Estamos a despedir-nos de 2009 que não deixou saudades. Esperemos que o 2010 que aí vem seja pelo menos um pouco melhor. Se todos formos capazes de interiorizar e seguir o conselho do poeta Armindo Rodrigues, então teremos um mundo e um ano melhores. Que assim se cumpra
Homem
Abre os olhos e verás
Em cada outro homem
Um irmão
As paixões que te consomem
não são boas nem más
são a tua condição
A paz porém
só a terás
Homem
quando o pão que os outros comem
for igual ao teu pão.
Assim seja.
Adeus 2009
Sê bem vindo 2010
Bom ano para todos os meus amigos carantonhas.
Carantonha- s.f.-contorsão do rosto, esgar, máscara, cara feia, carranca, caraça. * Em criança, na região de onde sou natural, e onde então vivia, quando se brincava ao carnaval, o artefacto que nos ocultava o rosto, era a carantonha porque por norma era coisa feia. O tempo passa, a evolução acontece, e hoje, pelo menos quando jogamos ao carnaval, usamos uma máscara. Ou será que não a usamos todos os dias?
quinta-feira, 31 de dezembro de 2009
quarta-feira, 30 de dezembro de 2009
POEMA PARA ACABAR O DIA (Com Sophia)
Para acabar o dia, aqui fica um poema de Sophia de Mello Breyner
ESTA GENTE
Esta gente cujo rosto
Às vezes luminoso
E outras vezes tosco
Ora me lembra escravos
Ora me lembra reis
Faz renascer meu gosto
De luta e de combate
Contra o abutre e a cobra
O porco e o molhafre
Pois a gente que tem
O rosto desenhado
Por paciência e fome
É a gente em quem
Um país ocupado
Escreve o seu nome
E em frente desta gente
Ignorada e pisada
Como a pedra do chão
E mais do que a pedra
Humilhada e calada
Meu canto se renova
E recomeço a busca
De um país liberto
De uma vida limpa
E de um tempo justo
USOS
Esta manhã, enquanto à mesa tomava o pequeno almoço, dei comigo a pensar na evolução das coisas, nas modas e até nas influências culturais que cada povo absorve. Por cá, sabe-se como fomos influenciados pela cultura francesa e um pouco pela inglêsa. Como essas culturas entraram primeiro pelos grandes centros urbanos e paulatina e progressivamente se foram instalando nas vilas e aldeias. E então pensei: "olha, estou a tomar o pequeno almoço (petit dejeuner) !". Pois, cá está! Em jovem, na minha aldeia, antes de ir para a escola e depois para o colégio, eu almoçava. Depois seguia-se o jantar. Por vezes, a meio da tarde, quando a brincadeira ou os deveres, não o faziam esquecer, vinha a merenda. Agora lancho (do inglês lunch). À noite, antes da deita, ceava-se. Agora pequeno-almoço, almoço, janto, e por vezes ceio. Nada mal, não senhor. Influências! Enquanto isto, baixo o olhar e vejo que tenho vestidas umas calças porqueiras. Admirados? Não estejam. Antes da moda copiar e massificar tais calças, estas eram normalmente, e só, usadas pelos guardadores de porcos alentejanos. Daí o "porqueiras". A moda pegou e passámos a usar calças de bombazina (nem pensar, nos meios burgueses urbanos, usar porqueiras). Depois o gosto refinou e agora as porqueiras, passaram a chamar-se calças de veludo. É no que dá os usos e as modas. Acabei o pequeno almoço e deixei de pensar nestas coisas, porque já sei que amanhã para o jantar de fim de ano vou vestir umas calças de ganga.
