quinta-feira, 6 de agosto de 2009

A gaivota e o gato

Hoje (ontem), quarta-feira, quase na fronteira temporal que separa o hoje do ontem, percorria a Rua das Flores em direcção ao Púcaros, nas arcadas de Miragaia. Mais ou menos a meio da rua, junto de um dos muitos ecopontos que por ali existem deparei com um quadro que em circunstâncias normais poderia considerar insólito. De facto, ver um gato (e como ele era bonito!) junto a uma gaivota (gorda, elegante) esperando que uma velhinha despejasse o lixo para poderem aproveitar algo comestível, noutros tempos seria impensável. Mas hoje, com as gaivotas, diria, socializadas, pela força das circunstâncias, isto é, por falta de alimento no mar ou no rio que passa próximo, não é de espantar. E ali fiquei um instante observando o afã da espera, ouvindo ainda da simpática velhinha um "coitadinha, ainda é atropelada, ainda no outro dia...". Segui depois o meu caminho e dei por mim a pensar num excelente livro que levei para férias com a intenção de o reler, o que não aconteceu. Mas vai acontecer. Falo do livro de Luis Sepúlveda "História de uma gaivota e do gato que a ensinou a voar". Leitura que recomendo vivamente aos meus amigos carantonhas pelo seu carácter pedagógico, pelas sua lição de vida, de amor e companheirismo. Verão que vão gostar da Ditosa, do Zorbas (0 nosso herói), do Colonello, do Barlavento (0 gato de mar), tanto como o meu gato Nico gostou.

Nunca mais...




Faz hoje 64 anos que se cometeu deliberadamente um dos maiores crimes contra a Humanidade. Aconteceu no final da II Grande Guerra, no Japão, em Hiroshima, onde foi lançada a primeira bomba atómica de que há memória, de seu nome "Litle Boy", nome fantástico para tal monstro de morte. O gesto ignomínioso foi ordenado pelo presidente americano, Truman. Três dias depois, 9 de Agosto, o alvo escolhido foi Nagasaki. A escolha destas duas cidades teve um cunho politico e económico, uma vez que eram as regiões mais desenvolvidas do Japão. Estima-se que tenha havido, aproximadamente, duzentas mil vitimas mortais. Historicamente, estes são até agora (e espera-se que nunca mais) os únicos ataques em que foram utilizadas armas nucleares. Mas nunca se sabe, pois o Homem (devia ser com letra pequena, mas fica o benefício da dúvida) não tem vergonha, mas sim uma grande falta de respeito pelo seu semelhante. Veja-se os crimes mais recentes contra a humanidade. Era bom que todos pusessemos a mão consciência e dissemos a uma só voz "Nunca mais".


HORA H

A Primavera cheira a laranjas.

(Há umas granadas de mão, redondas, e pequenas, a que chamam laranjas.)

O cheiro das laranjas enche a noite luarenta de mistérios.

(Dizem que as noites de luar são as melhores para bombardeamentos aéreos)



POEMA DA MORTE NA ESTRADA

Na berma da estrada, nuns quinhentos metros,
estão quinhentos mortos com os olhos abertos.

A morte, num sopro, colheu-os aos molhos.
Nem tiveram tempo para fechar os olhos.

Eles bem sabiam dos bancos da escola
como os homens dignos sucumbem na guerra.
Lá saber, sabiam.
A mão firme empunhando a espada ou a pistola,
morrendo sem ceder nem um palmo de terra.

Pois é.
Mas veio de lá a bomba, fulgurante como mil sóis,
não lhes deu tempo para serem heróis.

Eles bem sabiam que o último pensamento
devia estar reservado para a pátria amada.
Lá saber, sabiam.
Mas veio de lá a bomba e destruiu tudo num só momento.
Não lhes deu tempo para pensar em nada.

Agora,
na berma da estrada, nuns quinhentos metros,
são quinhentos mortos com os olhos abertos.

