terça-feira, 19 de maio de 2009

Mário Benedetti

Mário Benedetti, foi (é) um romancista, cronista, ensaísta e dramaturgo uruguaio, nascido em Montevideu. Foi um poeta de compromisso e cronista de sentimentos. Essencialmente os seus poemas mostram o compromisso social e a coerência de alguém que acreditou "na vida e no amor, na ética e em todas essas coisas tão fora de moda". As suas obras fizeram eco da angústia e da esperança de amplos sectores sociais, para encontrar saídas socialistas para uma América Latina subjugada pela repressão militar. Uma das obras mais conhecidas da sua dramatúrgia, Pedro e o Capitão, mostra-nos esse lado do seu combate contra a tirania e a repressão, lado que o levou a exilar-se durante a ditadura uruguaia. Morreu aos 88 anos, no último domingo.

MUDANÇA

Deus morrerá de velho
magoado e desgostoso
triste por não poder encomendar-se
a deus.


DESPERTA AMOR

Bonjour buon giorno guten morgen
desperta amor e toma nota
só no terceiro mundo
morrem quarenta mil crianças por dia
no plácido céu desanuviado
pairam os bombardeiros e os abutres
quatro milhões têm sida
a cobiça desvasta a amazónia

buenos dias good morning desperta
nos ordenadores da avó onu
não cabem mais cadáveres do ruanda
os fundamentalistas degolam os estrangeiros
prega o papa contra o preservativo
havelange estrangula maradona

bonjour monsieur le maire
forza itália buon giorno
guten morgen ernst junger
opus dei buenos dias
good morning hiroshima

desperta amor
que o horror amanhece.

Poemas traduzidos por Amílcar Mendes

domingo, 17 de maio de 2009

Vale tudo, menos tirar olhos

"Vale tudo, menos tirar olhos" - Expressão utilizada quando se pretende resolver determinado assunto, usando tanto meios lícitos como ilícitos.

Voltando a São Pancrácio, desconhecia mesmo que existisse santo com tal nome. O que eu conhecia era o substantivo pancrácio, de origem popular, e com o significado de pateta, idiota, simplório, hoje practicamente caída em desuso, pelo menos nos grandes centros populacionais.
Mas vim a descobrir também um outro significado (bendita Enciclopédia Lello) para a palavra.
Pancrácio, do grego pan (todos) e Kratos (poder), que quer dizer, mais ou menos,"tudo é permitido na força".
O pancrácio era uma luta violenta, mistura de boxe e luta livre, pontapés, estrangulamentos, considerada uma das modalidades mais populares da Antiguidade, e servia de treino aos soldados gregos. Chegou a fazer parte dos Jogos Olímpicos em 648 a.C., sendo anos depois excluída, devido à sua brutalidade. Esta luta, em que os contendores se apresentavam nus, não tinha limite de tempo, e só terminava quando um dos lutadores se rendia, ou mesmo morria, o que não era raro. Na Megapólis de Atenas foi considerada ilegal pelo perfeito Egeu, devido a pressões dos grupos conservadores da cidade, por segundo eles, ser extremamente violenta e exercer uma má influência na juventude. Sabe-se que foi esta luta que deu origem aos actuais boxe, wrestling, vale tudo e outras lutas aparentadas. Apesar de ser uma luta considerada sem regras, tinha algumas: era proibido morder, arranhar, golpear a genitália (para quem não sabe, "as partes baixas") e sobretudo, tirar olhos. Talvez, quem sabe, venha dessa última proíbição a expressão "vale tudo, menos tirar olhos".
Uff, que fiquei cansado com esta luta. Valha-me, ao menos, São Pancrácio!

(a todos esses jovens que ao sol e à chuva, num campo, durante horas inteiras, - quase nús, cultivam com uma formosa animalidade inconsciente, a alegria muscular na destreza dos desafios.)- António Botto

Manhã de luz penetrante.

O sinal dando início à Maratona
É dado
Pela voz d'oiro
De Píndaro - o imortal.

E aqueles corpos
De gentilíssimo talhe
E sóbria musculatura
- Carne divina
Sem a mácula do abraço feminino
Que a torna
Doente, sacrificada -
Arrancam!, - e lá vão cobrindo sulcos
Na areia fina e molhada.

De entre tantos,
P'la graça dos movimentos,
Nervoso, ágil, delgado,
Um moço alto
Cativa o meu olhar deslumbrado!

