
A tradição já não é o que era. Já sei, já sei que é uma tirada banal, vulgar, recorrente, de quem não sabe como começar o que tem para dizer. Mas naquilo de que quero falar é perfeitamente aplicável. Portanto...
Do que vos quero falar é da Feira do Livro. É ou não, verdade, que sempre que a feira era inaugurada, e mesmo durante, chovia, por vezes copiosamente? Veja-se o calor que tem feito! Lá se foi a tradição... Mesmo com este calorzinho a prenunciar um verão quente quanto baste, agora que a feira voltou às origens, à Avenida dos Aliados, merece ser visitada, para mais com horários compatíveis para quem trabalha. Passem por lá carantonhas, façam um esforçozito e comprem ao menos um livro. Eu já fiz a minha obrigação. E se gostarem de poesia, que é um dos gostos do carantonha-mor, fiquem com este pequeno poema de Eugénio de Andrade para vos aguçar o apetite:
O SAL DA LÍNGUA
Escuta, escuta: tenho ainda
uma coisa a dizer.
Não é importante, eu sei, não vai
salvar o mundo, não mudará
a vida de ninguém - mas quem
é hoje capaz de salvar o mundo
ou apenas mudar o sentido
da vida de alguém?
Escuta-me, não te demoro.
É coisa pouca, como a chuvinha
que vem vindo devagar.
São três, quatro palavras, pouco
mais. Palavras que te quero confiar.
Para que não se extinga o seu lume,
o seu lume breve.
Palavras que muito amei,
que talvez ame ainda.
Elas são a casa, o sal da língua.