sábado, 24 de janeiro de 2009

Real caridadezinha


Ainda não tinha acabado de ler a notícia e já me ria com uma enorme vontade, ao mesmo tempo que na minha frente visionava o mendigo da peça “Deus lhe pague” do dramaturgo brasileiro Joracy Camargo, a recolher a moeda dada pela duquesa e a dizer isso mesmo: “deus lhe pague”. A peça vem já do século passado, teve grande sucesso nos palcos e deu origem a um filme, com igual êxito. Na peça ou no filme não havia duquesa, na notícia sim. É claro que o riso foi pelo insólito da notícia, e pelo facto relatado em si o ser. Quase me esquecia dos factos, vamos então a eles. A notícia vem na página Fama, do diário gratuito Global, de onde, com a devida vénia, vamos transcrevê-la.
Título: “Duquesa de York ajudou sem-abrigo”.
Notícia: “ A Duquesa de York, Sara Ferguson, e a sua filha, a princesa Beatrice, resolveram praticar uma boa acção ajudando um sem-abrigo, em Londres. Após um jantar num restaurante chique, ambas caminhavam pela rua enfrentando as baixas temperaturas na capital e, ao depararem-se com um sem-abrigo, deram-lhe dinheiro.”
Por me parecer que a notícia está escrita com bastante ironia, vou deixar só um comentário. Com tamanho espírito caritativo porque não levar o sem-abrigo para o palácio, tratar dele, e dar-lhe uma ocupação?

Menina Fútil

A menina fútil deu um bodo aos pobres;
Pela primeira vez pôs avental…
Falou do gesto e seus intuitos nobres,
Com palavrinhas brandas, o jornal…

- Os pobres ficaram pobres
E a menina fútil nunca mais pôs avental…

A menina fútil tem um cão de raça
Que nunca saiu do quintal
E nunca viu uma cadela…
Para a menina fútil o seu cão de raça
Deixou de ser um animal
E é um cãozinho de flanela…

… e a menina fútil tem um namorado
e atira-lhe promessas da janela…
Promessas… porque o resto era pecado
E pecar não é com ela…
(Fica sempre na rua, o namorado,
E é tão distante a janela…)

Mas a menina fútil tem um namorado,
Tem um cão com feitio de flanela,
E anda feliz por dar um bodo aos pobres
E ter descido a pôr um avental…

Lê e relê os seus intuitos nobres;
Recorta o seu retrato do jornal;

- e os pobres continuam pobres,
E a menina fútil nunca mais põe avental.

Sidónio Muralha

Sidónio Muralha, nasce em 28 de Junho, na Madragoa, Lisboa. Poeta de intervenção, é publicado no Novo Cancioneiro. Perseguido pela polícia política exila-se voluntáriamente no Congo Belga. Chegou a director geral da Unilever Internacional, chegando a viajar constantemente pelo mundo, ao serviço da empresa. Em 1961 vai para o Brasil, onde fica para sempre.Foi um dos percursores do neo-realismo português com BECO. Publicou 21 livros em prosa e 15 de poesia para crianças. È, aliás, considerado um dos melhores poetas para crianças em língua portuguesa. Faleceu em 8 de Dezembro de 1982, em Curitiba, Brasil.

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