Silêncio. Ele? - Foi ele!...

Rosas vermelhas e frescas
Engrinaldam
A fronte lisa do herói.

Braços de mulher o envolvem?

E na minha alma de artista
Uma trágica certeza
Mais me entristece e me dói.

António Botto in As Canções de António Botto

sexta-feira, 15 de maio de 2009

São rosas, senhor!

Diz-se que Maio é o mês das rosas. Será mais, talvez, o mês das flores. Procurei e não encontrei nada que sustentasse essa afirmação. Foi também em Maio, segundo a lenda, que, no regaço de D.Isabel de Aragão, o pão se transformou em rosas, diante de El-Rei D. Dinis. Mas vamos acreditar que sim, que Maio é o mês das rosas, e por isso aqui deixo alguns poemas e um texto que nos falam, ou em que se fala de rosas. Que vos aproveitem.

FOI PARA TI QUE CRIEI AS ROSAS

Foi para ti que criei as rosas.
Foi para ti que lhes dei perfume.
Para ti rasguei ribeiros
e dei às romãs a cor do lume.

Foi para ti que pus no céu a lua
e o verde mais verde nos pinhais.
Foi para ti que deitei no chão
o corpo aberto como os animais

Eugénio de Andrade, «As mãos e os Frutos» in Poesia, Porto, Fundação Eugénio de Andrade, 2005, 2.ª ed.

CANTIGA

Flor verde, na botoeira,
Rosa verde - que magia!
A luz desmaia no verde
Da rosa da botoeira...
Rosa verde, poesia!

E o poeta traz a alma
Toda à mostra, pela rua,
Não sei o quê em o dia...
Anda na brisa um desmaio...
Um vago e fresco desmaio...
E a luz desmaia no verde
Da rosa da poesia.

Cristovam Pavia, Poesia


ROSA DE HIROXIMA

Pensem nas crianças
Mudas telepáticas
Pensem nas meninas
Cegas inexactas
Pensem nas mulheres
Rotas alteradas
Pensem nas feridas
Como rosas cálidas
Mas, oh, não se esqueçam
Da rosa da rosa
Da rosa de Hiroshima
A rosa hereditária
A rosa radioactiva
Estúpida e inválida
A rosa com cirrose
A anti-rosa atomica
Sem cor sem perfume
Sem rosa, sem nada

Vinicius de Moraes

POEMA PARA O MEU AMOR DOENTE

Hoje roubei todas as rosas dos jardins
e cheguei ao pé de ti de mãos vazias.

Eugénio de Andrade, Poesia, Porto,Fundação Eugénio de Andrade, 2005, 2.ª ed.

O PRINCIPE E A ROSA

[...] O principezinho foi ver outra vez as rosas.- Vós não sois nada parecidas com a minha rosa; ainda não sois nada, disse-lhes ele. Ninguém vos cativou, nem vós cativastes ninguém. Sois como era a minha raposa. Não passava de uma raposa igual a cem mil raposas. Mas fiz dela minha amiga e agora é única no mundo.E as rosas ficaram bastante aborrecidas.- Vós sois belas, mas vazias, disse-lhes mais. Ninguém vai morrer por vós. É certo que, quanto à minha rosa, qualquer vulgar transeunte julgará que ela se vos assemelha. Mas, sozinha, ela vale mais do que vós todas juntas, porque foi ela que eu reguei. Porque foi ela que pus numa redoma. Porque foi ela que abriguei com um biombo. Porque foi por causa dela que matei as lagartas (excepto duas ou três para as borboletas). Porque foi ela e só ela que ouvi lamentar-se ou gabar-se, ou mesmo, por vezes, calar-se. Porque é a minha rosa. [...]

Antoine de Saint-Exupéry, O Principezinho,Lisboa, Editorial Aster, Trad. de Alice Gomes, 4.ª ed., s/d

NOTA Algumas palavras v\ao sem acentos. Tambem nao ha tra;os, pontos, etc. porque o PC asneou. Humildes desculpas aos carantonhas.

quarta-feira, 13 de maio de 2009

De mãos dadas

De mãos dadas podemos não mudar o mundo, mas podemos obrigá-lo a portar-se melhor.


