domingo, 14 de dezembro de 2008

Este é o Nico

Depois de ter escrito o post aí em baixo, resolvi, como faço de vez em quando, revisitar a poesia de Eugénio de Andrade, um dos poetas de que mais gosto, embora não me entusiasmem particularmente os seus últimos livros. De qualquer modo, é sempre bom refrescar a memória com boa poesia. Para escrever este post tive que ter a aquiescência do Nico (o meu gato) que teimava em ter a sua lição habitual de escrita. Anda a aprender a teclar.liyg78u64767 cv6988n0’ 8ui nbfffhnbhdfngdçlhjiuyc675z5432w. Como podem ver, não minto. Autorização concedida, e para agradecer a boa vontade do Nico, achei por bem deixar-vos aqui um poema do Eugénio, no qual nos fala de alguns dos seus gatos.

ACERCA DE GATOS

Em Abril chegam os gatos: à frente
o mais antigo, eu tinha
dez anos ou nem isso,
um pequeno tigre que nunca se habituou
às areias do caixote, mas foi quem
primeiro me tomou o coração de assalto.
Veio depois, já em Coimbra, uma gata
que não parava em casa: fornicava
e paria no punhal, não lhe tive,
afeição que durasse, nem ela a merecia,
de tão puta. Só muitos anos
depois entrou em casa, para ser
senhor dela, o pequeno persa
azul. A beleza vira-nos a alma
do avesso e vai-se embora.
Por isso, quem me lambe a ferida
aberta que me deixou a sua morte
é agora uma gatita rafeira e negra
com três ou quatro borradelas de cal
na barriga. É ao sol dos seus olhos
que talvez aqueça as mãos, e partilhe
a leitura do Público ao domingo.

O persa azul de que se fala neste poema chamou-se Micky e foi-lhe oferecido num dia de anos, por quem sabia da sua afeição por gatos. Dele disse Eugénio: «o meu amor por esta alminha era materno». E continuou:«Que um homem assumisse poeticamente a maternidade não poderia causar estranheza mas que tratasse por “alminha” o seu gato era coisa de que só o diabo se lembraria». Um dia Micky adoeceu com cálculos renais, doença comum nos gatos persas, e não foi possível salvá-lo.
Diz-nos a terminar, o poeta: “E lembro-me bem da nossa despedida, o oiro dos olhos embaciado.
Eu sempre soubera que a beleza era o que havia de mais frágil sobre a terra”.
Poema in O Sal da Língua. Prosa sobre o persa in Rente ao Chão

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Palavras


Hoje tinha pensado falar de palavras. Aqui chegado, e a esta hora, verifico que estou "seco". Nem a imaginação nem as palavras me surgem. E porque não quero maltratá-las, pois como diz Eugénio de Andrade, "são como um cristal as palavras", vou deixar que falem por mim a fotografia acima e o próprio Eugénio.

LUME DE INVERNO

O lume. O lume rasteiro. O lume
ainda. Vem de tão longe. Da casa
térrea sobre a eira,
casa onde qualquer coisa pequena
pulsava.: um coração,
a água do cântaro,
o trigo a crescer.
Era tão pequeno que não sabia
como pedir uma laranja,
um pouco de pão.
Menos ainda, um beijo.
Parecia só saber
estender as mãos para aquele sol
rasteiro e para o olhar
que dos sortilégios do lume
o defendia
.

