sábado, 31 de janeiro de 2009

Sucessos com cães dentro

CÃO I

Todas as notícias o davam como tendo morrido afogado, mas o rafeiro valente sobreviveu ao impacto da onda e antes que se fizesse tarde, lá vai ele até casa, onde chegou primeiro que o dono imprevidente. Só no dia seguinte vieram as novas de que o canídeo se tinha salvo e já estava pronto para outro passeio, esperando que a inconsciência do dono o não levasse a passear outra vez para junto do mar agitado. Sim, falo daquele rafeiro que só foi notícia porque o dono, num dia de tempestade, o levou até a beira mar e foi (o dono) arrastado por uma onda mais alterosa, tendo sido salvo por três jovens que não pensaram duas vezes no risco que corriam. Salvou-se o dono e salvou-se o cão e tudo acabou em bem.

CÃO II

Segundo rezam as estatísticas, Portugal é o país que tem mais recordes no Guinness. É também o país onde há mais telemóveis em uso. Não sei se isso nos traz algumas vantagens. Mas que sabemos aproveitar as ocasiões, sabemos. Bastou que o Presidente dos EE.UU fizesse constar que as filhas gostariam de ter um cão, talvez um cão-de-água português, e logo alguém ofereceu um exemplar. Só que o cachorro ainda não existia. Então, há que pôr a fábrica a funcionar. Mas a pretensa mãe não esteve pelos ajustes. Não sei como ficou a história, mas acho que seria boa ideia aproveitar a onda e começar a pensar-se na produção em série. Ganhava a raça (dos canídeos) e talvez ganhasse o turismo.

E aqui está o pretexto para dar a conhecer alguns poemas com cães dentro:

CÃO COMO NÓS

Como nós eras altivo
fiel mas como nós
desobediente.
Gostavas de estar connosco a sós
mas não cativo
e sempre presente-ausente
como nós.
Cão que não querias ser cão
e não lambias
a mão
e não respondias à voz.
Cão
cão como nós.

Manuel Alegre, in Cão como nós, a história do seu cão Kurika

NOCTURNO

Quatro da madrugada
Vivos,
sob o arco do céu,
eu
e um cão tão magro como eu.
Sem prévia combinação, sem nada,
tivemos este encontro nesta rua
a esta hora marcada
pelo aceno da lua.

E aqui vamos agora,
num amor vagabundo
de quem não se conhece e se namora,
a encher os dois sozinhos este mundo.

Miguel Torga, in Diário I, 1941

HISTÓRIA DE CÃO

eu tinha um velho tormento
eu tinha um sorriso triste
eu tinha u8m pressentimento

tu tinhas os olhos puros
os teus olhos rasos de água
como dois mundos futuros

entre parada e parada
havia um cão de permeio
no meio ficava a estrada

depois tudo se abarcou
fomos iguais um momento
esse momento parou

ainda existe a extensa praia
e a grande casa amarela
aonde a rua desmaia

estão ainda a noite e o ar
da mesma maneira aquela
com que te viam passar

e os carreiros sem fundo
azul e branca janela
onde pusemos o mundo

o cão atesta esta história
sentado no meio da estrada
mas de nós não há memória

dos lados não ficou nada

Mário Cesariny, in burlescas teóricas e sentimentais, 1972

BOM DIA , CÃO

Avisto na rua um cão
Digo-lhe: como vais, cão?
Pensa que me responde?
Não? Pois bem, mas ele responde-me
E isso não é da sua conta
Agora quando se vêem pessoas
Que passam sem sequer reparar nos cães
Sentimos vergonha pelos seus pais
E pelos pais dos seus pais
Porque é uma tão má educação
É coisa que requer pelo menos... e não estou a ser generoso
Três gerações, com uma sífilis hereditária
Mas, para não vexar ninguém, devo acrescentar
Que um número considerável de cães não falam com muita
frequência.

Boris Vian, in Cantilenas em Geleia

A VIDA É UMA FADA

há quem tenha
uma cadela
eu não tenho
uma gata.
a cadela
leva-me lá fora
a gata
anda lá fora.
a cadela
anda-se com ela.
por isso prefiro
não ter uma gata
a ter uma cadela.

embora na desgraça
esta gata é de raça.
se eu pudesse tinha-a
mas não pára em casa.
e se a tivesse passava
a vida como quem tem
uma cadela cinderela:
a gata, que é dela?
não era bom para mim
e era mau para ela.

antes da meia noite
já está com a cadela.
chamam-lhe borralheira
porque nunca mantém
em segredo a fada.
os cavalos são mesmo ratos
a varinha não é de marca
e a carruagem é uma abóbora.
apesar de tudo é uma gata
fala francês com a cadela
e não toca piano
mas escreve à máquina.

ora porque me inquieta
a gata que não é minha?
é que não quero saber da cadela da vizinha!
a borralheira, essa
comunista na miséria
comodista na fartura
é muito meiga e neutra.
à noite pousa a pata
no meu ombro e ladra
o estupor da gata.

