Carantonha- s.f.-contorsão do rosto, esgar, máscara, cara feia, carranca, caraça. * Em criança, na região de onde sou natural, e onde então vivia, quando se brincava ao carnaval, o artefacto que nos ocultava o rosto, era a carantonha porque por norma era coisa feia. O tempo passa, a evolução acontece, e hoje, pelo menos quando jogamos ao carnaval, usamos uma máscara. Ou será que não a usamos todos os dias?
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terça-feira, 13 de dezembro de 2011
Gato brincalhão
Porque me lembrei de uma certa gata (des)construtora que mora numa urbanização em Aveiro.
sábado, 24 de setembro de 2011
O céu dos gatos
(--)
sei muito bem que andas
por aqui
(--)
não sei mesmo se há um céu dos gatos
mas mesmo que haja tu vais
arranjar maneira
de estar por aqui
como ainda hoje o fizeste.
O meu colega e amigo Nelson Ferraz, bom poeta e homem sensível (como são os bons poetas),teve até há pouco (fisicamente) lá em casa a sua gata Kelly. O destino fez com que ela partisse. O Nelson escreveu no seu blog um poema à Kelly e pediu-me que eu deixasse um comentário. Cumpridor, escrevi-o e tentei colocá-lo no blog. Só que por não saber, ou por qualquer outra circuntância, não consegui.
Aqui fica o comentário:
"De certeza certa, não sei se há um céu dos gatos, mas creio que sim. Mas sei que os gatos quando partem, voam toda a noite em direcção à lua onde os espera um velho gato já cego que os envia para o espaço transformados em poeira das estrelas, que em noites enluaradas vemos cair em pó prateado, na direcção da Terra."
O itálico do comentário pertence a um texto de Mário Cesariny.
sei muito bem que andas
por aqui
(--)
não sei mesmo se há um céu dos gatos
mas mesmo que haja tu vais
arranjar maneira
de estar por aqui
como ainda hoje o fizeste.
O meu colega e amigo Nelson Ferraz, bom poeta e homem sensível (como são os bons poetas),teve até há pouco (fisicamente) lá em casa a sua gata Kelly. O destino fez com que ela partisse. O Nelson escreveu no seu blog um poema à Kelly e pediu-me que eu deixasse um comentário. Cumpridor, escrevi-o e tentei colocá-lo no blog. Só que por não saber, ou por qualquer outra circuntância, não consegui.
Aqui fica o comentário:
"De certeza certa, não sei se há um céu dos gatos, mas creio que sim. Mas sei que os gatos quando partem, voam toda a noite em direcção à lua onde os espera um velho gato já cego que os envia para o espaço transformados em poeira das estrelas, que em noites enluaradas vemos cair em pó prateado, na direcção da Terra."
O itálico do comentário pertence a um texto de Mário Cesariny.
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gatos,
Mário Cesariny
quinta-feira, 1 de setembro de 2011
Descanso
Descanso do gato preto depois da leitura.
Este é o Cocas, o gato do vizinho. Passa mais tempo a dormir, e come mais cá em casa, do que na casa onde pertence. É um sacaninha. De vez em quando desafia (ou desafiam-se) o Nico, o gato cá de casa, e dão uma saltada até ao "Tinoco, o clube da gataria da cidade"*. Vida(s) de gato...
* MIguel Torga, in Mago, do livro Bichos.
Este é o Cocas, o gato do vizinho. Passa mais tempo a dormir, e come mais cá em casa, do que na casa onde pertence. É um sacaninha. De vez em quando desafia (ou desafiam-se) o Nico, o gato cá de casa, e dão uma saltada até ao "Tinoco, o clube da gataria da cidade"*. Vida(s) de gato...
* MIguel Torga, in Mago, do livro Bichos.
sexta-feira, 15 de julho de 2011
Gatos especiais
"O gato é o único grande sedutor que sabe onde e quando deve parar, para não passar de sedutor a seduzido"
(Anónimo)
"Prefiro os gatos aos cães, pois não há gatos polícias."
Jean Cocteau
Gosto de gatos. Também gosto de outros animais domésticos. Mas gosto particularmente de gatos. Gosto da forma como brincam, como mostram quando estão zangados, de como não nos ligam nenhuma quando os chamamos, de como são independentes. Gosto de gatos. Tive a Baby (ou ela teve-me) durante 18 anos. Morreu depois do Nicola, gato vadio que eu acolhi e tratei quando uma “besta” o encontrou de cabeça metida num saco de restos, e o quis matar à paulada. Viveu lá em casa cinco anos. Partiu levado por uma doença congénita. E aqui me confesso: nunca chorei tanto por ninguém, como chorei pelo Nicola. Agora tenho o Nico, duas cores, preto e branco, o dono da casa, o nosso “menino”. Portanto, gosto de gatos. Ponto.
