sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Poema com Natal por tema XVIII

O poema para a noite de Natal é de David Mourão-Ferreira. Bom será que possamos dar graças quando Ele nos chamar a prestar contas. 
Caros Carantonhas, que a Luz vos ilumine, e a poeira das estrelas lance sobre todos vós as maiores venturas.

LITANIA PARA O NATAL DE 1967

Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
num sótão num porão numa cave inundada
Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
dentro de um foguetão reduzido a sucata
Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
numa casa de Hanói ontem bombardeada

Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
num presépio de lama e de sangue e de cisco
Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
para ter amanhã a suspeita que existe
Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
tem no ano dois mil a idade de Cristo

Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
vê-lo-emos depois de chicote no templo
Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
e anda já um terror no látego do vento
Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
Para nos vir pedir contas do nosso tempo

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