quinta-feira, 31 de março de 2011

Saravah Joaquim



Ontem, no bar Labirinto, na sessão habitual Poémia (poesia + boémia), foi dia de recordar. Por iniciativa do João Habitualmente, fomos recordar e conviver com a poesia do nosso amigo Joaquim Castro Caldas, que faria 55 anos se ainda estivesse entre nós. A cultura e a poesia portuguesa, perderam vai fazer três anos, o "interprete da vontade do pássaro", como ele gostava de se chamar. Senhor de uma vasta cultura, uma imaginação desbordante, e de uma invulgar capacidade de improviso, foi bom recordá-lo nos seus escritos, nos seus desvarios, na sua loucura, na sua irreverência, e nas histórias vividas por ele e com ele. Dos que mais apoio lhe deram, faltaram alguns, ou por ter sido impossível contactá-los, ou por viverem longe.
Fizeram falta o Paulo Campos dos Reis, o Francisco Gonçalves, o Zé João Sardinha, o João Rios, o Dinis Cayolla. Mas o Joaquim teve a lembrá-lo e a conviver com ele (na sua poesia e nos seus textos), este vosso amigo carantonha, o Isaque Ferreira, o Rui Spranger, o Daniel Maia-Pinto e o organizador João Habitualmente. Foi uma noite para relembrar e para ficar na memória de todos os que estiveram ontem no Labirinto. E nós, amigos do Joaquim, ficámos com a certeza de que lá no "assento etéreo" onde estará, ele gostou. Saravah, Joaquim.

Para quem não conheceu o Joaquim ("muita estrada no coração, na cabeça e no corpo", como ele gostava de dizer de si) aqui fica um dos seus auto-retratos, in "Só cá vim ver o sol"

MENDIGO

na rua não dou a quem pede
o que pede. só dou à forma
como pede. no amor só dou
o que o amor me pede. não
dou à forma como pede.
e à vida peço me dê leve
aquilo que ninguém pede.

Com Barcelos à vista - Viatodos

Na sexta-feira da passada semana, alguns dos elementos da "Onda Poética", eu incluído, estiveram pela noite dentro na EB 2/3 de Viatodos-Barcelos, numa acção de sensibilização para a poesia. O ondeante-chefe, já que a sessão se iria realizar numa escola, escolheu, com o acordo dos restantes, poemas que abordassem a matemática.
Como a sessão foi à noite, foi mais dirigida a professores e pais de alunos, e não menos despiciendo, à população em geral. Fomos muito bem recebidos por um público participativo quando solicitado, e no final, nas conversas informais que sempre há, felicitados pelo desempenho do grupo. Convém referir que o grupo não faz ensaios prévios, sabendo com antecedência os poemas que a cada um cabem, só se junta no dia das actuações. No final fomos presenteados com o tradicional galo de Barcelos, aqui nas mãos do Anthero Monteiro. Na fotografia só falta a anaas, porque além de "diseuse" (excelente) e poetisa, é também a fotografa do grupo. Agora esperam-nos outras escolas, pois em Viatodos, foram feitos alguns contactos. Será interessante referir que alguns de nós, individualmente, já nos deslocamos com alguma frequência a escolas.
Nota: Esta notícia só agora é publicada porque durante alguns dias o sistema (até aqui o raio do sistema está presente) não deixava publicar a fotografia.

terça-feira, 29 de março de 2011

Como disse?