Eugénio de Andrade- In Os Sulcos da Sede - Editora Fundação Eugénio de Andrade

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Dia da Mãe

Sabe-se que as mais antigas comemorações do dia da Mãe tiveram origem na antiga Grécia em honra de Rhea, mulher de Cronos e mãe dos deuses, e depois em Roma em honra de Cybeles, mãe dos deuses. Tal como hoje se conhecem, as comemorações tiveram origem nos EEUU, onde a ideia partiu de Ana Jarvis que em 1904, aquando da morte de sua mãe, chamou a atenção para a criação de um dia especialmente dedicado às mães. Três anos depois, a 10 de Maio, foi celebrado o primeiro dia da Mãe na igreja de Grafton, e começou a campanha para um dia da mãe a nível nacional. Foi tal o êxito, que o Presidente Woodrow Wilson declarou oficialmente o 2º domingo de Maio como o Dia da Mãe. O acontecimento alargou-se a outros países, e hoje em dia, quase todo o mundo celebra o Dia da Mãe, embora em datas diferentes. Em Portugal, depois de muitos anos a ser celebrado a 8 de Dezembro, passou a ter como dia o 1º domingo de Maio.
Para mim o Dia da Mãe continua a ser o dia 8 de Dezembro. Por isso aqui vos deixo um texto poético e dois poemas.

Mãe!
vem ouvir a minha cabeça a contar histórias ricas que ainda não viajei! Traze tinta encarnada para escrever estas coisas! Tinta cor de sangue, sangue! verdadeiro, encarnado!
Mãe! passa a tua mão pela minha cabeça!
Eu ainda não fiz viagens e a minha cabeça não se lembra senão de viagens! Eu vou viajar. Tenho sede! Eu prometo saber viajar.

Quando voltar é para subir os degraus da tua casa, um por um. Eu vou aprender de cor os degraus da nossa casa. Depois venho sentar-me a teu lado. Tu a coseres e eu a contar-te as minhas viagens, aquelas que eu viajei, tão parecidas com as que não viajei, escritas ambas com as mesmas palavras.
Mãe! ata as tuas mãos às minhas e dá um nó-cego muito apertado! Eu quero ser qualquer coisa da nossa casa. Como a mesa. Eu também quero ter um feitio, um feitio que sirva exactamente para a nossa casa, como a mesa.

Mãe! passa a tua mão pela minha cabeça!
Quando passas a tua mão na minha cabeça é tudo tão verdade!

José de Almada Negreiros, Obras Completas – Poesia,
Editorial Estampa, Agosto de 1971


PARA SEMPRE

Porque Deus permite
que as mães vão-se embora?
Mãe não tem limite,
é tempo sem hora,
luz que não apaga
quando sopra o vento
e chuva desaba,
veludo escondido
na pele enrugada,
água puro, ar puro,
puro pensamento.
Morrer acontece
com o que é breve e passa
sem deixar vestígio.
Mãe, na sua graça,
é eternidade.
Porque Deus se lembra
- mistério profundo –
de tirá-la um dia?
Fosse eu Rei do Mundo,
baixava uma lei:
Mãe não morre nunca,
mãe ficará sempre
junto do seu filho
e ele, velho embora,
será pequenino
feito grão de milho.

Carlos Drummond de Andrade


MINHA MÃE QUE NÃO TENHO

Minha mãe que não tenho meu lençol
de linho de carinho de distância
água memória viva do retrato
que às vezes mata a sede da infância

Ai água que não bebo em vez do fel
que a pouco e pouco me atormenta a língua.
ai fonte que eu não oiço ai mãe ai mel
da flor do campo que me traz à míngua

De que Egito vieste? De qual Ganges?
De qual pai tão distante me pariste
minha mãe minha dívida de sangue
minha razão de ser violento e triste.

Minha mãe que não tenho minha força
sumo da fúria que fechei por dentro
serás sibila virgem buda corça
ou apenas um mundo em que não entro?

Minha mãe que não tenho inventa-me primeiro:
contrói a casa a lenha e o jardim
e deixa que o teu fumo que o teu cheiro
te façam conceber dentro de mim.

José Carlos Ary dos Santos
In Obra Poética - Edições Avante - 1994

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Cuidado com a língua...

