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quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Carta a meus filhos sobre os fusilamentos de Goya


Quarta-feira,
5 de Outubro, 21.30 h,
QUARTAS MAL DITAS
no Piano-bar do
Clube Literário do Porto.

Tema: POESIA & PINTURA.

Leituras por Amílcar Mendes, Ana Almeida Santos, Anthero Monteiro, António Pinheiro, Cláudia Pinho, Luís Carvalho e Rafael Tormenta.

Convidado especial: Fernando Gaspar.

Intervenções musicais de Rui Paulino David.
Colaboração de Fátima Lopes.

Num dos textos antecedentes prometi que colocaria aqui o poema de Jorge de Sena, Carta a meus filhos sobre os fusilamentos de Goya. O momento chegou. Hoje vou participar nas Quartas Mal Ditas, cujo tema é Poesia & Pintura. Curiosamente, e sem saber que tal ia
acontecer, um dos poemas que me calha em sorte é precisamente o poema de Jorge de Sena. Vou tentar defendê-lo o melhor que me for possível.

Carta a meus filhos sobre os fusilamentos de  Goya

Não sei, meus filhos, que mundo será o vosso.
É possível, porque tudo é possível, que ele seja
aquele que eu desejo para vós. Um simples mundo,
onde tudo tenha apenas a dificuldade que advém
de nada haver que não seja simples e natural.
Um mundo em que tudo seja permitido,
conforme o vosso gosto, o vosso anseio, o vosso prazer,
o vosso respeito pelos outros, o respeito dos outros por vós.
E é possível que não seja isto, nem seja sequer isto
o que vos interesse para viver. Tudo é possível,
ainda quando lutemos, como devemos lutar,
por quanto nos pareça a liberdade e a justiça,
ou mais que qualquer delas uma fiel
dedicação à honra de estar vivo.
Um dia sabereis que mais que a humanidade
não tem conta o número dos que pensaram assim,
amaram o seu semelhante no que ele tinha de único,
de insólito, de livre, de diferente,
e foram sacrificados, torturados, espancados,
e entregues hipocritamente â secular justiça,
para que os liquidasse «com suma piedade e sem efusão de sangue.»
Por serem fiéis a um deus, a um pensamento,
a uma pátria, uma esperança, ou muito apenas
à fome irrespondível que lhes roía as entranhas,
foram estripados, esfolados, queimados, gaseados,
e os seus corpos amontoados tão anonimamente quanto haviam vivido,
ou suas cinzas dispersas para que delas não restasse memória.
Às vezes, por serem de uma raça, outras
por serem de uma classe, expiaram todos
os erros que não tinham cometido ou não tinham consciência
de haver cometido. Mas também aconteceu
e acontece que não foram mortos.
Houve sempre infinitas maneiras de prevalecer,
aniquilando mansamente, delicadamente,
por ínvios caminhos quais se diz que são ínvios os de Deus.
Estes fuzilamentos, este heroísmo, este horror,
foi uma coisa, entre mil, acontecida em Espanha
há mais de um século e que por violenta e injusta
ofendeu o coração de um pintor chamado Goya,
que tinha um coração muito grande, cheio de fúria
e de amor. Mas isto nada é, meus filhos.
Apenas um episódio, um episódio breve,
nesta cadeia de que sois um elo (ou não sereis)
de ferro e de suor e sangue e algum sémen
a caminho do mundo que vos sonho.
Acreditai que nenhum mundo, que nada nem ninguém
vale mais que uma vida ou a alegria de tê-la.
É isto o que mais importa - essa alegria.
Acreditai que a dignidade em que hão-de falar-vos tanto
não é senão essa alegria que vem
de estar-se vivo e sabendo que nenhuma vez alguém
está menos vivo ou sofre ou morre
para que um só de vós resista um pouco mais
à morte que é de todos e virá.
Que tudo isto sabereis serenamente,
sem culpas a ninguém, sem terror, sem ambição,
e sobretudo sem desapego ou indiferença,
ardentemente espero. Tanto sangue,
tanta dor, tanta angústia, um dia
- mesmo que o tédio de um mundo feliz vos persiga -
não hão-de ser em vão. Confesso que
multas vezes, pensando no horror de tantos séculos
de opressão e crueldade, hesito por momentos
e uma amargura me submerge inconsolável.
Serão ou não em vão? Mas, mesmo que o não sejam,
quem ressuscita esses milhões, quem restitui
não só a vida, mas tudo o que lhes foi tirado?
Nenhum Juízo Final, meus filhos, pode dar-lhes
aquele instante que não viveram, aquele objecto
que não fruíram, aquele gesto
de amor, que fariam «amanhã».
E, por isso, o mesmo mundo que criemos
nos cumpre tê-lo com cuidado, como coisa
que não é nossa, que nos é cedida
para a guardarmos respeitosamente
em memória do sangue que nos corre nas veias,
da nossa carne que foi outra, do amor que
outros não amaram porque lho roubaram.

terça-feira, 26 de julho de 2011

"Bonecos de fogo preso"

O meu amigo Seixas Branco partiu. Poeta, pintor, o Castelinho, como também era afectuosamente tratado (Seixas Castelo Branco) deixou-nos, entre outros mais recentes, nos quais experimentou uma renovada linguagem poética, um livro admirável - "Bonecos de fogo preso" - escrito há mais de 50 anos, e que infelizmente nunca foi reeditado. Nele plasmou com inusitada mestria, as gentes da ribeira do Porto (ele, que era transmontano), o São João das Fontaínhas, o quotidiano dos bairros ribeirinhos. Poemas, que juntos, eram um só e fantástico poema, de uma teatralidade espantosa, (ele também pisou esses terrenos). Talvez que agora, lá, onde estará a chegar, encontre alguém que dê ao "Bonecos de fogo preso" o palco que merece. Amigo, até sempre.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Para acabar o dia

Para acabar o dia de hoje, textos poéticos breves de Jorge de Sousa Braga, reflexões do autor sobre pintura.

VAN GOGH POR VAN GOGH

Gostaria de ter sido um girassol. Um girassol hirto no seu caule, de longas folhas verdes desajeitadas e uma enorme corola dourada, seguindo cegamente o sol.

Estou só e a minha cabeça explode em milhões de girassois.
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ADÃO E EVA

Adão era polícia numa esquadra vizinha. Nos intervalos dos giros, subia duas a duas as escadas do atelier de Lempicka, despia a farda, e o seu corpo nu e musculado pisava o soalho, como se pisasse o chão do paraíso.

Tal como o outro Adão, desconhecia o chão que pisava e seria incapaz de reconhecer esse corpo nu que arrancava na tela um frémito de prazer a uma Eva desprevenida.
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OS AMANTES

Desde que Magritte pintou os amantes, estes como  por magia deixaram de ter rosto. Nos jardins, nos cinemas, no bulício das ruas é frequente ver agora homens e mulheres sem rosto, abraçados.

Todavia, tudo não passa de um equívoco. Sem dinheiro para pagar aos modelos, Magritte optou por cobrir com um lençol o rosto inacabado dos amantes.
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AUTOBIOGRAFIA

A sua paixão eram as rosas. Durante anos dedicara-se a estranhos cruzamentos. Perseguia uma rosa negra.

Um dia devido a um acidente ficou cego. Finalmente o seu universo era uma imensa rosa negra.
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Carantonhas, desfrutem os textos, tenham um bom fim de semana e façam o favor de se portar mal. A vosso gosto