Os dois poemas acima são de António Gedeão, do livro Linhas de Força


A ROSA DE HIROXIMA

Pensem nas crianças
Mudas telepáticas
Pensem nas meninas
Cegas inexactas
Pensem nas mulheres
Rotas alteradas
Pensem nas feridas
Como rosas cálidas
Mas oh não se esqueçam
Da rosa da rosa
Da rosa de Hiroxima
A rosa hereditária
A rosa radioactiva
Estúpida e inválida
A rosa com cirrose
A anti-rosa atómica
Sem cor sem perfume
Sem rosa sem nada

Vinicius de Moraes

domingo, 2 de agosto de 2009

Tributo a José Afonso

Se fosse vivo, José Afonso faria hoje 80 anos. Por certo continuaria a cantar, mas talvez já não com a pujança de outrora. Talvez também já não com a mesma perseverança e a mesma convicção. Talvez desiludido com o rumo que tomou a liberdade que ele sempre buscou. Talvez, talvez… Nunca o saberemos. Mas poderemos com toda a certeza afirmar, que José Afonso foi um dos cantores de intervenção (se não o único) que mais marcaram a segunda metade do séc. XX. Ele, que viveu uma quase guerra com o fascismo, por ser um homem de pensamento livre, e que pouco sabia de composição, dois ou três tons, escreveu das mais fortes e interventivas canções de protesto que incomodaram o regime, e ajudaram a derrubá-lo. Nasceu em Aveiro (de onde saiu com 2 anos), cidade que quase o renegou, e que só há poucos anos, depois de muita politiquice (lá tinha a porca da política,- ou os políticos porcos -, de meter a foice em seara alheia), atribuiu o seu nome a uma escola. Dá que pensar de uma cidade onde se realizaram o Congresso Republicano de 1957 e três Congressos da Oposição Democrática, o último dos quais em Abril de 1973, e que também resistiu a atribuir a uma outra escola o nome de um aveirense ilustre, Mário Sacramento, um dos maiores vultos do pensamento português. Só os que pensam pequeno agem assim. Felizmente José Afonso pensava grande e por isso vai ficar na história. Vou deixar aqui alguns dos poemas que o Zeca escreveu e nunca musicou. Oxalá, carantonhas, vos sirvam.


OLHAI O NARDO E A CICUTA DOMADORES


Olhai o nardo e a cicuta
Domadores
Em todos os trapos e bandeiras
Se edificam sonhos absurdos
E Impérios

Se os meus ossos te consentirem
Se os meus ombros se vergarem
Eu te darei minha anuência
lúgubre
Como um silêncio sem fronteiras
Homens que dobrariam cavalos
se não dobrassem homens
Que edificariam países e rios
Mas nem vontades mataram

A morte espera-vos
Na justiça dos tempos.

“VENÃNCIO ERA COELHO”

Venâncio era coelho
Numa outra geração
Transmigrava de noite
De dia sucumbia
Quatro coisas Venâncio
Adorava fazer
Ver, comer, rogar pragas
Cortar as patas às moscas
Viaja sempre
Com apelidos falsos
Não declara
A bagagem que leva
Diz-se ministro
Papa
Boletineiro
Tem um metro e setenta
Não se importa
Que lhe mijem em cima

Atenção é vampiro

ISTO É SONO

Isto é sono
Tenho sono
Tenho saudades do vento
do poço
do catavento
da estrada de Santiago
Tenho montanhas de trapos
que são guisos
que são sapos
Tenho de tudo cautela
da minha infância calada
do velho
da nuvem branca
da janela
do romeiro
do tinteiro
da verruma.