Joaquim Castro Caldas, in Convém Avisar os Ingleses

sábado, 24 de janeiro de 2009

Real caridadezinha


Ainda não tinha acabado de ler a notícia e já me ria com uma enorme vontade, ao mesmo tempo que na minha frente visionava o mendigo da peça “Deus lhe pague” do dramaturgo brasileiro Joracy Camargo, a recolher a moeda dada pela duquesa e a dizer isso mesmo: “deus lhe pague”. A peça vem já do século passado, teve grande sucesso nos palcos e deu origem a um filme, com igual êxito. Na peça ou no filme não havia duquesa, na notícia sim. É claro que o riso foi pelo insólito da notícia, e pelo facto relatado em si o ser. Quase me esquecia dos factos, vamos então a eles. A notícia vem na página Fama, do diário gratuito Global, de onde, com a devida vénia, vamos transcrevê-la.
Título: “Duquesa de York ajudou sem-abrigo”.
Notícia: “ A Duquesa de York, Sara Ferguson, e a sua filha, a princesa Beatrice, resolveram praticar uma boa acção ajudando um sem-abrigo, em Londres. Após um jantar num restaurante chique, ambas caminhavam pela rua enfrentando as baixas temperaturas na capital e, ao depararem-se com um sem-abrigo, deram-lhe dinheiro.”
Por me parecer que a notícia está escrita com bastante ironia, vou deixar só um comentário. Com tamanho espírito caritativo porque não levar o sem-abrigo para o palácio, tratar dele, e dar-lhe uma ocupação?

Menina Fútil

A menina fútil deu um bodo aos pobres;
Pela primeira vez pôs avental…
Falou do gesto e seus intuitos nobres,
Com palavrinhas brandas, o jornal…

- Os pobres ficaram pobres
E a menina fútil nunca mais pôs avental…

A menina fútil tem um cão de raça
Que nunca saiu do quintal
E nunca viu uma cadela…
Para a menina fútil o seu cão de raça
Deixou de ser um animal
E é um cãozinho de flanela…

… e a menina fútil tem um namorado
e atira-lhe promessas da janela…
Promessas… porque o resto era pecado
E pecar não é com ela…
(Fica sempre na rua, o namorado,
E é tão distante a janela…)

Mas a menina fútil tem um namorado,
Tem um cão com feitio de flanela,
E anda feliz por dar um bodo aos pobres
E ter descido a pôr um avental…

Lê e relê os seus intuitos nobres;
Recorta o seu retrato do jornal;

- e os pobres continuam pobres,
E a menina fútil nunca mais põe avental.

Sidónio Muralha

Sidónio Muralha, nasce em 28 de Junho, na Madragoa, Lisboa. Poeta de intervenção, é publicado no Novo Cancioneiro. Perseguido pela polícia política exila-se voluntáriamente no Congo Belga. Chegou a director geral da Unilever Internacional, chegando a viajar constantemente pelo mundo, ao serviço da empresa. Em 1961 vai para o Brasil, onde fica para sempre.Foi um dos percursores do neo-realismo português com BECO. Publicou 21 livros em prosa e 15 de poesia para crianças. È, aliás, considerado um dos melhores poetas para crianças em língua portuguesa. Faleceu em 8 de Dezembro de 1982, em Curitiba, Brasil.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Boa noite, mestre

Conheci o mestre Jaime Isidoro, no princípio dos anos sessenta do século passado, em casa do seu cunhado Jaime Valverde, o meu primeiro (único?) mestre de teatro. Privei com ele quando por lá aparecia e assistia respeitosamente aos ensaios. Voltei a encontrá-lo com alguma frequência nas segundas-feiras de poesia do Pinguim, normalmente por volta das 2 horas da manhã (pois era um homem da noite), bem comido e melhor bebido. Viveu uma vida (muito) bem vivida. Pintor (gosto especialmente das suas aguarelas), assumidamente do Porto, foi também galerista. Fundou a Galeria Alvarez, a mais antiga do país. Como animador e interventor cultural, criou nos anos 70 passados os Encontros Internacionais de Arte e foi também o pai da Bienal de Vila Nova de Cerveira. Viveu e trabalhou (normalmente à noite) na sua casa/ateliê de Valadares, mais conhecida por Casa da Carruagem. Partiu ontem de madrugada. Como pela madrugada gostava de viver.