Caras(os) Carantonhas,
É tempo de vos agradecer o gesto simpático de passarem cá pelo blog. Até ao momento não sei quantos passaram, porque vá-se lá saber porquê o contador desactivou-se, mas isso é o que menos importa. Quando o blog foi criado, foi-o também com o espírito de partilha. Portanto, não precisam de pedir desculpa por passarem por cá. Sintam-se em casa, ainda que os assuntos aqui tratados sejam banais, e a qualidade literária possa não ser a que esperavam. Mas... Há sempre um mas, não é? Gostava que comentassem, ainda que criticando, o que aqui escrevo, porque estou certo que isso seria uma maneira de os assuntos e a escrita evoluírem. É que reparo que os comentários incidem sobre os comentários de quem já comentou. Desculpem lá a redundância.
Quanto ao anonimato estamos conversados. Há três hipóteses de publicar o comentário. Usem as outras duas e identifiquem-se, porque aqui ninguém se zanga com ninguém. Eu sei, eu sei que corremos o risco de o Zé ou o Jonas se identificarem como Jacinto Leite Capelo Rego, José Sócrates ou Cavaco Silva. Paciência! Prontos. É assim que se diz em linguagem modernaça, não é? Cá o cota também diz, carago. O blog está por aqui. Com a urbanidade de que eu sei que são capazes, usem-no, critiquem, critiquem-se, "piquem-se", namorem, troquem impressões, estejam à vontade.
Ai meu rico São Pancrácio, no que eu me fui meter! Seja o que os(as) carantonhas quiserem. Tenho dito.

terça-feira, 12 de maio de 2009

Manuel Alegre




Imagem "roubada" a sergeicartoons.com

Manuel Alegre é, para mim, um dos maiores poetas portugueses, senão o maior, a partir da segunda metade do séc. XX. Já Mário Sacramento dizia, referindo-se ao seu livro de estreia, que havia nascido o maior poeta do neo-realismo português. Chegou mesmo a compará-lo a Camões referindo o lado epopeico da sua poesia.

Manuel Alegre faz anos hoje.

Manuel Alegre de Melo Duarte, nasceu em Águeda a 12 de Maio de 1936. Estudou no Porto, em Lisboa e na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra. Foi campeão de natação e fez teatro no TEUC (Teatro dos Estudantes da Univ. Coimbra). Em 1961 foi mobilizado para Angola, onde participa num movimento de resistência no interior das Forças Armadas e numa tentativa de revolta militar.Preso pela PIDE, passa seis meses na Fortaleza de S. Paulo de Luanda, onde escreve grande parte dos poemas do seu primeiro livro, Praça da Canção. Em 1963 voltou a Coimbra, mas porque continuou a ser perseguido, entra na clandestinidade, e é eleito membro do comité nacional da Frente de Libertação Nacional e passa a trabalhar em Argel na emissora "Voz da Liberdade". Regressou a Portugal após o 25 de Abril. Escreve entre outros, Praça da Canção, O Canto e as Armas, Livro do Português Errante, Senhora das Tempestades, todos poesia; Alma, Terceira Rosa (romance); O Homem do País Azul, contos e Cão Como Nós, novela.

(Notas biográficas in O Quadrado (contos), edição Dom Quixote)

O seu livro de estreia, Praça da Canção, começa com um belíssimo texto,poema em prosa, Rosas Vermelhas.

É desse texto que vamos transcrever alguns excertos, uma vez que é algo extenso.

Rosas Vermelhas

"Nasci em Maio, o mês das rosas, diz-se. Talvez por isso eu fiz das rosas a minha flor, um símbolo, uma espécie de bandeira para mim mesmo.

E todos os anos, quando chegava o mês de Maio, ou mais exactamente, no dia 12 de Maio, às dez e um quarto da manhã (que foi a hora em que eu nasci), a minha mãe abria a porta do meu quarto, acordava-me com um beijo e colocava numa jarra um ramo de rosas vermelhas, sem palavras. Só as suas mãos, compondo as rosas, oficiavam nesse estranho silêncio cheio de ritos e ternura.

Nesse tempo o sol nascia exactamente no meu quarto. (...) Quando chegava o mês de Maio, eu abria a janela e ficava bêbado desse cheiro a fogueiras, carroças e ciganos. (...) E tudo estava certo, nesse tempo, ou pelo menos, nada tinha o sabor do irremediável. (...) Não havia polícia nesse tempo. Ninguém roubaria a tranquilidade do meu sonho, ninguém viria a meio da noite para me levar, porque bastava eu chamar:

-Mãe!

E logo essa voz tão calma, entrava dentro de mim, mandava embora os fantasmas, (...)