Tenho saudades da espuma

sábado, 1 de agosto de 2009

Carta a uma senhora da Justiça


Cara senhora

Há já uns dias, vi num jornal diário, a sua fotografia ilustrando uma resposta a um inquérito de rua. Apesar de poder considerá-la bonita, não foi a fotografia que me chamou a atenção, mas sim a profissão e a idade. Juíza, 29 anos. 29 anos? Juíza? Aqui, os bichinhos da cabeça começaram a fazer rolar as esferas (se eu fosse máquina, mesmo máquina, diria os rolamentos) do pensamento e… espera lá!, juíza, 29 anos? Inevitavelmente as esferas levaram-me até à proximidade do estado calamitoso da justiça no nosso país. Não é que em primeira instância a senhora seja directamente culpada desse mesmo estado, mas mais dia, menos dia, será tão culpada como aqueles que possíbilitaram que aos 29 anos seja juíza. Com isto, não quero menosprezar a sua inteligência, o esforço e o apego ao estudo para chegar aí. Mas…
Há sempre um mas, não é? Vejamos. Curso acabado aos 21, 22 anos, estágio, exame para poder exercer, entrada para o curso de alguns anos do Centro de Estudos Judiciários, e enfim juíza. Até chegar aqui quantos casos advogou, quantas defesas, quantas acusações? Quanta experiência acumulada? Quantos desempenhos de juízes(as) observou?
Qual o seu amadurecimento para exercer a profissão de juiz? Qual a sua experiência de vida que lhe possibilite ter nas mãos os destinos de alguém?
Poderia continuar a fazer perguntas, a algumas das quais saberia responder, e a tecer considerações que teria capacidade para rebater.
Mas fico-me por aqui esperando que compreenda que não a quis atingir pessoalmente, mas sim ao sistema que permite que seja juíza aos 29 anos. Aqui chegado, lembrei-me de Almada Negreiros e do seu Manifesto Anti-Dantas. Diz-lhe alguma coisa? Se o aplicar à Justiça…
Espero que não me julgue, quer dizer, não julgue desfavoravelmente o que escrevi.

Se me permite, cara senhora, terminarei com um poema dee Sidónio Muralha, em louvor de todos aqueles que ainda acreditam que a justiça há-de arrancar a venda dos olhos e tornar-se mais justa e equitativa. Até sempre, se possível com melhor justiça.


PARA VÓS O MEU CANTO


Para vós o meu canto companheiros de vida!
Vós, que tendes os olhos profundos e abertos,
vós, para quem não existe batalha perdida,
nem desmedida amargura,
nem acidez nos desertos;
vós, que modificais o leito de um rio;


- nos dias difíceis sem literatura,
penso em vós: e confio;
penso em mim : e confio;

- para vós os meus versos, companheiros de vida!

Se canto os búzios, que falam dos clamores,
das pragas imensas lançadas ao mar
e da fome dos pescadores,
- penso em vós, companheiros,
que trazeis outros búzios para cantar...

Acuso as falas e os gestos inúteis;
aponto as ruas tristes da cidade
e crivo de bocejos as meninas fúteis...
Mas penso em vós e creio em vós, irmãos,
que trazeis ruas com outra claridade
e outro calor no apertar das mãos.

E vou convosco. - Definido e preciso,
erguido ao alto como um grito de guerra,
à espera do Dia do Juizo...
Que o Dia do Juízo
não é no céu... é na Terra!

sexta-feira, 31 de julho de 2009

Regresso


fotografia actual, obtida por Amílcar Mendes



Caros carantonhas, cá estou de regresso e pronto a deixar aqui, de vez em quando, um ou outro escrito que julgue de interesse. Regresso da Costa Nova, praia, onde estive quase dois meses, com dias para todos os gostos e que tentei aproveitar o melhor possível

A fotografia que fica aí em cima não é de duas casas geminadas, muito menos gémeas, isto é, nascidas no mesmo parto, nem se trata de mãe e filha, como possa parecer. São simplesmente duas casas a imitar os antigos palheiros da Costa Nova do Prado.

Voltarei ainda aqui para continuar a falar da praia, até porque quero falar do palheiro de José Estêvão e de Eça de Queirós, seu frequentador.

Deixo aqui uma outra fotografia, de autor desconhecido, mas identificada como sendo do ano de 1870, e que nos mostra como a Ria de Aveiro estava bem próxima das casas, ao contrário de hoje, bem longe destas, em virtude do espaço que lhe foi roubado.

terça-feira, 7 de julho de 2009

Tempo de romarias, tempo de festas

Santo António já se acabou/O São Pedro está-se a acabar/S. João, S. João, S. João/Dá-me um balão para eu brincar. Era assim que se cantava (desconfio que ainda hoje se canta) cá pelo Norte na época dos Santos Populares. Estes já ficaram para trás mas as festas populares e as romarias continuam por todo o lado, principalmente no norte do país. É também altura de muitos portugueses da diáspora regressarem temporariamente às suas origens. É o tempo de o povo se manifestar, dar largas à sua alegria (nesta altura todas as agruras se esquecem, penso eu), descomprimir de um ano de trabalho árduo. É também boa altura para o povo manifestar a sua veia poética, nas cantigas ao desafio que se cantam em despique por vezes duro. E assim nascem muitas vezes os versos - quadras populares - que passam a andar na boca desse mesmo povo. Quadras muitas vezes de sentido crítico, e algumas (muitas) legando-nos um forte conceito de moralidade. Dito isto, porque não algumas quadras populares. Vamos a isso.