PARA FAZER O RETRATO DE UM PÁSSARO

Pinta primeiro uma gaiola
com a porta aberta
pinta a seguir
qualquer coisa bonita
qualquer coisa simples
qualquer coisa bela
qualquer coisa útil
para o pássaro
agora encosta a tela a uma árvore
num jardim
num bosque
ou até numa floresta
esconde-te atrás da árvore
sem dizeres nada
sem te mexeres...
Às vezes o pássaro não demora
mas pode também levar anos
antes que se decida
Não deves desanimar
espera
espera anos se for preciso
a rapidez ou a lentidão da chegada
do pássaro não tem qualquer relação
com o acabamento do quadro
Quando o pássaro chegar
se chegar
mergulha no mais fundo silêncio
espera que o pássaro entre na gaiola
e quando tiver entrado
fecha a porta devagarinho com o pincel
depois
apaga uma a uma todas as grades
com cuidado não vás tocar nalguma das penas
Faz a seguir o retrato da árvore
escolhendo o mais belo dos ramos
para o pássaro
pinta também o verde da folhagem a frescura do vento
a poeira do sol
e o ruído dos bichos entre as ervas no calor do verão
e agora espera que o pássaro se decida a cantar
se o pássaro não cantar
é mau sinal
é sinal que o quadro não presta
mas se cantar é bom sinal
sinal de que podes assinar
então arranca com muito cuidado
uma das penas do pássaro
e escreve o teu nome num canto do quadro

Jacques Prevert
Tradução de Eugénio de Andrade, in "Trocar de Rosa", Edição Fundação Eugénio de Andrade, 5ª edição, Fevereiro 1995.

Jacques Prévert nasceu em 1900 perto de Paris e faleceu em 1977, na Normandia. Foi poeta e argumentista. O seu primeiro livro de poemas, Paroles, teve um sucesso enorme e consagrou-o, pela sua linguagem simples, os seus jogos de palavras e o seu humor. Foi um dos grandes criadores franceses, empenhado no movimento surrealista e também em toda a movimentação artística social e política em redor da Frente Popular. Muitos dos seus poema foram postos em música e cantados por grandes nomes da canção francesa.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

ELES...

Eles não querem ser julgados.Eles julgam. Eles acusam, não querem ser acusados. Eles condenam, não querem ser condenados. Eles são os bons, os outros são os maus. O programa dos outros não presta. Querem o deles, que é excelente, mas nunca o apresentam. Eles querem subir ao topo sem esforço, nunca degrau a degrau. Eles querem chegar todos ao topo. Os outros que se lixem. «Pimenta no .. dos outros é refresco».


A meta deles (delas?) é: 15h30. Eles, são eles, não
são os outros! Políticos? Não! No falar deles, estes (alguns) não são gente séria, eles é que são. Eles são os que dizem "na presente conjectura", quando querem dizer, "na presente conjuntura". E depois ouvimos uma teenager (ou será tineiger?) responder muito candidamente à pergunta. -"Quem foi Catarina Eufémia? - "Foi uma cantora". Culpa deles? Não! Dos outros. Como no poema de Sophia, "Perdoai-lhes Senhor/Porque eles sabem o que fazem
AS PESSOAS SENSÍVEIS

As pessoas sensíveis não são capazes
De matar galinhas
Porém são capazes
de comer galinhas

O dinheiro cheira a pobre e cheira
À roupa do seu corpo
Aquela roupa
Que depois da chuva secou sobre o corpo
~Porque não tinham outra
O dinheiro cheira a pobre e cheira
A roupa
Que depois do suor não foi lavada
Porque não tinham outra

"Ganharás o pão com o suor do teu rosto"
Assim nos foi imposto
E não:
"Com o suor dos outros ganharás o pão."