O Jardineiro Míope
Estava há pouco a acabar de jantar, e de repente, bruummmm, um estoiro enorme. Foi um trovão, mesmo aqui por cima.O Nico (o meu gato), que me fazia companhia, assustou-se, saltou do aparador para a mesa, da mesa para o aparador, do aparador para o chão, deixou uma restolhada e foi esconder-se. Diante de tal estoiro, eu cá, pensei "eh pá, o tempo está zangado.Ou será «Deus», que lá em cima não está a gostar do que se passa cá em baixo?".Para os ateus será o Tempo, para os cristãos será Deus. Mas o que é facto é que o mau tempo, em especial a chuva não nos deixa e em vez de benefício, está a tornar-se um prejuízo. Já me desviava do trovão. Depois de ouvir o estoiro, lembrei-me de um poema de Sidónio Muralha. Se aceitarmos que Deus, que segundo dizem tudo vê, é a entidade que comanda tudo, não teremos dificuldade em acreditar no que escreveu Sidónio Muralha no seu poema O Jardineiro Míope. Mas que terá a ver um jardineiro, com uma trovoada. Vamos ver.
O JARDINEIRO MÍOPE
O jardineiro míope levanta-se às cinco horas e vai dar alpista
às flores
E a seguir rega os pássaros
e enquanto vai regando vai dizendo:
“que bem que cantam as minhas papoulas”
Um dia, a Liga das Senhoras Mais Bondosas do Mundo,
teve um gesto malvado
e ofereceu óculos ao jardineiro míope
que ajustou implacavelmente as imagens
perdeu toda a poesia
e viu tudo de maneira tão clara
que teve a ideia escura de pedir emprego de funcionário público
enquanto a presidente da Liga
da Liga Mais Bondosa
mais bondosa do mundo
subia para o céu
e se sentava à mão direita de Deus Padre
que lhe enfiou uma bofetada divina
que todos nós ouvimos em forma de trovão.
Boas trovoadas, carantonhas
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quarta-feira, 23 de dezembro de 2009
Poema para acabar o dia
O poema de Sebastião da Gama que aqui fica, pelo tema, pelos apelos que faz, tem tudo, para ser considerado um poema de Natal. Eu assim considero. Espero que os carantonhas que tenham a paciência de o lerem, também assim pensem.
A MEUS IRMÃOS
Batam-me à porta
os que andam lá por fora, à neve;
batam
os que tiverem frio ou sede;
os que sintam saudades de um carinho;
os desprezados;
os que há muito não vêem uma flor
e encontram só poeira no caminho;
os que não amam já nem já os ama
ninguém;
os esquecidos de como se sorri;
os que não têm Mãe…
Batam-me à porta os Desgraçados,
os que têm os dedos calejados
dos dedos ásperos da Miséria,
os que travam desordens nas tavernas
e brincam às facadas,
os que não têm abrigo nem Amigo,
os que o Destino escarrou,
os que não foram crianças,
os que nasceram num bordel
e por quem passam todos sem olhar.
Batei à minha porta, Irmãos,
entrai,
que eu tenho Amor pra vos dar…
E se eu também bater
(que eu também choro
muitas vezes, lá por fora;
também amargo tristezas;
que eu também sou Desgraçado)…
pois se eu bater,
vinde logo depressa abrir-me a porta;
aquecei-me no meu lume;
dai-me do pão que eu parti
e do Amor que vos dei…
Deixai-me estar entre vós
como se fosse um de vós,
que eu também sou Desgraçado…
Ah! Se eu bater
(mas é preciso que eu possa
ter força ainda nas mãos),
por Deus abri a porta, meus Irmãos,
como se a casa fora vossa!...
Sebastião da Gama, poeta português, natural de Vila Nogueira de Azeitão, Setúbal. Concluiu o curso de Filologia Românica na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa em 1947, e ainda nesse ano iniciou a sua actividade de professor, que exerceu em Lisboa, Setúbal e Estremoz.
Sebastião da Gama ficou para a história pela sua dimensão humana, nomeadamente no convívio com os alunos, registado nas páginas do seu famoso Diário (iniciado em 1949). Literariamente, não esteve dependente de qualquer escola, afirmando-se pela sua temática (amor à natureza, ao ser humano) e pela candura muito pessoal que caracterizou os seus textos. Atingido pela tuberculose, que causaria a sua morte precoce, passou a residir no Portinho da Arrábida, com a panorâmica serra da Arrábida a alimentar o culto pela paisagem presente na sua obra.
