Mostrar mensagens com a etiqueta Porto. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Porto. Mostrar todas as mensagens

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Prosa poética para acabar o dia

Hoje vamos acabar o dia com um texto poético de Eugénio de Andrade, porque me lembrei que a Fundação que tem o seu nome está em vias de ser extinta. O Porto "trata bem" os seus valores. Voltarei em breve ao assunto Fundação.

"O Porto é só uma certa maneira de me refugiar na tarde, forrar-me de silêncio e procurar trazer à tona algumas palavras, sem outro fito que não seja o de opor ao corpo espesso destes muros a inssurreição do olhar.
O Porto é só esta atenção empenhada em escutar os passos dos velhos, que a certas horas atravessam a rua para passarem os dias no café em frente, os olhos vazios, as lágrimas todas das crianças de S. Vitor correndo nos sulcos da sua melancolia.
O Porto é só a pequena praça onde há tantos anos aprendo metodicamente a ser árvore, aproximando-me cada vez mais da restolhada matinal dos pardais, esses velhacos que, por muito que se afastem, regressam sempre à minha vida.
Desentendido da cidade, olho na palma da mão os resíduos da juventude, e dessa paixão sem regra deixarei que uma pétala pouse aqui, por ser de cal."

Carantonhas, façam o favor de se portar mal e tenham um bom domingo.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Ir para o maneta


No passado domingo foi lembrado no Porto, o 200º aniversário do terrível desastre da Ponte das Barcas, em que morreram afogados centenas de portuenses, fala-se em cerca de cinco mil, quando fugiam das tropas francesas, que invadiam a cidade. Esta era a 2ª invasão, comandada pelo marechal Soult. Estas invasões deram origem a várias expressões que entraram no domínio popular, e que ainda hoje se mantêm. Ora, um dos comandantes das tropas francesas da primeira invasão comandada pelo general Junot, era um general de nome Louis Loison, homem cruel, autor de numerosas pilhagens e actos violentos, que torturou e matou numerosas pessoas. Este general tivera em tempos um acidente de caça que lhe decepou o braço esquerdo, sendo por isso conhecido pelo maneta. Quando, por exemplo, se queria assustar uma criança que se portasse mal, dizia-se-lhe: -"Olha que vais para o maneta!". No seu significado original queria dizer ir para a tortura ou para a morte. Hoje em dia, "ir para o maneta", quer dizer dar cabo de alguém ou de alguma coisa; destruir; estragar-se; perder-se e não ter recuperação. Depois disto, espero que não me mandem para o maneta!

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Mais, da minha cidade

No dia (hoje) em que o sr. Siza Vieira recebeu das mãos da Rainha de Inglaterra, por delegação da Ordem dos Arquitectos inglesa , a Real Medalha de Ouro 2009, trago aqui um Díptico que nos fala ainda da sala de visitas da minha cidade, e que o referido senhor, criminosamente, em conjunto com o sr. Souto Moura, ajudou a descaracterizar. De certo, estes senhores não se aperceberam, ou não sabem, que a memória de um povo, de uma cidade, é feita daquilo que se constrói no nosso tempo, mas também daquilo que herdámos, daquilo que já cá estava quando aqui chegámos, e que pode ser beneficiado, nunca eliminado. Isto daria para um discurso extenso e corrosivo, mas hoje falta-me disposição. Portanto, adiante.



DÍPTICO

I
o nevoeiro desceu lentamente sobre a Avenida dos Aliados, envolveu a mulher branca e nua, e ficou as babar-se, a babar-se, beijando-lhe a cabeça, os seios e as coxas, só não lhe beijou também o sexo, porque ela não abre as pernas.

II
uma vez mais à porta da ateneia, a beata feia, convicta & monárquica, olhava sua magestade el-rei dom pedro quarto, como quem não quer a coisa, gulosamente, uma vez mais sem palavras nem obras, só em secretos pensamentos, despiu el-rei & quase perdeu a virgindade, dando à nobreza mais um real bastardo, gulosamente uma vez mais nos congregados (igreja dos) se confessou arrependida, uma vez mais foi perdoada, uma vez mais engoliu cristo, gulosamente.