Debaixo do verde pinho
Se derrete a neve pura...
Amar a quem nos não ama,
É refinada loucura.

Ó meu amor a quem deste
O teu lenço de pintinhas?
Com quem foste repartir
O amor que tu me tinhas

O padre quando diz missa,
Abre o livro e diz: oremos.
Também te digo amor,
Desta feita acabaremos.

Não há pau como o carvalho,
Nem lenha como a de azinho;
Nem filhos como os do padre
Que chamam ao pai, padrinho.

Que triste sorte é a minha,
Tudo é o que Deus quer,
Inda hoje me casei
Já me pariu a mulher.

Todo o pássaro bebe água,
Só a coruja bebe azeite;
O seu canário, menina,
Come carne, bebe leite.

Ó meu amor, se tens penas
Eu ponho água a aquentar
As penas, com água quente,
São boas de depenar.

Menina, prenda o seu cuco,
Que me vai ao meu quintal.
Se lhe solto o meu canário,
O seu cuco fica mal.

Ó menina, dê-me, dê-me,
Uma vez não marca raia:
Um velo de lã merina,
Que tem debaixo da saia.

Sete vezes fui casada;
sete homens arrecebi.
Para falar a verdade
Inda 'stou como nasci.

À prima mais se lhe arrima,
Lá diz o velho ditado.
Ouve a voz do povo ó prima
E vem deitar-te a meu lado.

E por aqui me fico. Usufruam, carantonhas. Até um dia destes.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Sonhos... que dão em azar

Eu sei que há por aí carantonhas que não perdoam, mesmo estando o Carantonha Mor em gozo de prolongado e merecido período de férias, a sua ausência do contacto virtual. Para não vos desapontar, numa vinda à civilização (isto é, à cidade), e na falta de inspiração, que espero não seja prolongada, resolvi recorrer a terceiros para vos deixar um texto com algum humor, que é aquilo que com frequência me falta. Fiquem então com um texto de António Manuel Revez (quem é este gajo?) do seu livro "O Pénis do Jeremias".

Sonho de menino

"Sempre quis ser Disc Jockey. D.J. Mesmo antes de ter querido ser bombeiro, no segundo ano do ciclo. O que é que era advogado, ou médico, ou engenheiro, ao pé de D.J.? Nada. Isso qualquer um é, ou podia ser. D.J. era com o ser astronauta, só para eleitos. Ter todas as mulheres da discoteca vidradas em mim, pôr toda agente a dançar, escolher a música ao meu gosto, , beber à borla, engatar miúdas, ser conhecido e famoso. O que é que um homem podia querer mais? E tinha as condições ideais para isso. Era ágil de mãos, tinha bom gosto, dormia pouco, aguentava a bebida, adorava as luzes da discoteca, e tinha uma carinha laroca de invejar.
Por isso, ainda hoje, cada vez que observo os corpos em silêncio a desenharem coreografias estranhas na pista da disco do meu bairro, me pergunto, com um diploma de jardineiro no quarto, porque é que tive que nascer surdo-mudo"

Deus, não pode bafejar toda a gente com a perfeição, digo eu. E digo mais, sem querer substituir-me a qualquer deus, a perfeição só está ao alcance dos eleitos. Porra, mas quem são os eleitos? É melhor ficar por aqui. Tenho dito.

Já sei quem é "o gajo". António Manuel Revez, nasceu em 1969 em Almada. Quando era criança gostava de desenhar cavalos e naves espaciais. Depois quis ser tenente da Marinha e acabou a estudar Filosofia em Coimbra. Depois quis saber Sociologia e fez o mestrado em Évora. Vive no Alentejo. Tem uma cicatriz na perna esquerda. É casado com uma mulher fascinante e pai adoptivo de uma linda pastora alemã. Tem publicado textos de todo om feitio em jornais e revistas de toda a espécie, à excepção de boletins paroquiais. Também escreve peças de teatro. É professor e vai regularmente a discotecas. Gosta de cores garridas, de adormecer a ver filmes japoneses, e de fazer compras ao domingo à tarde. (Texto retirado do sítio Wook)

A ser verdade tudo isto, deve ser um "gajo porreiro".