Segunda-feira, 5 de Março de 2012

Corrigir a nossa História?

Há dias, o jornalista Manuel António Pina, na sua crónica diária no JN, esta com o título “Apague-se a História”, contava-nos que um procurador brasileiro quer que seja retirada do Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, a notação “cigano” no seu sentido pejorativo: “que, ou aquele que trapaceia, velhaco, burlador”. Diz o procurador “por semear a intolerância étnica”. Diz-nos MAP que “é o método de recalcamento típico das hordas do política e linguisticamente correcto: matar o mensageiro quando ele dá notícia de acontecimentos que… não deveriam ter acontecido”. E então teria que chegar a vez dos dicionários, “enquanto não chega a descafeinização das línguas de todos os usos e sentidos preconceituosos que nelas se foram acumulando ao longo dos séculos”.
“A língua portuguesa, por exemplo, seria limpa do uso de “judeu” ou “escocês” no sentido de avarento, “judiarias” no sentido de maldades, ou ainda expressões como “trabalhar como um negro”, “trabalhar como um mouro”, “trabalhar como um galego”, “gozar como um preto”, etc…Isto é, seria limpar da sua História. E, já agora, porque não limpar a própria História dos factos feios e deixar só os bonitos e “correctos”?”
É aqui que estou em desacordo com MAP, pelo menos no que à nossa História diz respeito. Que em inúmeros factos e fastos está cheia de inexactidões, criadas no tempo dos quarenta e tal ano de obscurantismo que nos governou. Era preciso mostrar ao mundo que na nossa História não havia misérias, só grandezas. E então havia que “dourar” as histórias. Querem factos? Dois ou três. Temos aquela “santa” rainha que enquanto o seu marido-rei se dedicava a escrever cantigas de amigo “ai deus i u é”, dava umas escapadelas até junto do(s) escudeiro(s) para que este(s) a ajudassem na colheita das rosas. Ou então aquele nobre aio que de corda ao pescoço, se foi entregar, com a família, ao rei de Leão. A história não nos diz porquê. Mas nós sabemos. Ou a daquele outro “santo” que rezava, “borrado de medo”, atrás de um penedo enquanto a batalha decorria. Como estes, há muitos outros factos “adocicados” na nossa História. Seria bom que a História fosse refeita. Eu sei, eu sei, a confusão que isso iria causar! Fora isto, que nos valha São Pancrácio ou então Nossa Senhora das Coisas Impossíveis.

Domingo, 4 de Março de 2012

Deus(es)

Desde sempre o Homem se interrogou sobre a sua origem, sempre pensou que havia “algo”, “uma força”, “um ser superior” que o havia criado, que justificasse a sua existência. E então criou ele próprio, não uma, mas várias imagens de seres que justificassem as suas emoções, os seus sentimentos, as suas grandezas e as suas misérias, mas também a existência de tudo o que o rodeava. E assim nasceram os deuses Havia deuses para tudo. Que foram colocados no lugar ideal, o Olimpo Com o correr do tempo o Homem foi evoluindo e entendeu que era uma chatice pedir contas ou explicar-se perante tantos deuses. Achou que era uma trabalheira. E então pensou, pensou, e reuniu-os todos num só, que tivesse o poder de todos os outros que já existiam, e criou-O. Deu existência ao Ser Supremo, ao Todo Poderoso, um ser omnipresente (que tem o dom da ubiquidade), omnipotente (que tem todo o poder) e omnisciente (que tudo sabe). E chamou-lhe Deus e colocou-O no céu. E delegou Nele a responsabilidade de tudo. Até do caos que é o mundo actual. Ou não tivesse sido Ele o criador de Babel. Em suma, de vez em quando é preciso perdir-Lhe responsabilidades, Mas…


Responsabilidades

Gostava de deitar Deus no meu colo
e dar-lhe uns açoites no rabo.
Deus é uma criança malcriada.
Uma criança caprichosa que tem mais brinquedos
do que aqueles que pode usar.
Nós  somos apenas bonecos abandonados
aos quais o dono arrancou os braços.
Um jogo de estratégia em que as baixas não contam.

Gostava de pôr Deus de joelhos, virado para a parede,
pôr-lhe umas grandes orelhas de burro,
mandá-lo para a cama sem jantar,
obrigá-lo a escrever um milhão de vezes:
Tenho de ser responsável,
tenho de acabar os trabalhos.
Infelizmente Deus é apenas uma criança malcriada,
não se lhe podem pedir responsabilidades.
Deveria castigar-se era os pais,
os que o criaram

Jorge Espina
(A tradução é minha)

Quinta-feira, 23 de Fevereiro de 2012

Lembrar Josè Afonso

25 anos é muito tempo? Para algumas coisas parece que foi ontem. Para outras, se a lei do esquecimento não as varrer da memória, um quarto de século é já a saudade que nos morde. No caso de Zeca Afonso, o maior cantor de intervenção português, que nos deixou num  23 de Fevereiro de há 25 anos, é (foi) a memória colectiva que ficou(a) mais pobre. O Zeca foi um prolífico autor de canções, que musicou. Mas para alé disso escreveu muitos poemas que não musicou. Escreveu e musicou também poemas para peças de teatro da Barraca.
Aqui fica o registo de dois dos poemas não musicados:

«VENÂNCIO ERA COELHO»

Venâncio era coelho
Numa outra geração
Transmigrava de noite
De dia sucumbia
Quatro coisas Venâncio
Adorava fazer
Ver, comer, rogar pragas
Cortar as patas às moscas
Viaja sempre
Com apelidos falsos
Não declara
A bagagem que leva
Diz-se ministro
Papa
Boletineiro
Tem um metro e setenta
Não se importa
Que lhe mijem em cima

Atenção é vampiro

A PALAVRA

A palavra gatinha
Sem nada por cima
A palavra rompe
                              investe
                                          perfura
Comprida a palavra perde-se
Em redor da mesa reveste-se organiza-se

A palavra precisa de ternura

 O poema Epígrafe para a Arte de furtar, cantado pelo Zeca, é de Jorge de Sena.