Ó vendilhões do templo
Ó construtores
Das grandes estátuas balofas e pesadas
Ó cheios de devoção e de proveito

Perdoai-lhes Senhor
Porque eles sabem o que fazem


Sophia de Mello Breyner Andresen, in Livro Sexto




LENGALENGA

são eles são eles
os homens das peles
são eles são eles
sei lá que esquimós
querem-nos as peles
querem-nos a nós
são eles são eles
querem-nos as peles
são filhos do vento
da noite-pavor
e buscam traição
aonde há amor
são eles são eles
morcegos morcegos
batendo na luz
mordendo nos cegos
são eles são eles
os homens das peles
apagando os nomes
no fundo dos pegos
são eles são eles
sei lá que esquimós
querem-nos as peles
querem-nos a nós


Eduardo Olímpio


Eduardo Olímpio, nasceu em Alvalade do Sado em 1933. Como ele próprio se define, foi «experimentador de profissões» durante um período longo de tempo: caixeiro, livreiro e editor e tradutor. Sempre se recusou a exposição mediática. Dono de um humor sadio e sabiamente popular, é um genuíno contador de histórias. A sua escrita essencialmente, ironia, protesto e revolta. Autor, entre outros de Eramos Oito na Pensão Celeste (romance); Moça Querida (c0ntos) e António dos Olhos Tristes (histórias)

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

ÉLIS REGINA
















Foto de Mário Luis Thompson


19 de Janeiro de 1982. Morre aos 36 anos, ÉLIS REGINA, aquela que muitos consideram a maior cantora brasileira de todos os tempos. Com uma técnica invulgar e com uma garra enorme, tinha a perfeição como meta. A sua voz era um autêntico instrumento afinado. Foi um dos expoentes da bossa nova e da MPB. Lançou alguns dos principais compositores brasileiros. Dela pode dizer-se que foi radical e engajada na música, na política e na vida. Era conhecida por Pimentinha, alcunha que certamente viria da expressão que utilizava com frequência, "cara feia para mim é bode... sou mais ardida que pimenta". Disco na vitrola, e vamos ouvi-la.


domingo, 18 de janeiro de 2009

Ary dos Santos

Imagem surripiada a mgbon.blogspot


Foi neste dia há 25 anos. Partiu e como confessou a Joaquim Pessoa, um dia, "Quando eu morrer vai ser em glória. Vai a classe operária toda ao meu funeral e eu, sentado no muro do cemitério a vê-los passar". E foi assim mesmo. Tinha tanto de cabotino como de truculento, mas era de uma coragem invulgar. Para ele "a poesia é, em primeiro lugar, a maneira que eu tenho de falar com o meu povo. Depois, é por causa desse povo, a própria razão da minha vida. É pesquisa, luta, trabalho e força. Ser poeta é escolher as palavras que o povo merece." Dele disse Batista Bastos, no Diário Popular, no dia seguinte à sua morte: "Ary dos Santos foi a cólera, a imprecação, o protesto. Disse português em Portugal e no estrangeiro.Disse que estávamos vivos, que eramos pessoas, que estávamos aqui e aqui continuaríamos. Declamava poemas seus e de outros grandes poetas portugueses em celeiros, estábulos, palanques improvisados, estádios, clubes e colectividades populares." Bebedor inveterado, o gin era a sua companhia. Era o escape para a sua solidão. Apesar de tudo, foi um poeta admirável, dos maiores da língua portuguesa. A sua poesia continua a ser digna de ser dita e cantada



AUTO-RETRATO
Poeta é certo mas de cetineta
fulgurante de mais para alguns olhos
bom artesão na arte da proveta
narciso de lombardas e repolhos.

Cozido à portuguesa mais as carnes
suculentas da auto-importância
com toicinho e talento ambas partes
do meu caldo entornado na infância.

Nos olhos uma folha de hortelã
que é verde como a esperança que amanhã
amanheça de vez a desventura.

Poeta de combate disparate
palavrão de machão no escaparate
porém morrendo aos poucos de ternura.


INFÂNCIA

Não minha mãe. Não era ali que estava.
Talvez noutra gaveta. Noutro quarto.
Talvez dentro de mim que me apertava
contra as paredes do teu sexo-parto

A porta que entretanto atravessava
talhada no teu ventre de alabastro
abria-se fechava dilatava.
Agora sei: dali nunca mais parto.

Não minha mãe. Também não era a sala
nem nenhum dos retratos de família
nem a brisa que a vida já não tem.

Talvez a tua voz que ainda me fala...
... o meu berço enfeitado a buganvília...
Tenho tantas saudades, minha mãe!