O meu amigo e colega N.F., também gosta de gatos. Como ele, por feitio, não gosta muito de se expor (por isso o identifico pelas iniciais do nome), terei que cometer uma pequena e inofensiva “traição” (outros dirão, uma inconfidência) pois vou falar da sua gata, que lá em casa todos tratam como se fosse uma pessoa da família. Infelizmente por doença, a gata foi submetida a uma cirurgia e ficou paralisada das patas traseiras, o que origina enormes dificuldades à sua locomoção.
Então, exteriorizando o carinho a afeição e o amor que lá em casa todos tem pela gata, o meu amigo, como bom poeta que é escreveu em sua homenagem o poema que fecha este texto.
KELLY
(uma gata especial, quase pessoa)
ainda tens pássaros nos olhos
mesmo que de fugida
agora.
e os degraus da escada castanha
também os tens nos olhos
mesmo que num esboço
agora.
e esse azul esse belíssimo azul
que eram lagos nos teus olhos
ainda o tens
mesmo que um azul baço
agora.
ainda tens nos teus olhos
o jogo das escondidas que repetias
no mesmo sítio de sempre
mesmo que já não jogues
agora.
agora ainda tens nos olhos
a mesma nesga delicada de ternura
felina e doce e brava
e
com uma dignidade enorme e cheia de silêncios
arranhas a vida numa serena decadência
que os biscoitos não escondem.
agora
lá no fundo desses teus olhos incrivelmente belos
há uma paisagem desconhecida
que de uma forma rebelde e injusta
desenha colos intranquilos
nos teus ronrons.
Nelson Ferraz in “Gondomar Económico”, Julho de 2011
quinta-feira, 6 de agosto de 2009
A gaivota e o gato
Hoje (ontem), quarta-feira, quase na fronteira temporal que separa o hoje do ontem, percorria a Rua das Flores em direcção ao Púcaros, nas arcadas de Miragaia. Mais ou menos a meio da rua, junto de um dos muitos ecopontos que por ali existem deparei com um quadro que em circunstâncias normais poderia considerar insólito. De facto, ver um gato (e como ele era bonito!) junto a uma gaivota (gorda, elegante) esperando que uma velhinha despejasse o lixo para poderem aproveitar algo comestível, noutros tempos seria impensável. Mas hoje, com as gaivotas, diria, socializadas, pela força das circunstâncias, isto é, por falta de alimento no mar ou no rio que passa próximo, não é de espantar. E ali fiquei um instante observando o afã da espera, ouvindo ainda da simpática velhinha um "coitadinha, ainda é atropelada, ainda no outro dia...". Segui depois o meu caminho e dei por mim a pensar num excelente livro que levei para férias com a intenção de o reler, o que não aconteceu. Mas vai acontecer. Falo do livro de Luis Sepúlveda "História de uma gaivota e do gato que a ensinou a voar". Leitura que recomendo vivamente aos meus amigos carantonhas pelo seu carácter pedagógico, pelas sua lição de vida, de amor e companheirismo. Verão que vão gostar da Ditosa, do Zorbas (0 nosso herói), do Colonello, do Barlavento (0 gato de mar), tanto como o meu gato Nico gostou.
quinta-feira, 4 de junho de 2009
Nico, e outros gatos
O Nico, o meu gato, (se não sabem quem é, deviam saber) está aqui ao pé de mim, deitado no espaço que sobra da secretária, atento ao que escrevo. Aliás, é frequente a sua estadia aqui. E como não anda com muita vontade de continuar a aprender a escrever, -diz-me que é só quando quer-, vai atirando folhas de papel e outras coisa para o chão. Eu vou-o desculpando, porque apesar das mordidelas, ele diz que "gosta de mim". E sim, dá-me frequentes provas do seu afecto o sacaninha. E eu perdoo, pois agora que estamos de partida para um período de férias na praia, ele já me prometeu que no regresso, depois de ter conhecido mais uma gatas, vai retomar a aprendizagem. E eu, vá de prometer-lhe um poema de gatos. Aqui vai:
ELEGIAZINHA
Gatos não morrem de verdade:
eles apenas se reintegram
no ronronar da eternidade.
Gatos jamais morrem de facto:
suas almas saem de fininho
atrás de alguma alma de rato.