Porra, um destes dias vou mesmo exercer o meu direito à indignação. Eu, que quando garoto me (não) fartei de levar réguadas aplicadas pela minha mãezinha (obrigado Mãe) por, a pensar na brincadeira com os meus amigos, dar muitos erros nas cópias que ela me mandava fazer. Eu, que conforme ia ganhando consciência de que as réguadas eram cada vez menos, quanto menos erros eu desse. Eu, que por isso, passei a saber quanto valem as palavras, me custa ouvir os "bem falantes" (ex: ministros, professores, jornalistas, etc.), aqueles que têm obrigação de ser exemplo para todos, dar pontapés na gramática. Para ilustrar, trago à colação os jornalistas e pivôs da RTP, onde existe um programa que ensina a falar bem, o "Cuidado com a língua", que até já deu origem à publicação de um livro. Mas os maganos e maganas mesmo assim não aprendem. De certeza que não leram o livro. Continuam a dizer priúdo (já nem dizem periúdo) em vez de período, palavra exdrúxula. Continuam a pronunciar "exdruxulamente" metriológico em vez de me-te-o-ro-ló-gi-co. Continuam a ler alcoolémia em vez de alcoolemia. Mas não dizem anémia, os anémicos maganos. De certeza certa, não há por lá ninguém que os corrija. E caros carantonhas, estejam atentos à pronúncia de funcionamento. Ouviram? Que tal? Pelos vistos, falar mal não tem importância! Mãe, estás perdoada!

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Pérolas de Sabedoria



Hoje recebi de uma amiga um mail intitulado Pérolas de Sabedoria, que achei interessantíssimo e digno de ser dado a conhecer.Vou deixar aqui algumas dessas pérolas. Acho que devíamos parar por uns instantes e meditar, e desejar que tão sábias palavras sejam música para os nossos ouvidos. Paremos então e meditemos.

"No que mais se diferenciam os pássaros do ser humano,é a sua capacidade de construir mas deixando a paisagem como estava.

Robert Lynnd

"A actividade vence o frio, a quietude vence o calor"

Lao Tsé (séc. VI, A.C)

"O mundo não te deve nada. Existia antes de ti"

Mark Twain

"A primeira flor que nasceu na Terra era um convite à canção ainda não nascida"

Rabindranath Tagore

"Todos estamos de visita neste momento e lugar. Só estamos de passagem. Viemos observar, aprender, crescer, amar, e voltar para casa.

Dito aborígene - Austrália

A propósito desta última pérola lembra-me do que dizia o já meu saudoso amigo, que nos deixou a 31 de Agosto pº.pº, Joaquim Castro Caldas. Espero que lá por onde andes continues a ser " o intérprete da vontade do pássaro", pois como disse o poeta Menandro, "morrem cedo os que os deuses amam". Dizia o Joaquim:- "A vida, são as férias da morte"

Coisas (interessantes) da vida

Coisas da arca do velho! Se é certo que somos o produto das nossas memórias, é também certo que costumamos guardá-las, normalmente bem arrumadas, numa arca que a par com elas vai também envelhecendo. Hoje fui à arca-memória buscar uma história ainda relativamente fresca. Há alguns anos, no departamento da empresa onde trabalhava (hoje sou um jubilado activo), trabalhava também um colega, bom rapaz, amigo do seu amigo, mas sofrendo de um razoável défice cultural e de uma certa dificuldade vocabular para exprimir os seus conhecimentos. Em determinada altura, uma das funções que me calhou-me em sorte, foi supervisionar o seu trabalho. Um dia, porque entendi que determinada tarefa não tinha sido bem executada, pedi-lhe que a corrigisse. Não querendo dar-se por vencido (nem convencido) logo ali começou uma "discussão" que corria o risco de se tornar interminável.Para por fim ao imbróglio disse-lhe: -"Ó M, cala-te.Reduz-te à tua insignificância!" Resposta pronta do M, que achava que devia ter a última palavra: "Cala-te tu, porque a minha insignificância é maior que a tua." E eu calei-me.

O M sabe que de vez em quando conto esta história. Aliás, já a contei na presença dele.
A arca vai continuar aberta, e decerto será a ponte para outras histórias interessantes. Amen