Significado de "falta de vergonha" em Portugal: os políticos.
Disse, e saiu pela porta do fundo.

segunda-feira, 28 de março de 2011

Estar vivo

Cantarolar pela rua  Assobiar
de mãos nos bolsos como quem tem dez anos ou cinquenta
Ter aberto um jornal que não se lê
Interromper sem razão uma conversa
Voltar ou não voltar e afinal voltar
Contagiar desta alegria toda até aqui submersa
os que não sabem nada disto ou disto riem
e só de ver sorrir assim também sorriem
confusamente sem saber porquê

Isto é estar vivo é bom e não se explica
nem inventa

Poema de Mário Dionísio

Mário Dionísio, professor e critico de arte. Foi poeta, ficcionista, ensaísta (um dos mais importantes teorizadores do neo-realismo, exerceu a sua actividade crítica , quer no domínio da criação literária, quer no das artes plásticas) e pintor. Poeta ligado ao Novo Cancioneiro destacou-se pelo carácter combativo da sua lírica.

quinta-feira, 24 de março de 2011

E agora? Que Sociedade queremos ter?

Depois de ter visto hoje, na televisão, um programa sobre "os novos pobres" portugueses (gente que tinha empregos estáveis e de um dia para o outro se viu no desemprego e sem meios de subsistência); depois de ter assistido ontem, pela televisão, ao espectáculo deplorável dado pelos políticos na Assembleia, na reprovação do PEC, e depois, dos seus comentários; depois de ver..., bem fiquemos por aqui...!, achei por bem trazer aqui um poema absolutamente actual, um retrato escrito pelo meu amigo, e poeta, Fernando Campos de Castro.

INSTANTÂNEO

Chegou-se:
vinha andrajoso
mais parecia um cão tinhoso
do que um pedaço de gente

Olhou-me então bem de frente
dizendo compenetrado:

- Miséria e solidão
é isto que um velho herda 
Sabe uma coisa senhor:
- Este País é uma merda

"Ver" poesia de forma diferente


Mário Dionísio disse num seu poema que " a poesia não está nas olheiras imorais de Ofélia/nem no jardim dos lilases./A poesia está na vida./Nas artérias imensas cheias de gente em todos os sentidos,(...) nas máquinas da fábrica/A poesia está no grito do rapaz apregoando jornais,/no vai-vem de  milhões de pessoas(..,.) Está no riso da loira da tabacaria (...) A poesia está na lutados homens,/está nos olhos abertos rasgados para amanhã."

Hoje vou deixar-vos com duas outras formas diferentes de "olhar" a poesia. Aí em cima o poema "Gacela del amor desesperado" de Federico Garcia Lorca, na voz de Amancio Prada.
Aqui em baixo o violinista. (fotografia captada por mim, na Rua de Santa Catarina, poiso habitual de artistas como este. Esta marioneta era manipulada por um simpático ancião - suponho que inglês. Actualmente quem a trabalha é um jovem português. O porquê da mudança não o sei - não tive ocasião de averiguar).
Portanto, caros carantonhas, apreciem as duas maneiras diferentes de ver a poesia.

quarta-feira, 23 de março de 2011

Uma história roubada

A história que, caros carantonhas, ireis ler, foi "roubada" há algum tempo e guardada para um qualquer momento em que não me apetecesse escrever. A sua autora é educadora de infância, e pelo que leio traz os seus meninos sempre com ela, guardados no coração, e vive no blog Búzio do Vento. Ah, e gosta muito de mar e é do Porto.Aí fica, com o meu obrigado, a história, sensível, comovente e ternurenta, como deve ser a Teresa.