Comentário:
I- A estátua da "Juventude", também conhecida por "Menina nua", construída em mármore e pedra lioz, retrata a inocência, a fragilidade e a juventude de uma criança, e é da autoria de mestre Henrique Moreira. O pedestal em que assenta a estátua é uma fonte com quatro bocas em forma de carranca, uma em cada face.

II- Já não entro na Ateneia há muito, muito tempo. Mas segundo julgo saber, as senhoras de que se fala acima (não as da altura em que por lá passava, mas as de agora, porque a casta renova-se) continuam a beber o seu "cházinho de parreira" (verde ou maduro não sei, deixemos o pormenor ao gosto de cada uma) em bonitas chávenas de porcelana. Que lhes saiba bem!

O texto do díptico foi retirado do número zero da revista (já defunta) pé de cabra, de 1992

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

A minha cidade


Hoje dediquei um pouco do meu tempo a revisitar a poesia e prosa poética do poeta Jorge de Sousa Braga, autor de que gosto particularmente. Uma das notas que podemos encontrar na sua poesia é a ironia, a par de um profundo sentimento de ternura perante o mundo. A sensualidade e a sexualidade estão também presentes na sua poesia, não fosse ela criação de um médico. Vejamos alguns textos sobre o Porto, cidade onde vive e que é também frequente na sua obra.

ACONTECIMENTOS EXTRAORDINÁRIOS NA CIDADE INVICTA
1
O arco-íris que hoje se desenhava sobre o Porto apresentava uma cor a menos – o verde. Após uma rápida investigação resolveu-se o mistério: uma vaca fora vista ontem a pastar no arco-íris.

2
De manhã um som aterrador acordou a cidade. Era um Boing que ensaiava com a cria – um bimotor implume, as primeiras acrobacias aéreas.

3
Funcionários públicos começaram à hora do almoço a invadir os jardins da cidade. As primeiras vítimas da sua voracidade foram as rosas. Sangrentos recontros têm-se sucedido agora na disputa de um simples amor-perfeito. Reunido de emergência, o executivo camarário decidiu aumentar substancialmente a verba destinada aos jardins.

4
Na reunião da comissão de moradores de um dos bairros da cidade, foi aprovada por unanimidade a substituição dos candeeiros de iluminação pública, por pirilampos.

Alguns comentários ao texto:
1- Sempre pensei que o verde teria desaparecido para pintar um jardim, no sítio de onde foi “criminosamente” retirado na sala de visitas da nossa cidade.
2- Não seria antes o treino de um daqueles pequenos objectos voadores que lá para Setembro vêem aqui fazer o Red Bull Air Race, e pôr uns largos milhares de cabeça no ar?
3- É estranho que funcionários públicos – seriam jardineiros? – tenham procedido desta maneira. Seria uma forma de protestar contra a edilidade? Mas fico contente pelo aumento de verba para os jardins, porque será a oportunidade de o jardim da minha zona- a Praça das Flores – ter algumas flores, em vez de horríveis canteiros de granito guarnecidos com arbustos, arbustinhos e outra espécies estéreis. Já agora os funcionários públicos podem trazer também as rosas e os amores-perfeitos.
4- Agora se percebe o que se passa em alguns bairros da cidade, por exemplo, Aleixo, Cerco, Lagarteiro.

Jorge de Sousa Braga nasceu em Vila Verde em 1957, reside no Porto, onde exerce medicina, na área da Obstetrícia. Os seus cinco primeiros livros datam dos anos oitenta, e estão reunidos no volume O Poeta Nu.Traduziu Jorge Luis Borges, Appollinaire, Li Po, Matsuo Bashô. Foi distinguido com o Grande Prémio Gulbenkian de Literatura para Crianças e Jovens, pelo seu livro Herbário.