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sexta-feira, 28 de maio de 2010

Para acabar o dia

Para acabar o dia de hoje, textos poéticos breves de Jorge de Sousa Braga, reflexões do autor sobre pintura.

VAN GOGH POR VAN GOGH

Gostaria de ter sido um girassol. Um girassol hirto no seu caule, de longas folhas verdes desajeitadas e uma enorme corola dourada, seguindo cegamente o sol.

Estou só e a minha cabeça explode em milhões de girassois.
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ADÃO E EVA

Adão era polícia numa esquadra vizinha. Nos intervalos dos giros, subia duas a duas as escadas do atelier de Lempicka, despia a farda, e o seu corpo nu e musculado pisava o soalho, como se pisasse o chão do paraíso.

Tal como o outro Adão, desconhecia o chão que pisava e seria incapaz de reconhecer esse corpo nu que arrancava na tela um frémito de prazer a uma Eva desprevenida.
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OS AMANTES

Desde que Magritte pintou os amantes, estes como  por magia deixaram de ter rosto. Nos jardins, nos cinemas, no bulício das ruas é frequente ver agora homens e mulheres sem rosto, abraçados.

Todavia, tudo não passa de um equívoco. Sem dinheiro para pagar aos modelos, Magritte optou por cobrir com um lençol o rosto inacabado dos amantes.
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AUTOBIOGRAFIA

A sua paixão eram as rosas. Durante anos dedicara-se a estranhos cruzamentos. Perseguia uma rosa negra.

Um dia devido a um acidente ficou cego. Finalmente o seu universo era uma imensa rosa negra.
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Carantonhas, desfrutem os textos, tenham um bom fim de semana e façam o favor de se portar mal. A vosso gosto

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

A minha cidade


Hoje dediquei um pouco do meu tempo a revisitar a poesia e prosa poética do poeta Jorge de Sousa Braga, autor de que gosto particularmente. Uma das notas que podemos encontrar na sua poesia é a ironia, a par de um profundo sentimento de ternura perante o mundo. A sensualidade e a sexualidade estão também presentes na sua poesia, não fosse ela criação de um médico. Vejamos alguns textos sobre o Porto, cidade onde vive e que é também frequente na sua obra.

ACONTECIMENTOS EXTRAORDINÁRIOS NA CIDADE INVICTA
1
O arco-íris que hoje se desenhava sobre o Porto apresentava uma cor a menos – o verde. Após uma rápida investigação resolveu-se o mistério: uma vaca fora vista ontem a pastar no arco-íris.

2
De manhã um som aterrador acordou a cidade. Era um Boing que ensaiava com a cria – um bimotor implume, as primeiras acrobacias aéreas.

3
Funcionários públicos começaram à hora do almoço a invadir os jardins da cidade. As primeiras vítimas da sua voracidade foram as rosas. Sangrentos recontros têm-se sucedido agora na disputa de um simples amor-perfeito. Reunido de emergência, o executivo camarário decidiu aumentar substancialmente a verba destinada aos jardins.

4
Na reunião da comissão de moradores de um dos bairros da cidade, foi aprovada por unanimidade a substituição dos candeeiros de iluminação pública, por pirilampos.

Alguns comentários ao texto:
1- Sempre pensei que o verde teria desaparecido para pintar um jardim, no sítio de onde foi “criminosamente” retirado na sala de visitas da nossa cidade.
2- Não seria antes o treino de um daqueles pequenos objectos voadores que lá para Setembro vêem aqui fazer o Red Bull Air Race, e pôr uns largos milhares de cabeça no ar?
3- É estranho que funcionários públicos – seriam jardineiros? – tenham procedido desta maneira. Seria uma forma de protestar contra a edilidade? Mas fico contente pelo aumento de verba para os jardins, porque será a oportunidade de o jardim da minha zona- a Praça das Flores – ter algumas flores, em vez de horríveis canteiros de granito guarnecidos com arbustos, arbustinhos e outra espécies estéreis. Já agora os funcionários públicos podem trazer também as rosas e os amores-perfeitos.
4- Agora se percebe o que se passa em alguns bairros da cidade, por exemplo, Aleixo, Cerco, Lagarteiro.

Jorge de Sousa Braga nasceu em Vila Verde em 1957, reside no Porto, onde exerce medicina, na área da Obstetrícia. Os seus cinco primeiros livros datam dos anos oitenta, e estão reunidos no volume O Poeta Nu.Traduziu Jorge Luis Borges, Appollinaire, Li Po, Matsuo Bashô. Foi distinguido com o Grande Prémio Gulbenkian de Literatura para Crianças e Jovens, pelo seu livro Herbário.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Falando escatologicamente

Vou continuar a falar de palavras. Não, vou falar de uma palavra. Uma palavra que anda constantemente na boca dos portugueses sendo até, segundo as estatísticas (realizadas por quem, não sei), a palavra mais falada em Portugal. Começa por m e acaba em a, e tem cinco letras. E é termo escatológico. Já adivinharam? Não, não é malga, embora alguns (ou algumas) as merecessem em boa quantidade. Também não é moeda, embora com poucas se possa comprar muita. Isso mesmo, carantonhas, é a palavra merda. Quem, senão o português, que para mostrar surpresa, diz "mas que merda é essa?" E usa como substantivo qualificativo "você é uma merda". Também a utiliza como indicação visual: "não se enxerga uma merda". Quando quer comunicar uma situação difícil de alguém, diz "ele (ou ela) está na merda". Quando o português quer dar uma indicação de especialização profissional diz simplesmente "ele (ou ela) só faz merda". E quando se lamenta da situação em Portugal, lá vem inevitavelmente a exclamação "esta merda está cada vez pior". Mas nem tudo está mal com a merda que até pode ser uma coisa limpa. Quem o diz é o poeta Jorge de Sousa Braga na sua

EPÍSTOLA SOBRE A MERDA

As retretes transformadas em santuários:
eis a minha obcessão

A merda é uma boa causa
Demasiado boa
para que alguém lute por ela

Só é poeta aquele que
é capaz de comer as próprias fezes

A merda é a única coisa
que não se pode conspurcar.