A MEUS IRMÃOS
Batam-me à porta
os que andam lá por fora, à neve;
batam
os que tiverem frio ou sede;
os que sintam saudades de um carinho;
os desprezados;
os que há muito não vêem uma flor
e encontram só poeira no caminho;
os que não amam já nem já os ama
ninguém;
os esquecidos de como se sorri;
os que não têm Mãe…
Batam-me à porta os Desgraçados,
os que têm os dedos calejados
dos dedos ásperos da Miséria,
os que travam desordens nas tavernas
e brincam às facadas,
os que não têm abrigo nem Amigo,
os que o Destino escarrou,
os que não foram crianças,
os que nasceram num bordel
e por quem passam todos sem olhar.
Batei à minha porta, Irmãos,
entrai,
que eu tenho Amor pra vos dar…
E se eu também bater
(que eu também choro
muitas vezes, lá por fora;
também amargo tristezas;
que eu também sou Desgraçado)…
pois se eu bater,
vinde logo depressa abrir-me a porta;
aquecei-me no meu lume;
dai-me do pão que eu parti
e do Amor que vos dei…
Deixai-me estar entre vós
como se fosse um de vós,
que eu também sou Desgraçado…
Ah! Se eu bater
(mas é preciso que eu possa
ter força ainda nas mãos),
por Deus abri a porta, meus Irmãos,
como se a casa fora vossa!...
Sebastião da Gama, poeta português, natural de Vila Nogueira de Azeitão, Setúbal. Concluiu o curso de Filologia Românica na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa em 1947, e ainda nesse ano iniciou a sua actividade de professor, que exerceu em Lisboa, Setúbal e Estremoz.
Sebastião da Gama ficou para a história pela sua dimensão humana, nomeadamente no convívio com os alunos, registado nas páginas do seu famoso Diário (iniciado em 1949). Literariamente, não esteve dependente de qualquer escola, afirmando-se pela sua temática (amor à natureza, ao ser humano) e pela candura muito pessoal que caracterizou os seus textos. Atingido pela tuberculose, que causaria a sua morte precoce, passou a residir no Portinho da Arrábida, com a panorâmica serra da Arrábida a alimentar o culto pela paisagem presente na sua obra.
domingo, 20 de dezembro de 2009
Amarelo lucilante
Eu esperava que esta noite o céu adormecesse colorido de azul. Infelizmente, o sangue rubro das trauliteiras papoilas saltitantes, com a ajuda de um lucilante amarelo não o permitiram. Mas um dia destes o azul refulgirá e nem jesus obstará a que uma qualquer salomé nos traga a cabeça do batista numa bandeja dourada. Esperemos.
Provincianismo
Acabo de chegar de Paredes, onde estive na Casa da Cultura, a coordenar a sessão quinzenal do programa "Família", com a habitual peça de teatro. A sessão de hoje foi dedicada aos filhos dos funcionários da Câmara, entidade responsável pelo referido programa. De realçar que aqui são os filhos que levam a restante família ao teatro. Lá esteve a Direcção dos Serviços Sociais da Câmara, e também o seu vereador da Cultura e Vice-Presidente. O Presidente, nem vê-lo. Como não vi ainda o tão propalado mastro com 100 metros de altura, para a bandeira nacional, onde o município se propõe gastar (melhor dito, será "desperdiçar") um milhão de euros, presumo que o presidente estivesse ausente, a tratar de tão relevante propósito. Dá pena ver até onde pode ir o provincianismo pacóvio de alguns. E é pena porque na cultura e no entretimento (é, é assim mesmo) o concelho dá cartas a muitos outros com mais poderio económico e financeiro. Enfim, idéias!
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