PAVANA PARA UMA BURGUESA DEFUNTA


A cabeça de vaca de minha tia mais velha
repousa em guerra lenta no cemitério maior.
Rói-lhe o bicho das contas a fímbria da arelha.
Rói-lhe o rato da raiva asd narinas sem cor.

Repousa em paz Raposa que na toca
fareja a galinhola e o fricassé.
Já não mija mas cheira
já não vive mas ousa
ser a santa que foi ser o estrume que é.

A cabeça de vaca de minha tia refoga
nas lágrimas burguesas da família enlatada
cozinha-lhe a memória um viúvo de toga
descasca-lhe a cebola uma filha frustrada.

A cabeça de vaca de minha tia meneia
o sim-sim o não-não dos outros semivivos
na família a razão de se morrer a meias
é a exalação dos suspiros cativos.

Se não fosse o desgosto se não fosse a gordura
o retrato na sala o buraco no ventre
se não fosse de força tinha feito a escritura
nem sequer houve tempo para o oiro dos dentes.

Minha tia mastiga minha tia castiga
na saleta do inferno as almas dos criados:
-não me limpaste o pó a campa tem urtigas
atrasaste o jantar dos condenados.

A cabeça de vaca de minha tia sem nome
coze no fogo brando do que é passar à história
Dissolve-se na boca resolve-se na fome
do senhor que a devora em sua santa glória.
In José Carlos Ary dos Santos, Obra Poéticca, Edições Avante, 1994

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Acabem com a guerra, porra, II

Não esperava voltar ao assunto. O conflito. Palestino-israelita. Porque continuo a ver e a ouvir muitos entendidos a falar do que não sabem, falam por falar. E porque sobre o conflito, li ontem no JN um artigo de opinião escrito por alguém que sei ser insuspeito. Porque anda para aí muita gente a falar e a escrever sobre o que não sabe. A estes, sobretudo aos que se dizem politicamente de esquerda, aconselho-os a consultar um estudo documentado sobre a Palestina e as suas origens, da Comissão Justiça e Paz, de 2002. Não me consta que esta Comissão seja politicamente de direita. O artigo que li é do jornalista Manuel António Pina, intitula-se "O ladrão e a vinha" e consta da sua coluna de opinião "Por outras palavras". E não me consta que Manuel António Pina seja politicamente de direita. Com a devida vénia ao jornalista, e pedindo-lhe desculpa pela ousadia deste pobre escriba, passo a transcrever:
"A Comissão de Direitos Humanos da ONU condena "firmemente" a agressão israelita em Gaza e exige a "retirada das forças israelitas". A resolução cita 16 vezes Israel e as agressões israelitas contra os direitos humanos do povo palestiniano. Quanto ao Hamas, é como se não existisse; mesmo os "rockets" sobre civis israelitas, citados timidamente uma vez, não têm autor. A sessão foi convocada por Cuba, em nome do Movimento dos Não-Alinhados; Egipto, em nome do Grupo Árabe e Africano; e Paquistão, em nome da Conferência Islâmica, tudo gente respeitadora dos direitos humanos. O Canadá votou contra, e entre outros, abstiveram-se os países da UE, o Japão e a Suíça. A resolução acabou, no entanto, por ser aprovada com os votos dos proponentes e outros países justificadamente conhecidos pelo "firme" respeito que dedicam aos direitos humanos, como Angola, China, Arábia Saudita, Rússia, Indonésia, Jordânia, Gabão ou Azerbeijão. A Human Rights Watch já criticou a decisão, dizendo que, ao focar apenas Israel, A Comissão "destrói a sua credibilidade". É o que acontece quando é o ladrão quem guarda a vinha." Por aqui me fico. E deixo alguns poemas sobre guerra

A BOMBA

O primeiro sopro arrancou-lhe a roupa;
o0 imediato levou também a carne.
Ao longo da rua
durante alguns segundos correu o esqueleto.
Mas a rua já não estava,
estava toda no ar;
de lá caíam bocados de prédios, bocados
de crianças, restos de cadilaques...
O esqueleto não compreendia sozinho
aquela situação:
deixou-se tombar sobre algumas pedras radioactivas
e permitiu na queda o extravio de alguns ossos.

(Caso curioso: o coração
pulsou ainda três ou quatro vezes
entre o gradeamento das costelas.)