E quando queremos criticar, por exemplo, o Governo (todos os Governos), lá vai o "as moscas mudam mas a merda é a mesma".
Haveria muito a dizer ainda sobre expressões merdosas. Mas ficamos com esta, de uma crónica do MEC, que para mim é o melhor que sobre a merda eu já li. "Quem, senão um português, consegue, por exemplo, estar deliciado a ouvir uma sonata de Beethoven, e dizer, sinceramente embebecido, «Ó pá, eu adoro esta merda»?
E agora, parece que não tem nada a ver, mas tem, para todos aqueles "revolucionários" do tempo do "prec" que pensam que foram quem "inventou" a reforma agrária, desiludam-se, pois já em 1936, em Évora, D. Tancredo (O Lavrador), Presidente da Junta Corporativa dos Sindicatos Reunidos, Norte, Centro e Sul do Alentejo, escrevia assim na sua


EXPOSIÇÃO

Porque julgamos digna de registo
a nossa exposição senhor Ministro,
Erguemos até vós humildemente,
uma toada uníssona e plangente
em que evitámos o menor deslize
e em que damos razão da nossa crise.

Senhor! Em vão, essa província inteira,
desmoita, lavra, atalha a sementeira,
suando até à fralda da camisa!
Falta a matéria orgânica precisa
na terra que é delgada e sempre fraca!
A matéria em questão, chama-se cáca...

Precisamos de merda, senhor Soisa!...
E nunca precisámos de outra coisa.

Se os membros desse ilustre Ministério
querem tomar o nosso caso a sério,
se é nobre o sentimento que os anima,
mandem cagar-nos toda a gente em cima
dos maninhos torrões de cada herdade!
E mijem-nos também por caridade!

O senhor Oliveira Salazar
quando tiver vontade de cagar
venha até nós!
Solícito, calado,
busque um terreno que estiver lavrado
deite as calças abaixo, com sossego,
ajeite o cu bem apontado ao rego
e... como Presidente do Conselho,
queira espremer-se até ficar vermelho!

A nação confiou-lhe os seus destinos?!...
Então, comprima, aperte os intestinos;
se lhe escapar um traque, não se importe,
... quem sabe se o cheiro nos dá sorte?
Quantos porão as suas esperanças
num traque do Ministro das Finanças?...

E quem viver aflito, sem recursos,
já não distingue os traques dos discursos
Não precisa falar! Tenha a certeza
que a nossa maior fonte de riqueza,
desde as grandes herdades às courelas,
provém da merda que juntarmos nelas.

Precisamos de merda senhor Soisa!
E nunca precisámos de outra coisa.

Adubos de potassa?... Cal?... Azote?!...
Tragam-nos merda pura, do bispote!
E todos os penicos portugueses
durante pelo menos uns seis meses,
sobre o montado, sobre a terra campa,
continuamente nos despejem trampa!

Terras alentejanas, terras nuas,
desespero de arados e charruas,
quem as compra ou arrenda ou quem as herda
sente a paixão nostálgica da merda...

Precisamos de merda senhor Soisa!
E nunca precisámos de outra coisa.

Ah!... Merda grossa e fina! Merda boa
das inúteis retretes de Lisboa!...
Como é triste saber que todos vós
andais cagando sem pensar em nós!

Se querem fomentar a agricultura
mandem vir muita gente com soltura.
Nós daremos o trigo em larga escala,
pois até nos faz conta a merda rala.

Venham todas as merdas à vontade,
não faremos questão da qualidade;
formas normais ou formas esquisitas!
E desde o cagalhão às caganitas,
desde a pequena poia à grande bosta,
de tudo o que vier a gente gosta.

Precisamos de merda senhor Soisa!...
E nunca precisámos de outra coisa.


Pela Junta Corporativa dos Sindicatos Reunidos, Norte, Centro e Sul do Alentejo

O Presidente
D. Tancredo (O Lavrador)
1936 - Évora

domingo, 1 de fevereiro de 2009

POESIA AO DOMICÍLIO


Pois é, amigos Carantonhas, os Encantadores de Palavras, parte integrante do Teatro da Carantonha, estão disponíveis para levar até ao vosso ambiente familiar o encantamento da poesia e outros textos, e algumas cantigas. Não se acanhem, peçam, que nós corremos ao vosso encontro. As sessões terão a duração mínima de sessenta, e máxima de 75 minutos. Preços a combinar, dependendo sempre do número de pessoas a assistir. Os contactos não são visíveis no prospecto mas aqui ficam:
Telem: 963062202
Vá lá, olhe que já tem um poema perto de si!
E de súbito desaba o silêncio.
É um silêncio sem ti,
Sem álamos,
Sem luas.
Só nas minhas mãos ouço
a música das tuas.
Gostou, caro(a) Carantonha deste poema do nosso Eugénio de Andrade?
Então fique-se com este do Jorge de Sousa Braga
POEMA DE AMOR
Esta noite sonhei oferecer-te o anel de Saturno
e quase ia morrendo com o receio de que não
te coubesse no dedo.
Até breve!