Gatos não morrem: sua fictícia
morte não passa de uma
refinada de preguiça.
Gatos não morrem: rumo a um nível
mais alto é que eles, galho a galho,
sobem numa árvore invisível.
Gatos não morrem: mais preciso
- se somem - é dizer que foram
rasgar sofás no paraíso
e dormirão lá, depois do ónus
de sete bem vividas vidas,
seus sete merecidos sonos.
Nelson Ascher
Nelson Ascher, (São Paulo, 1958) é poeta, jornalista e tradutor. Como poeta publicou Ponta da Língua, Sonho da Razão, Algo de Sol e Parte Alguma.
E agora não resisto a deixar ao Nico mais um poema sobre gatos. Mais uma vez de Eugénio de Andrade. Oxalá lhe agrade também, este.
ACERCA DE GATOS
Em Abril Chegam os gatos: à frente
o mais antigo, eu tinha
dez anos ou nem isso,
um pequeno tigre que nunca se habituou
às areias do caixote, mas foi quem
primeiro me tomou o coração de assalto.
Veio depois, já em Coimbra, uma gata
que não parava em casa: fornicava
e paria no pinhal, não lhe tive
afeição que durasse, nem ela a merecia,
de tão puta. Só muitos anos
depois entrou em casa, para ser
senhor dela, o pequeno persa
azul. A beleza vira-nos a alma
do avesso e vai-se embora.
Por isso, quem me lambe a ferida
aberta que me deixou a sua morte
é agora uma gatita rafeira e negra
com três ou quatro borradelas de cal
na barriga. É ao sol dos seus olhos
que talvez aqueça as mãos, a partilhe
a leitura do Público ao domingo.
ELEGIAZINHA
Gatos não morrem de verdade:
eles apenas se reintegram
no ronronar da eternidade.
Gatos jamais morrem de facto:
suas almas saem de fininho
atrás de alguma alma de rato.
Gatos não morrem: sua fictícia
morte não passa de uma
refinada de preguiça.
Gatos não morrem: rumo a um nível
mais alto é que eles, galho a galho,
sobem numa árvore invisível.
Gatos não morrem: mais preciso
- se somem - é dizer que foram
rasgar sofás no paraíso
e dormirão lá, depois do ónus
de sete bem vividas vidas,
seus sete merecidos sonos.
Nelson Ascher
Nelson Ascher, (São Paulo, 1958) é poeta, jornalista e tradutor. Como poeta publicou Ponta da Língua, Sonho da Razão, Algo de Sol e Parte Alguma.
E agora não resisto a deixar ao Nico mais um poema sobre gatos. Mais uma vez de Eugénio de Andrade. Oxalá lhe agrade também, este.
ACERCA DE GATOS
Em Abril Chegam os gatos: à frente
o mais antigo, eu tinha
dez anos ou nem isso,
um pequeno tigre que nunca se habituou
às areias do caixote, mas foi quem
primeiro me tomou o coração de assalto.
Veio depois, já em Coimbra, uma gata
que não parava em casa: fornicava
e paria no pinhal, não lhe tive
afeição que durasse, nem ela a merecia,
de tão puta. Só muitos anos
depois entrou em casa, para ser
senhor dela, o pequeno persa
azul. A beleza vira-nos a alma
do avesso e vai-se embora.
Por isso, quem me lambe a ferida
aberta que me deixou a sua morte
é agora uma gatita rafeira e negra
com três ou quatro borradelas de cal
na barriga. É ao sol dos seus olhos
que talvez aqueça as mãos, a partilhe
a leitura do Público ao domingo.
domingo, 5 de outubro de 2008
Hoje apetece-me...
