domingo, 10 de maio de 2009

Enfim, "bom" jornalismo



Ouvido ontem no telejornal da RTP, acerca do avião da Lufthansa que aterrou em Genebra para assistência a alguns feridos, devido à turbulência que atingiu o avião.

-"(...) no interior (do avião) seguiam Jaime Gama e Dulce Pontes, que nada sofreram."

E esta, hem?

Assim vai o nosso jornalismo!

Muletas

Não, carantonhas, não é o "muleta negra", não senhor. Do que me proponho escrever é de uma muleta, ou se quiserem, vício de linguagem, utilizada pela maior parte dos nossos repórteres de televisão. A muleta é o "então".
Vejamos então:
"Repórter, microfone na mão, à porta da casa do acidentado:
- Então é assim. Vou desviar-me então um pouco para a esquerda, para que o nosso repórter de imagem possa filmar a porta por onde então o homem saiu. Como vêem é uma porta lacada a branco, com puxador dourado. Foi por ali que então o homem saiu e começou então a caminhar rua abaixo, com a sua pasta de executivo na mão. Então não reparou numa pedra solta, e então tropeçou, caiu e rolou pela rua abaixo. Quando o foram então levantar, viu-se então que partira os óculos, esmurrara as mãos e a testa, e rasgara então o fato. Por se suspeitar que pudesse então ter alguma fractura, foi então levado ao hospital, onde antes de seguir para tratamento, pode então apresentar queixa , no posto policial do hospital, contra a Câmara, por não ter então removido a pedra solta. Então Zé, daqui é tudo e esperemos então pela reacção da Câmara."

Passe o exagero da caricatura, é assim, carantonhas, que os nossos repórteres usam e abusam de muletas. Então esta do "então" é demais. Então, tenho dito.

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Assim se vê...

Hipérides despe Friné diante do areópago, in ulises-itaca.blogspot.com


Assim se vê a força...alto lá, carantonhas, não me acusem de copiar, isto é, clonar ou plagiar qualquer slogan que baile nas vossas desconfiadas cabeças.
Eu só quero dizer que assim se vê a força da poesia, entendido!
Esta que fica aí em baixo, lembrei-me dela quando pensava em algumas acções de alguns dos principais arcontes do areópago ( eh pah, como é difícil desarrincar de vez em quando, palavras caras) de algumas localidades. Desculpem lá tantos "alguns", mas teve que ser. Carantonhas, carantonhas, não se ponham pr'aí (neologismo?) com pensamentos enviesados...
É que os arcontes que nos (des)governam, ainda que o não pensem ou saibam, são também actores. E alguns, bem grandes. Tenho dito, e vamos então à poesia de Sidónio Muralha.

TEATRO

Na sala vazia sentaram-se os quatro.
E os quatro ficaram olhando,no fundo,
a mancha de luz do pequeno teatro.

- O dono do teatro - um vagabundo
que trouxera o teatro do outro lado do mundo -
por trás das cortinas puxava os cordéis...
Puxava os cordéis aos fantoches, fiéis
aos seus dedos infiéis de vagabundo.
..............................................................................

Dos quatro meninos, um deles voltou,
e tanto viu, que decorou
as falinhas mansas e a maneira
invertebrada dos fantoches de feira.

De dois dos meninos ninguém mais falou,
(e o outro é Poeta e ninguém lhe perdoa...)
mas do menino-fantoche como é bom falar...

- porque o menino-fantoche é hoje a pessoa
mais importante do lugar.

"O Estado sou eu"