Egito Gonçalves

NENHUMA GUERRA É A TUA GUERRA

Nenhuma guerra é a tua guerra,
porque nenhuma guerra tem ou conhece dono,
animal bravio ceifando pétalas
enquanto as estrelas, indefesas,
viram, atónitas, as costas à luz.
A guerra é a nossa doença,
a manhã tempestuosa e ácida
em que tudo definha e morre
por não saber que nome há-de dar à vida.
Nenhuma guerra é a tua guerra
porque tu tens nos cabelos
a breve centelha de lua
que faz do que sonhas
o último domínio que a esperança consente.

José Jorge Letria, in Poemas da Linha da Frente, Editora Ausência, 2003

BALADA INGÉNUA SOBRE AS BOMBAS INTELIGENTES

Se as bombas inteligentes
fossem mesmo inteligentes
não eram bombas.

Eram fraldas descartáveis,
meias de ligas,
sandálias,
cafeteiras, fósforos, colheres,
lenços ao pescoço,
búzios na areia,
lençóis de linho,
livros de poesia,
coisas úteis, verdes, brancas,
coisa de água e vento.

Se as bombas inteligentes
fossem mesmo inteligentes
eram flores,
simplesmente flores,
sem simbolismos nem lirismos,
flores concretas
a tremer no ar tépido da tarde,
flores com abelhas a zumbir à volta,
flores azuis, nascidas da terra,
flores amarelas, roxas, violetas,
margaridas, cravos, miosótis,
rosas repetidas
para além de todas as evidências.

Se as bombas inteligentes
fossem mesmo inteligentes
explodiam ininterruptamente
em cada Primavera
e mesmo que não fosse Primavera
explodiam
pelo simples e desvairado prazer
de lançar em todas as direcções
ogivas carregadas
de brisas cantantes,
águas felizes
e pólen.

José Fanha, in Poemas da Linha da Frente, Editora Ausência, 2003

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

"A poesia tem olhos" é a primeira iniciativa que sob o lema "PARTILHANDO", a Associação de Escritores, Jornalistas e Artistas do Vale do Sousa, vai realizar, depois de alguns anos de inactividade. A nova Direcção, recentemente eleita, presidida pelo actor Fernando Soares, está apostada em trazer a público, com regularidade, eventos de carácter cultural.
A primeira iniciativa "A poesia tem olhos" é já no próximo dia 16 (sexta-feira), e terá lugar na Biblioteca de Paços de Ferreira, pelas 21 horas.
Vai ser um autêntico dois em um, pois o convidado, o psicólogo Luis Fernandes, vai falar da sua vivência profissional e o seu alter ego, o poeta João Habitualmente, da sua poesia. Noite cheia por certo, e o Carantonha Mor lá estará para ler alguns poemas. Carantonhas, enfrentem o frio e apareçam porque a noite promete ser quente. Aqui vos deixo um cheirinho do que pode acontecer:

KodaK

tão sentados que
estamos
aqui na borda da lua

anda jantar comigo
pomos
a vela na mesa

tão bonitos que
ficamos
ri-te p'rá fotografia

e tão inúteis que somos

Drácula Apaixonado

quero o teu
colar
o teu pescoço

o teu arfar

(e quero-te, claro,
a veia jugular)

Pedras III

Há pedras habitadas. Pássaros que não migram
só para não sofrerem a partida

Esperam um ano a fio pelo regresso dos companheiros

Poemas dos livros Os sons parados, edição Pé-de-Cabra, 1995 e Os Animais Antigos, edição Objecto Cardíaco, Janeiro de 2006