Domingo, 29 de Janeiro de 2012

Silêncio e tanta gente

"Silêncio e tanta gente" é, quanto a mim, uma das melhores canções da música portuguesa, pelo poema, porque de um poema se trata, e pela orquestração. Parece-me uma boa saída de domingo~e uma excelente preparação par o dia de trabalho de amanhã. Bom resto de domingo.

Ai as crianças

"Eles podem contar tudo o que querem de nós, a quem querem. Mesmo à nossa frente.
Nós, se dissermos alguma coisa é logo castigo"
In "Livro de reclamações das crianças" de Eduardo Sá

E depois digam que elas não avisam.
Fiquem-se com um texto poético de Gabriela Moura

RAIO DE MANIA

Era uma vez…

Começavam sempre assim as histórias que me contavam em criança.
De encantar, diziam…

- Bruxa gigante lobo mau e papão
- Caçador jogador e muito vilão.
De história em história, fui sentindo que me tinham andado a enganar quando descobri que no fim, quem comia sempre a princesa, era afinal o príncipe encantado, que ainda por cima lhe fazia muitos meninos e, além disso, também cedo percebi que afinal, nem sequer existia o bondoso pai natal!

Porque raio passamos a vida a enganar as criancinhas?



Terça-feira, 24 de Janeiro de 2012

De volta

De volta, num novo ano a dar os primeiros passos,  ao convívio dos poucos carantonhas que habitualmente me seguem. E nada melhor do que começar falando de poesia. Fiquem então com o


MISTÉRIO DA POESIA

O poeta brasileiro, Mário Quintana, disse um dia que “fazer versos é fácil, escrever poesia é que é difícil”. Será então que o acto poético é fruto de algum mistério? António Gedeão, apesar de nos dizer que “todo o tempo é tempo de poesia”, terá julgado que sim, uma vez que termina o seu poema “Enquanto” com o verso ABAIXO O MISTÉRIO DA POESIA”. Mas isto serão os adultos/poetas a pensar, porque “as crianças, Senhor” não pensam do mesmo jeito. Vejamos o que nos diz a Maria Carlota, de 7 anos: “fazer versos é só imaginar coisas bonitas e já está”. Talvez seja por isso que Portugal é um país de poetas. Senão vejamos, como escreve o João Nuno, arcozelense de 9 anos:

Chamo-me João Nuno.
Poetas há milhões
Mas igual a mim
Só o Luís de Camões.

 Retirando algum exagero ao exagerado (passe o pleonasmo) entusiasmo do João Nuno, que hoje será um jovem entre os vinte e os trinta anos, e talvez, quem sabe, poeta, eu, como Fernando Pessoa, direi que sim, “o melhor do mundo são as crianças”. Quem como elas tem sensibilidade para nos dizerem coisas tão bonitas (que farão roer de inveja alguns poetas da nossa praça, pelo menos os que escrevem versos e não poemas), como “a poesia é feita aos molhinhos/ou em verso”. Ou ainda, “se eu não existisse ficava triste”. E esta pequena pérola, com que, como recompensa do amor de uma mãe, a sua filha de 7 anos, demonstra o seu amor de filha: “a minha mãe é um amor/que caiu do céu”. E nada melhor para terminar, do que este verso de uma Maria João, de 4 anos: “rimar é parecer”. E assim, pela boca das crianças, se define a poesia.

Sexta-feira, 30 de Dezembro de 2011

Há gajas ou não há gajas?


Este ano de 2011 está quase quase a acabar. Se estendermos o nosso braço, a mão já quase consegue agarrar o 2012. Posto isto, pareceu-me bem, trazer até aqui uma pequena história com um ligeiro toque de brejeirice. Preparem-se, carantonhas, para ler a história da reunião magna na selva para anunciar o programa das festas comemorativas do aniversário do Rei Leão. E para vos saber melhor podem ouvir, do Carnaval dos Animais, do compositor francês Camille Saint-Sans a introdução e marcha do rei Leão. Não será a interpretação com mais pompa, mas é de certeza uma das mais curiosas.
Vamos então à história.

LEÃO (dirigindo-se à assembleia) Bem, meus amigos, as festas vão durar três dias, e no primeiro dia vamos ter exercícios de trapézio por uma parelha de macacos vindos expressamente de...

SAPO (interrompendo, do fundo da sala) Então...e gajas? Há gajas ou não há gajas?...

LEÃO (ainda mal refeito da ousadia do batráquio) Bem... E como eu ia a dizer, vamos ter um segundo dia bastante animado com cobras, tigres, elefantes e...

SAPO (interrompendo, de novo, com determinação) Mas o que é que essa merda interessa? Gajas é que conta. Há gajas ou não há gajas?

LEÃO (já completamente lixado, com f) Bem... o terceiro dia será uma grande apoteose, com banquete, orquestra e fogo de artifício.

SAPO (ainda mais inquisidor) Então... mas só isso? Não ouvi falar em gajas! Há gajas ou não há gajas?

LEÃO (prestes a saltar) Bom...obrigado por terem vindo. Está encerrada a sessão. Podem sair todos, com excepção daquela coisa verde e rastejante que está lá atrás, e vai ficar feita em merda!

SAPO (desafiando completamente a autoridade da monarca) Daasss pá!!! Deixa lá a merda do crocodilo! Há gajas ou não há gajas?
  
Depois da história que, espero, vos tenha feito pelo menos sorrir, aconselho a que ouçam o Carnaval dos Animais, completo.