Luís XIV de França – o Rei Sol – costumava dizer, para afirmar o seu poder, “O Estado sou eu”. Cá pelo burgo, o sr. RR, presidente da Câmara do Porto, julga-se também dono da nossa cidade. Explico: vimos na tv, lemos nos jornais, que RR não gostou de ser levado a tribunal por causa da não atribuição de um subsídio ao Teatro Art’Imagem, para a realização de um festival, subsídio que já havia sido prometido pelo vereador da Cultura. Declaro já que não gosto da governação de RR, embora esteja de acordo com algumas das suas decisões, como no caso do Rivoli e da subsídio-dependência. Na revista "Porto sempre", órgão de propaganda da CMP, volta-se ao assunto, ainda que escamoteando alguns detalhes. E mais uma vez RR se vitimiza. Refere sempre que é ele que está a ser julgado. Mentira, é a CMP, ele é tão só o seu representante. Embora, pelos elementos que conheço, que diga-se são praticamente os publicados, julgue saber quem tem razão no diferendo, não é isso que no fundo me interessa. O que para aqui interessa é que RR, julga-se, como político, acima da lei. Entende ele que uma decisão política não deve ser julgada nos tribunais. Homessa, digo eu! Então os políticos, que obviamente tomam decisões políticas, se tomarem decisões que prejudiquem os cidadãos, devem ficar impunes?, pergunto eu. Era aqui que queria chegar, à opinião vesga e manipuladora de RR, que acusa de má fé o Teatro Art’Imagem. Isto porque assinou o protocolo – que recebeu passados dois meses de o festival se ter realizado – mas ressalvando a sua não concordância com a cláusula que não lhe permitia criticar as decisões da CMP. Foi, no fundo, esta não concordância que motivou a não concessão do subsídio. Perguntou eu, na minha ignorância, então quem é que está de má fé? Não é a CMP, ao impor condições restritivas ao outro interessado, quando este se propõe apresentar actividades culturais que deveriam ser (são, direi eu) da sua responsabilidade? Pergunto a RR, se não foi por esta decisão que o meu colega e adversário das lides basquetebolísticas, o vereador da Cultura, Dr. Fernando de Almeida, se demitiu.
Nós sabemos a resposta. Só me resta dizer: que São Pancrácio valha à nossa cidade. Tenho dito.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Insubmissões

Imagem "roubada" a madeiraviva.blospot.com

Este postal é especialmente para os meus netos Ricardo e João, com afecto.

"As grandes insubmissões sempre foram para mim as pequenas. Na minha vida lembro duas.
(...) Outra grande insubmissão foi a do mauricio, também nos primeiros anos do liceu.
Um dia o maurício faltou à aula das nove. Até aí, nada de particular. Saímos para o pátio e o maurício estava no campo de basket, perfeitamente equipado, sozinho, a lançar a bola ao cesto.
- Ó maurício, faltaste à aula das nove.
E o maurício, sem responder, imperturbável, continuava a lançar a bola ao cesto.
Tocou para a aula das dez.
- Ó maurício, não vens à aula?
O maurício não respondia. Continuava, imperturbável, a lançar a bola ao cesto.
Faltou à aula das dez, faltou toda a manhã. Nos intervalos saíamos e logo ouvíamos a bola contra a tabela. O maurício, sozinho, continuava a lançar a bola ao cesto.
Só se foi vestir quando tocou para a saída da última aula dessa manhã. Esperámos todos por ele. Não lhe perguntámos nada. E seguimo-lo cheios de admiração. O maurício, apesar dos professores, apesar dos contínuos, apesar da campaínha, faltara a todas as aulas.
Toda a manhã jogara basket. Sozinho. Contra professores, contra contínuos, contra a campaínha."

Gostaram?
Sejam insubmissos quando tiverem que sê-lo. Mas com respeito e conscientes.

Ruy Belo in Imagens vindas dos dias - Todos os Poemas, Livro I-Assírio e Alvim, 2004

Rui de Moura Ribeiro Belo, nasceu em 1933 em São João da Ribeira, Rio Maior.Fez os estudos primários, com os pais, professores. Frequenta Direito em Coimbra e em Lisboa, onde se formou. Cursou Direito Canónico em Roma onde se licenciou em 1957, com a classificação magna cum laude. Foi organizador de várias revistas literárias, e tradutor. Em Agosto de 1978 quando se preparava para concorrer ao lugar de assistente da Faculdade de Letras de Lisboa, instituição que sempre lhe recusara nela leccionar, morre subitamente na sua residência de Monte Abraão. Livros de Ruy Belo: Aquele Grande Rio Eufrates, Boca Bilingue, Homem de Palavra(s), País Possível, A Margem da Alegria, Toda a Terra, Despeço-me da Terra da Alegria.

domingo, 3 de maio de 2009

Dia da Mãe

Em Portugal comemorou-se hoje o dia da Mãe. Não sendo, bota-de-elástico ou conservador, já o deixei escrito no dia 8 de Dezembro passado, num outro post, para mim o Dia da Mãe é o dia 8 de Dezembro. Porque não compreendo a razão da mudança, desta, ou de outras, que de vez em quando a igreja católica resolve patrocinar. Sei que este dia não é comemorado em todos os países na mesma data. Mas em grande parte do mundo católico (p. ex., aqui ao lado, em Espanha) prevalece o dia 8 de Dezembro. No entanto não quero deixar passar a data em claro e aqui fica uma saudação a todas as mães e em particular à minha, nos seus bonitos e rijos 88 anos. Obrigado Mãe, por me teres trazido ao mundo. Para todas as outras, aquelas que ainda estão entre nós, e aquelas que já são uma terna saudade, obrigado pelo vosso papel.