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

A neve, meu Deus, a neve


Olha a neve, olha a neve! Ah, que alegria! Hoje, no norte do país foi de facto uma alegria imensa para jovens, adultos, e outros de mais ou menos idade. Aqueles que nunca viram neve rejubilaram porque tiveram neve nos sítios onde habitam e onde não é habitual havê-la. Rejubilaram também aqueles que praí há vinte anos tinham visto cair lá nos seus povos , porque o tempo lhes resolveu pregar uma partidazita, uns interessantes flocozitos de neve. Enfim, rejubilou o norte, e hoje ainda, espera-se que rejubile o centro (Lisboa) pois alguém prometeu que em Lisboa vai cair neve. E então amanhã é que vai ser! Pelo que se vai ver e ouvir nos telejornais, no país não caiu neve, só em Lisboa. Perceberam? Não? Então Carantonhas, Lisboa é o país, o resto é paisagem, carago!
Para ilustrar poeticamente esta mensagem deixo-vos, caros Carantonhas, a Balada da Neve de Augusto Gil.
BALADA DA NEVE
Batem leve, levemente
Como quem chama por mim...
Será chuva? Será gente?
Gente não é certamente
E a chuva não bate assim..
É talvez a ventania;
Mas há pouco, há poucochinho,
Nem uma agulha bulia
Na quieta melancolia
Dos pinheiros do caminho...
Quem bate assim levemente,
Com tão estranha leveza
Que mal se ouve, mal se sente?
Não é chuva, nem é gente,
Nem é vento, com certeza.
Fui ver. A neve caía
Do azul cinzento do céu,
Branca e leve, branca e fria...
- Há quanto tempo a não via!
E que saudade, Deus meu!
Olho-a através da vidraça.
Pôs tudo da cor do linho.
Passa gente, e quando passa,
Os passos imprime e traça
Na brancura do caminho...
Fico olhando esses sinais
Da pobre gente que avança
E noto, por entre os mais,
Os traços miniaturais
Duns pézitos de criança...
E descalcinhos, doridos...
A neve deixa ainda vê-los
Primeiro bem definidos,
- Depois em sulcos compridos,
Porque não podia erguê-los!...
Que quem já é pecador
Sofra tormentos enfim!
Mas as crianças, Senhor,
Porque lhes dais tanta dor?!...
Porque padecem assim?!...
E uma infinita tristeza
Uma funda turbação
Entra em mim, fica em mim presa.
Cai neve na natureza...
- E cai no meu coração.
Augusto César Ferreira Gil, nasceu em Lordelo do Ouro, Porto, e faleceu em Lisboa. Desde muito jovem viveu na Guarda, de onde os seus pais eram naturais. Aí fez fez os estudos primários. Depois em Coimbra formou-se em Direito e exerceu advocacia em Lisboa onde foi Director Geral de Belas Artes. Foi também Governador Civil da Guarda, a "sagrada Beira.
A sua poesia, numa obra extensa, dividida entre a sátira contundente e o puro lirismo, sofre influências do Parnasianisno e do Simbolismo.

Vencido, mas não convencido

E não é que mais uma vez fui vencido?
Se repararem aí em baixo (Acabem com a guerra, porra), Carantonhas que me seguis (será que são realmente só três?), vereis uma amálgama de opinião e poesia. Mas a mensagem não foi estruturada assim. Por sei lá que manigâncias, ó máquina, resolveste que tinha que ser assim e zás, há que contrariar cá o rapaz. Pese embora com algum cepticismo, estou quase tentado a acreditar que tu material (máquina maldita) tens sempre razão. Isto para não dar parte de fraco, pois quem não domina ainda a técnica para te domesticar sou eu. E nem chamando em meu auxílio todos os deuses ex machina, consegui vencer-te. A única coisa que me deixaste corrigir foi um latinório que habita o texto. Mas o que eu não te perdoo é teres transformado, máquina maldita, o poema do Manuel Alegre, um soneto latino, em soneto inglês.
Para ti, máquina, um poema de J.C.Ary dos Santos.
Agora vê lá o que fazes. Porta-te bem, senão despeço-te!

P.S.- Reparaste, máquina maldita, na fotografia, o pormenor do cãozinho no bornal do soldado?


O OBJECTO

Há que dizer-se das coisas
o somenos que elas são.
Se for um copo é um copo
se for um cão é um cão.
Mas quando o copo se parte
e quando o cão faz ão ão?
Então o copo é um caco
e um cão não passa de um cão.

Quatro cacos são um copo
quatro latidos um cão.
Mas se forem de vidraça
e logo forem janela?
Mas s e forem de pirraça
e logo forem cadela?

E se o copo for rachado?
E se o cão não tiver dono?
Não é um copo é um gato
não é um cão é um chato
que nos interrompe o sono.

E se o chato não for chato
e apenas cão sem coleira?
E se o copo for de sopa?
Não é um copo é um prato
não é um cão é literato
que anda sem eira nem beira
e não ganha para a roupa.

E se o prato for de merda
e o literato for da esquerda?
Parte-se o prato que é caco
mata-se o vate que é cão
e escreveremos então
parte prato sape gato
vai-te vate foge cão

Assim se chamam as coisas
pelos nomes que elas são.

