sexta-feira, 19 de setembro de 2008

FALEMOS DE POESIA

Falemos de poesia, um dos gostos do Carantonha-Mor, a par com o teatro.Este vosso amigo tem uma notória falta de geito para escrever poesia. Por isso, quando me lembro do que um dia disse o poeta brasileiro Mário Quintana, que foi mais ou menos isto "escrever versos é fácil, dificil é escrever poesia", limito-me a emprestar a voz ao que os poetas escrevem. Então, digo que sou um "dizedor". Um "dizedor" com um longo historial de divulgação de poesia. Enquanto leitor de poesia, entendo que esta não deve explicar-se. Deve sentir-se. Há, no entanto, alguns poemas que para melhor serem entendidos por quem os ouve, merecem ser historiados. É o que se passa, por exemplo, com um poema de Alexandre O'Neill que se chama Um Adeus Português, que além de ser um dos mais belos poemas da lingua portuguesa, é simultâneamente uma forte crítica ao clima social e ao "modo funcionário de viver" que no Portugal de então nos obrigavam a suportar.
Vamos então à história:
No fim do ano de 1949 veio a Lisboa uma senhora francesa, Nora Mitrani, proferir uma conferência sobre surrealismo, que se realizou a 12 de Janeiro do ano seguinte. O tradutor do texto foi Alexandre O'Neill.Este, era o que em linguagem vulgar se chama um "pinga-amor", e apaixona-se loucamente pela francesa. Quando ela parte, fica combinado que o poeta se lhe iria juntar em Paris.O que nunca chegou a acontecer, uma vez que a PIDE, diz-se que a pedido de um tio, lhe confiscou o passaporte que só anos mais tarde viria a reaver. Alguns anos depois escreve Seis Poemas confiados à memória de Nora Mitrani.
Aqui fica UM ADEUS PORTUGUÊS

Nos teus olhos altamente perigosos
vigora ainda o mais rigoroso amor
à luz de ombros puros e a sombra
de uma angústia já purificada

Não tu não podias ficar presa comigo
à roda em que apodreço
apodrecemos
a esta pata ensanguentada que vacila
quase medita
e avança mugindo pelo túnel
de uma velha dor

Não podias ficar nesta cadeira
onde passo o dia burocrático
o dia-a-dia da miséria
que sobe aos olhos vem às mãos
aos sorrisos
ao amor mal soletrado
à estupidez ao desespero sem boca
ao medo perfilado
à alegria sonâmbula à virgúla maniaca
do modo funcionário de viver

Não podias ficar nesta cama comigo
em trânsito mortal até ao dia sórdido
canino
policial
até ao dia que não vem da promessa
puríssima da madrugada
mas da miséria de uma noite gerada
por por um dia igual

Não podias ficar presa comigo
à pequena dor que cada um de nós
traz docemente pela mão
a esta pequena dor à portuguesa
tão mansa quase vegetal

Não tu não mereces esta cidade não mereces
esta roda de náusea em que giramos
até à idiotia
esta pequena morte
e o seu minucioso e porco ritual
esta nossa razão absurde de ser

Não tu és da cidade aventureira
da cidade onde o amor encontra as sua ruas
e o cemitério ardente
da sua morte
tu és da cidade onde vives por um fio
de puro acaso
onde morres oun vives não de asfixia
mas às mão de uma aventura de um comércio puro
sem a moeda falsa do bem e do mal

Nesta curva tão terna e lancinante
que vai ser que já é o teu desaparecimento
digo-te adeus
e como um adolescente
tropeço de ternura
por ti.

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