Para terminar, um pequeno poema da poetisa angolana, Alda Lara.

TRAMPOLIM

Mãe:
Deixa-me saltar no trampolim…
Deixa-me ser como os outros,
Gritar,
Empurrar,
Saltar nos trampolins que há por aí!...
Mãe:
Não me prendas mais…
Já que não posso ser acrobata,
Serei palhaço
A fingir, que também
Sou capaz,
De dar saltos no espaço!...
… Mas ficar, não!
Deixa-me tentar…
Deixa-me saltar no trampolim!...

Alda Lara, angolana, nasceu em Benguela em 1930 e faleceu em 1962. Além de Angola estudou em Lisboa - onde viveu vários anos - no Liceu Maria Amélia Vaz de Carvalho. Estudou medicina em Lisboa e Coimbra, por cuja Universidade se formou. Mas Alda Lara era sobretudo conhecida como grande poetisa que foi. Não tem uma obra extensa e nunca publicou em vida. Deixou em testamento esse encargo ao marido.


E a propósito de testamento, não resisto a deixar aqui um belíssimo poema, precisamente o poema Testamento, que embora dos primeiros a ser escritos, é no entanto um verdadeiro testamento.

TESTAMENTO

À prostituta mais nova
do bairro mais velho e escuro,
deixo os meus brincos, lavrados
em cristal, límpido e puro...

E àquela virgem esquecida
rapariga sem ternura,
sonhando algures uma lenda,
deixo o meu vestido branco,
o meu vestido de noiva,
todo tecido de renda...

Este meu rosário antigo,
ofereço-o aquele amigo
que não acredita em Deus...

E os livros, rosários meus
das contas de outro sofrer,
são para os homens humildes,
que nunca souberam ler.

Quantos aos meus poemas loucos,
esses, que são de dor
sincera e desordenada...
esses, que são de esperança,
desesperada mas firme...
deixo-os a ti, meu Amor...

Para que, na paz da hora,
em que a minha alma venha
beijar de longe os teus olhos,
vás por essa noite fora...
com passos feitos de lua,
oferecê-los às crianças
que encontrares em cada rua...

Adenda

Pois, a tecnologia tem destas coisas. E para quem não está suficientemente dentro dela, pior. O escrito anterior, mercê das manigâncias técnicas, não ficou completo, porque a malvada maquineta se recusou a abrir o blog. Problema que só hoje (espero), depois de inúmeras tentativas, ficou resolvido. O post deveria comportar uma declaração de intenções e acabar com um poema.
Declaração de intenções: nunca tive, não tenho e não terei qualquer filiação partidária. Quanto ao Governo, seja ele qual for, - e embora concordando que nem tudo é mau na governação - sou sempre contra. Também em tempos escrevi num jornal, apesar de não ser jornalista. E nem de propósito esta adenda, uma vez que hoje foi também o Dia Mundial da Liberdade de Imprensa

Agora o poema:

TEMPO DE CALÍGULA

Calígula era um indivíduo admirável
dentro da sua casaca preta
por isso os senhores que habitavam o palácio de Calígula
se tornavam subitamente admiráveis
dentro das suas casacas pretas
tão admiráveis
que se acaso Calígula falava
só o eco das palavras semeava de espanto
o coração de todos
e se Calígula sorria
ainda que fosse discretamente
todos sorriam discretamente
(de outra maneira, é lógico, deixariam de ser admiráveis)

e em cada palavra, cada sorriso
os insígnes jornalistas do palácio
anunciavam uma ideia admirável
para os destinos bíblicos de Roma
mas os anos foram continuando os séculos
e Roma era apenas uma pátria
sem tempo e sem destino
assim como um relógio antiquíssimo
a que Calígula não tivesse dado corda

porquê então os sorrisos de Calígula
e dos senhores subitamente admiráveis
dentro das suas casacas pretas?

soube-se mais tarde, isto é,
após a morte de Calígula
que Calígula só era um indivíduo admirável
dentro da sua casaca preta
por saber contar anedotas admiráveis
aos senhores subitamente admiráveis
por saberem sorrir às anedotas de Calígula

então o povo disse
que quem contava anedotas admiráveis
eram afinal os jornalistas do palácio de Calígula.

Fernando Guedes in Caderno "Poemas livres" n.º 1 - Março de 1962