Em Maio de 1963 eu estava na cadeia. Por vezes, a meio da noite, um grito abalava as traves da minha cabeça, direi mesmo da minha vida, e eu acordava suado, dolorido, como se um rato (talvez o medo?) me roesse o estômago. E era inútil chamar. Onde ficara essa voz que dantes vinha repor o meu sono no seu lugar, repondo a paz dentro de mim? (...)

Eu estava, pela primeira vez, fisicamente só (...) era terrível essa manhã sem manhã, essa realidade branca e gelada (...) era terrível acordar nessa estreita paisagem com sete passos de comprimento por sete de largura (...)

Os fantasmas tinham entrado no meu sono (...) os fantasmas eram donos do país. E se eles viessem de repente, a meio da noite e eu chamasse:

-Mãe!

a voz (tão calma) de minha mãe já nada poderia contra eles. (...) Eu nunca pude suportar a sujeição. Acaso poderia ter escolhido outro caminho?

Por isso, em Maio de 1963, eu estava na cadeia, isto é, de certo modo, eu estava no meu posto. No dia 12 não acordei com o beijo de minha mãe.

Porém, nessa manhã (não posso dizer ao certo porque não tinha relógio, mas talvez - quem sabe? -, às dez e um quarto, que foi a hora em que eu nasci), o carcereiro abriu a porta e entregou-me, já aberta, uma carta de minha mãe. E ao desdobrar as folhas que vinham dentro do sobrescrito violado, a pétala vermelha duma rosa vermelha, caiu, como uma lágrima de sangue, no chão da minha cela."

São Pancrácio



Algumas vezes, nos meus postais, costumo usar a expressão “valha-me São Pancrácio” ou “valha-nos São Pancrácio”, como outros costumam dizer “Valha-nos Deus” ou “Valha-nos Nossa Senhora” ou evocam S. João ou S. Judas Tadeu. Porque nunca me passou pela cabeça que tal santo existisse na agiologia dos santos. E não é que vim a descobrir que São Pancrácio existe mesmo!? Dizem-me que é o santo padroeiro do trabalho e da saúde, e que o seu dia é hoje, 12 de Maio.
Nasceu em Roma e foi baptizado aos 14 anos. Diz a tradição que era senador em Roma e um respeitado membro da corte do Imperador Diocleciano. Quando em 303 Diocleciano ordenou que os cristãos fossem perseguidos, ele arranjou uma maneira de esconder os cristãos, mas também escondeu a sua fé. Um dia recebeu da sua mãe e da sua irmã uma carta que o encorajava a revelar a sua fé. Então apresentou-se ao imperador e confessou-se cristão. Foi preso e martirizado para renegar a sua fé. Naquela época o martírio consistia em esmagar os ossos do braço, joelhos e pés, em prensas de madeira. Como não renegasse, foi decapitado em 304 DC.
A partir de hoje vou evocar o santo com mais convicção. Tenho dito.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Azul, azul, mais azul não há

Um pouco mais de sol - eu era brasa
Um pouco mais de azul - eu era além
(...)
Mário de Sá-Carneiro

A s nuvens são brancas
O céu é azulão
Que bonito é o Estádio do Dragão

Amílcar Mendes


Cá em em casa continua a ser tudo azul. E vai continuar a ser enquanto o espírito portuense e portista for inspirado pelo seguinte poema de Pedro Homem de Mello:

Dúvida? Não. Mas luz, realidade
E sonho que na luta amadurece
- O de tornar maior esta cidade.
Eis o desejo que traduz a prece.
Só quem não sente o ardor da juventude
Poderá vê-la, de olhos descuidados.
Porto - palavra exacta.l Nunca ilude.
Renasce, nela, a Ala dos Namorados!
Deram tudo por nós estes atletas.
Seu trajo tem a cor das próprias veias
E a brancura das asas dos poetas...
Ó fé de que andam nossas almas cheias!
Não há derrotas quando é firme o passo.
Ninguém fala em perder! Ninguém recua...
E a mocidade invicta em cada abraço
a si mais nos estreita. A Pátria é sua.
E, de hora a hora, cresce o baluarte!
Lembro a Torre dos Clérigos, às vezes...
Um anjo dá sinal quando ele parte...
São sempre heróis! São sempre portugueses!
E, azul e branca, essa bandeira avança...
Azul, branca, indomável, imortal.
Como não pôr no Porto uma esperança
Se "Daqui Houve Nome Portugal"