Hoje, apetece-me que nada me apeteça. Hoje apetece-me que não me apeteça ir ao quiosque buscar o jonal, ir à padaria; hoje apetece-me que não me apeteça ler o jornal com notícias que já lemos ontem, as mesmas que vamos ler amanhã e depois, e depois; que não me apeteça confeccionar (ainda não aderi ao acordo) o almoço, tarefa que me calhou em sorte; que não me apeteça lavar a louça, outra tarefa que procuro desempenhar com esmero e dedicação; que não me apeteça ver no PC as mensagens que alguns amigos, e não só, me enviam, com destaque para aquelas - que graças a Deus abomino - normalmente oriundas do Brasil, e nos dizem que Deus existe, que é magnânimo, mas nos castiga (valha-nos Deus!), se não reencaminharmos a mensagem, pelo menos, para dez amigos. Hoje apetece-me que não me apeteça, que não me apeteça, que não me apeteça... Hoje fui tomado pela nostalgia, e apetece-me ficar sentado no sofá, a conversar com o meu gato, deitado no meu colo fingindo-se alheio e deliquescente, fiel companheiro de momentos de silêncio. Mas o Nico (é o meu gato) não aparece. E eu acordo do sonho. Caio no real. E lá tenho que ir ao quiosque, à padaria, lá tenho que ler o jornal, fazer o almoço, etc., etc., deixar passar o tempo... e só agora o Nico aparece. E, pasme-se a sua desfaçatez, pede-me, sim, porque ele também fala comigo, poemas com gatos. E não me deixa enquanto não lhe faço a vontade. Para o Nico aqui ficam dois poemas de gatos
Poema do gato
Quem há-de abrir a porta ao gato
quando eu morrer?
Sempre que pode
foge prá rua,
cheira o passeio
e volta para trás,
mas ao defrontar-se com a porta fechada
(pobre do gato)
mia com raiva
desesperada.
Deixo-o sofrer
que o sofrimento rem sua paga,
e ele bem sabe.
Quando abro a porta corre para mim
como acorre a mulher aos braços do amante.
Pego-lhe ao colo a acaricio-o
num gesto lento,
vagarosamente,
do alto da cabeça até ao fim da cauda.
Ele olha-me e sorri, com os bigodes eróticos,
olhos semi-cerrados, em êxtase,
ronronando.
Repito a festa,
vagarosamente,
do alto da cabeça até ao fim da cauda.
Ele aperta as máxilas,
cerra os olhos,
abre as narinas,
e rosna,
rosna, deliquescente,
abraça-me
e adormece.
Eu não tenho gato, mas se o tivesse
quem lhe abriria a porta quando eu morresse?
António Gedeão
História de gatos
Eu tinha um gato malhado
Que era muito malcriado
Se lhe dizia «bom dia»
Ele nem me respondia.
Se o mandava caçar,
Deitava-se a ressonar.
Se o mandava à escola
Ele ia jogar à bola.
Se o mandava pescar,
Até fugia do mar.
Aquele gato malhado
Não me fazia um recado,
Era só vê-lo miar
E dormir ou ressonar.
Deitei-o pela janela.
Entrou-me um gato por ela
Mais uma gata amarela
E os doze filhos dela.
Sentaram-se à minha mesa,
Comeram-me a sobremesa,
Dormiram no meu colchão,
Rasgaram o meu roupão
E dentro dos meus sapatos
Fizeram xixi os gatos.
Para ficar sossegado
Fui viver para o telhado.
LUISA Ducla Soares
Poema do gato
Quem há-de abrir a porta ao gato
quando eu morrer?
Sempre que pode
foge prá rua,
cheira o passeio
e volta para trás,
mas ao defrontar-se com a porta fechada
(pobre do gato)
mia com raiva
desesperada.
Deixo-o sofrer
que o sofrimento rem sua paga,
e ele bem sabe.
Quando abro a porta corre para mim
como acorre a mulher aos braços do amante.
Pego-lhe ao colo a acaricio-o
num gesto lento,
vagarosamente,
do alto da cabeça até ao fim da cauda.
Ele olha-me e sorri, com os bigodes eróticos,
olhos semi-cerrados, em êxtase,
ronronando.
Repito a festa,
vagarosamente,
do alto da cabeça até ao fim da cauda.
Ele aperta as máxilas,
cerra os olhos,
abre as narinas,
e rosna,
rosna, deliquescente,
abraça-me
e adormece.
Eu não tenho gato, mas se o tivesse
quem lhe abriria a porta quando eu morresse?
António Gedeão
História de gatos
Eu tinha um gato malhado
Que era muito malcriado
Se lhe dizia «bom dia»
Ele nem me respondia.
Se o mandava caçar,
Deitava-se a ressonar.
Se o mandava à escola
Ele ia jogar à bola.
Se o mandava pescar,
Até fugia do mar.
Aquele gato malhado
Não me fazia um recado,
Era só vê-lo miar
E dormir ou ressonar.
Deitei-o pela janela.
Entrou-me um gato por ela
Mais uma gata amarela
E os doze filhos dela.
Sentaram-se à minha mesa,
Comeram-me a sobremesa,
Dormiram no meu colchão,
Rasgaram o meu roupão
E dentro dos meus sapatos
Fizeram xixi os gatos.
Para ficar sossegado
Fui viver para o telhado.
LUISA Ducla Soares
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