Uma história de mar com asas

"Era uma praia. Pequena, com mar, gaivotas, areia, conchinhas na beirada… Até aqui a praia parecia não ter nada de especial, afinal todas as praias que conheço são assim. Mas esta garanto é a praia mais especial que conheço, vejo-a da minha varanda e sei tudo o que lá se passa. Bom, quase tudo…
Na minha praia, já sei, a praia não é só minha, mas eu gosto de chamá-la assim. Pensando bem, a varanda virada para a praia também não é só minha, mas talvez ela seja mais minha porque passo lá tempos infinitos a descobrir coisas nas coisas. É uma mania minha, e nisto de manias cada um tem as suas.
E foi da minha varanda que dá para a praia que fiquei a saber da história de uma gaivota e de um menino.
A gaivota vivia na praia. O menino vivia longe daquela praia, mas vá-se lá saber porquê um dia veio ver o mar e gostou tanto da praia que sempre que podia voltava. Já sei, o mar e a praia são iguais em todos os sítios do planeta, mas o menino também gostava mais daquele mar, do meu.
Um dia, estava o menino deitado na areia a ouvir o mar, quando lhe cai um pauzinho de madeira mesmo em cima do nariz! O menino levantou – se e deu de caras com o bico de uma gaivota. Nada assustado olhou-a bem, era uma gaivota muito branca com listinhas castanhas nas asas. Sem saber muito bem porquê o menino gostou da gaivota e a gaivota achou o menino tão especial que não foi nada difícil ficarem amigos. Eu não sei se as gaivotas falam a linguagem dos humanos, mas sei que há humanos que entendem as gaivotas. E eu juro que os ouvia a conversar e a rir, pareciam tão felizes! Contavam histórias um ao outro, voavam juntos, outras vezes ficavam ali a flutuar no imenso azul do mar ou a erguer sonhos na areia…
Depois o menino regressava à terra dos homens. Quando ele partia a gaivota ficava na areia sonhando-o e desejando que regressasse rápido.
E quando o menino voltava de novo à praia o coraçãozinho da gaivota ficava tão feliz e tremia tanto, que nem conseguia bater as asas direito.
O menino não vem à praia há algum tempo. Como sei? Vejo a gaivota sozinha na praia. Há dias até lhe vi nos olhos uma lagrimazinha de saudade, mas sei que vai esperar pelo menino mesmo que ele já não venha".

Esta história bonita leva-me a recomendar, a graúdos e miúdos, a leitura do conto A Menina do Mar, de Sophia de Mello Breyner Andresen

segunda-feira, 21 de março de 2011

Dia Mundial da Poesia

Hoje tinha mesmo que vir aqui. Embora a disposição ainda não seja a melhor, tinha que estar aqui. Porque hoje começou a Primavera, também chamada a estação das flores, a estação em que a natureza começa a mostrar todo o seu viço. E porque hoje se comemora o Dias Mundial da Poesia. No que respeita à Primavera, nada melhor do que deixar aqui um poema de Eugénio de Andrade, um dos poetas que mais amou e cantou o seu convívio com a Natureza.

ANUNCIAÇÃO DA PRIMAVERA

Não sei de onde vem esta bruma,
se dos meus olhos, se
do rio. Um sol frouxo, próprio

das manhãs de domingo, escurecia
o vermelho, o amarelo das casas.
Dentro de mim, a musical

floração das cerejeiras havia começado.
Noutro lugar, noutro dia.
De repente, um pássaro inesperado

começou a cantar num ramo
que não havia, sobe a prumo no céu
onde a manhã total principia.

No respeitante à poesia, apesar de ser voz corrente que Portugal é um país de poetas, o que eventualmente pode ser verdade, não deixarei de mencionar o que dizia o poeta brasileiro Mário Quintana:" escrever versos é fácil; escrever poesia é que é dificil". Cantemos então louvores à poesia, aos bons poetas quer sejam portugueses quer sejam estrangeiros, Boa poesia é do que precisamos, e também da sua rebeldia,  da sua atitude provocatória, da sua liberdade.
Mais um poema de Eugénio de Andrade:

A POESIA NÃO VAI

A poesia não vai à missa,
não obedece ao sino da paróquia,
prefere atiçar os seus cães
às pernas de deus e dos cobradores
de impostos.
Língua de fogo do não,
caminho estreito
e surdo da abdicação, a poesia
é uma espécie de animal
no escuro recusando a mão
que o chama.
Animal solitário,
às vezesirónico,
às vezes amável,
quase sempre paciente e sem piedade.
A poesia adora
andar descalça nas areias do verão.

Um bom resto de noite, e que a Primavera nos seja favorável.