José Carlos Ary dos Santos, in Obra Poética, Edições Avante, Lisboa, Março de 1994

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Acabem com a guerra, porra


Gostava de deixar aqui, não uma opinião, mas uma reflexão sobre o terrível conflito israelo-palestino ou palestino-israelita (e aqui a ordem dos factores não é arbitrária), mas não vou fazê-lo, pois temo correr o risco de repetir- e portanto tornar-me igual- o que tantos plumitivos, políticos, fazedores de opinião, senhores da guerra (pois também os há, ainda que não directamente metidos nela, antes interessados) já disseram. Que todos estes senhores se lembrem que numa guerra há sempre, pelo menos, dois opositores, e que ambos terão as suas razões. E como estou convencido que todos eles conhecerão a génese do território e do conflito, atrevo-me a perguntar quais os motivos que levam estes senhores acima citados, a tomar partido por um dos lados? Interesses, of course. Pela minha parte, embora tenha opinião sobre o conflito, não gostaria de tomar partido, uma vez que estou envolvido num conflito pessoal. Que é o de que, paradoxalmente, tomo o partido dos dois lados, uma vez que, embora não seja pacifista fundamentalista (não sou dos que dão facilmente a outra face), sou visceralmente contra a guerra, e o meu desejo é que os dois lados se entendam depressa, uma vez que inevitavelmente terão ad aeternum, de viver lado a lado. É então necessário que os senhores que governam o mundo instável em que vivemos, se mobilizem e desinteressadamente dêem as mãos aos dois lados. Assim seja. Este pobre escrito, em que afinal deixei uma tímida opinião, é o pretexto para deixar também dois belos poemas.
A GUERRA
Num ano qualquer,
houve uma batalha qualquer,
numa terra qualquer,
entre um rei qualquer
e outro rei qualquer.
No fim, um anjo qualquer
desceu no campo de batalha,
pegou nos cadáveres do rei qualquer
e do rei qualquer
e perguntou
para um deus qualquer:
_ Qual quer?
Poema de CARLOS PINHÃO, mais conhecido como jornalista desportivo, mas que foi também um excelente escritor e poeta, especialmente com obras para crianças
AS MÃOS
Com mãos se faz a paz se faz a guerra.
Com mãos tudo se faz e se desfaz.
Com mãos se faz o poema - e são de terra.
Com mãos se faz a guerra - e são a paz.
Com mãos se rasga ao mar. Com mãos se lavra.
Não são de pedras estas casas mas
de mãos. E estão no fruto e na palavra
as mãos que são o canto e são as armas.
E cravam-se no Tempo como farpas
as mãos que vês nas coisas transformadas.
Folhas que vão no vento: verdes harpas.
De mãos é cada flor cada cidade.
Ninguém pode vencer estas espadas:
nas tuas mãos começa a liberdade.
Poema de Manuel Alegre in O Canto e as Armas (1967), edição do autor (Poesia Nosso Tempo), Maio de 1970

sábado, 3 de janeiro de 2009

Comunicação de ANO NOVO aos CARANTONHAS

Carantonhas,
Já cá temos 2009, mais um ano a cumprir. Usual, habitual, trivial, tradicional, são adjectivantes que usamos para caracterizar as três palavras que mais se ouvem quando perguntamos a alguém quais os seus desejos para o ano que vai começar: saúde, dinheiro e amor. Mas, Carantonhas, desejos não são realidades, e o que desejamos não nos cai do céu aos trambolhões, nem por obra e graça do Espírito Santo, está tão só nas nossas mãos. O desejo tornar-se-à realidade se batalharmos por isso, se fizermos por merecer o que perseguimos, para podermos estar perto da felicidade. Vejamos a saúde. Depende do nosso estilo de vida. Só nos acompanhará se soubermos tratar equilibradamente do corpo (alimentação, etc.) e do espírito.
O amor conquista-se, faz-se por merecê-lo, e conserva-se. Se o conseguirmos, mais uma etapa estará vencida.
O dinheiro é o factor que não depende só de nós, porque aqui entra o emprego. Mas o emprego também se conquista, pois a sorte também se constrói. Para isso há que consolidar conhecimentos, educação, ser empenhado, imaginativo , persistente, e fazê-lo em permanência. Se conseguimos optimizar todos estes factores, então sim, poderemos desejar para um ano feliz, saúde, dinheiro e amor.
E para não fugir à regra, para os meus 3 (três) habituais leitores, desejo SAÚDE, DINHEIRO e AMOR. Pela minha parte, os meus desejos pessoais, são fazer o possível para trazer aqui com mais frequência, a poesia e mais coisas sobre teatro, os dois objectivos principais da criação do blog. BOM 2009.