaixo das varandas, que todos os anos eram ocupados, para que nascessem novos seres. Um dia, alguém que deveria andar zangado com a vida, resolveu limpar os ninhos. E que saudades!
Por isso aqui fica um poema do meu amigo Nelson Ferraz:
CHEGARAM AS ANDORINHAS
Trazem olhos de mar quando saem do poente.
E num traço, embrulhado de azul, inventam bailados
como se fossem um aceno de luz.
Hoje o vento veio dizer-me a cor exacta da ausência
enquanto eu esperava no branco da ânsia.
Até que, no ambar da tarde, numa sílaba de bruma, algo
se move. Em sopros de negro.
Primeiro, de repente, como um grito de espaço. Depois,
mensamente, como gotas de azeviche no risco do ar.
Cheira a verde na distância.
Vem meu amor, vem ver!...
Chegaram as andorinhas!...
Carantonha- s.f.-contorsão do rosto, esgar, máscara, cara feia, carranca, caraça. * Em criança, na região de onde sou natural, e onde então vivia, quando se brincava ao carnaval, o artefacto que nos ocultava o rosto, era a carantonha porque por norma era coisa feia. O tempo passa, a evolução acontece, e hoje, pelo menos quando jogamos ao carnaval, usamos uma máscara. Ou será que não a usamos todos os dias?
Mostrar mensagens com a etiqueta Nelson Ferraz. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Nelson Ferraz. Mostrar todas as mensagens
sábado, 28 de maio de 2011
sexta-feira, 17 de dezembro de 2010
Frio? Normal
Porque o dia esteve frio, porque a noite está fria (no momento em que escrevo o termómetro marca 4 graus), porque o texto anterior é um pouco azedo, apetece-me (vá-se lá saber porquê) trazer aqui um poema do meu amigo Nelson Ferraz.
NORMAL
O sol hoje vestiu um casaco porque tinha frio.
A lua, de carapins, deitou-se numa nuvem de flanela
As àrvores, hoje, tinham livros em vez de folhas
E o mar fazia ondas de areia que se quedavam na terra da praia.
As aves nadavam em rodopio.
As flores cresciam no betão.
Tudo normal. Tudo absolutamente normal.
Até mesmo...aquele senhor importante
Que para parecer bem
Colocou na alma um código de barras.
NORMAL
O sol hoje vestiu um casaco porque tinha frio.
A lua, de carapins, deitou-se numa nuvem de flanela
As àrvores, hoje, tinham livros em vez de folhas
E o mar fazia ondas de areia que se quedavam na terra da praia.
As aves nadavam em rodopio.
As flores cresciam no betão.
Tudo normal. Tudo absolutamente normal.
Até mesmo...aquele senhor importante
Que para parecer bem
Colocou na alma um código de barras.
sábado, 25 de abril de 2009
LIBERDADE
Para lembrar o dia 25 de Abril, dêmos lugar à poesia, uma das mais poderosas e eficazes armas que contribuíram para derrubar a ditadura.Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo
Sophia de Mello Breyner Andresen
LETRA PARA UM HINO
É possível falar sem um nó na garganta
é possível amar sem que venham proibir
é possível correr sem que seja a fugir.
Se tens vontade de cantar não tenhas medo: canta.
É possível andar sem olhar para o chão
é possível viver sem que seja de rastos.
Os teus olhos nasceram para olhar os astros
se te apetece dizer não grita comigo: não
É possível viver de outro modo. É
possível transformares em arma a tua mão.
É possível o amor. É possível o pão.
É possível viver de pé.
Não te deixes murchar. Não deixes que te domem.
É possível viver sem fingir que se vive.
É possível ser homem.
É possível ser livre livre livre.
Manuel Alegre
«QUEM A TEM…»
Não hei-de morrer sem saber
qual a cor da liberdade.
Eu não posso senão ser
desta terra em que nasci.
Embora ao mundo pertença
e sempre a verdade vença,
qual será ser livre aqui,
não hei-de morrer sem saber.
Trocaram tudo em maldade,
é quase um crime viver.
Mas, embora escondam tudo
e me queiram cego e mudo,
não hei-de morrer sem saber
qual a cor da liberdade.
Jorge de Sena
35 d.a. (depois de abril)
e os manuscritos antigos falam de ti e das pessoas que tu viste
enquanto nascias entre flores, multidões e tinta de jornal
e viste a luz, numa gruta isolada entre a pedra e o mar
enquanto a dimensão da perspectiva era enigma e urgência
e tópico de uma terapia absoluta
e cresceste com adornos impressionistas, exigências compulsivas
e categorias de crise entre a camisa de luxo e o coração doente
e tens a emoção fácil, a norma rebuscada, o espelho relativo
e tens memória paradoxal em “part-time”
cravada na tua alma de medo
estás colado à condição de mudança milimétrica
entre as pernas da consciência e os limites eróticos
da censura tradicional
e preferes escondes o rosto, ficares preso em cartazes
do ontem que não vemos
e as coisas complicam-se quando te chamam:
- abril! abril! abril!
e tu calas a resposta, e tu morres no silêncio
quase estúpido e quase cobarde do sujeito anónimo
e é pena, porque, qualquer dia
ninguém te conhece
Nelson Ferraz
Um dia diferente
amanhã
quando nascer um hino de alegria
em todos os olhares
de todas as crianças
quando o meu sangue vermelho
e a minha boca vermelha
se transformarem
e quando amadurecerem os meus braços
as espigas dos meus dedoos
e os homens finalmente se encontrarem
e se chamarem de novo irmãos
e quando houver em cada pensamento
a raíz futura de um poema
e uma verdade pura em cada beijo
e em cada beijo uma canção de paz
amanhã
meu amor minha pátria meu poema
cantaremos a cada aurora
um dia diferente
Joaquim Pessoa
Subscrever:
Mensagens (Atom)
