quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Peúgas


Hoje, ao passar os olhos sobre as notícias na comunicação social, deparei com uma que, por associação de ideias, me lembrou um texto de Jorge de Sena, escrito na fase de estadia nos EEUU.

A notícia referia-se ao casamento entre pessoas do mesmo sexo.O Governo propõe-se apresentar o diploma, mas vai também providenciar alterações na lei da adopção, de forma a que não seja possível por casais homossexuais. A notícia resumida. Agora a história de Jorge de Sena, citada de memória, mas garanto que com as palavrinhas todas. Só a pontuação pede diferir. É, de resto, uma história inofensiva. Cá vai:


"Depois que acabara o party em casa do sujeito que o dera, e foram saindo todos, uma das convidadas que se esquecera (ocasionalmente?) dos cigarros, voltou atrás a buscá-los.

Abriu a porta e recuou pasmada.

O dono da casa e um dos convidados, estavam estendidos no tapete, nus, e de peúgas,

Até hoje, uma só pergunta a inquieta: - Porquê de peúgas?"


E por aqui me fico. Que vos aproveite...

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Abraçar é...

Hoje de manhã acordei bem disposto e com uma vontade enorme de que o dia me corresse bem, pois tinha combinado com o João sem Medo acompanhá-lo nos seus encontros com a Fada dos dois Caminhos, com o Homem sem Cabeça, com a Menina de Cristal, o Gramofone com Asas, o Príncipe de Orelhas de Burro, o Rocinante (esse mesmo, o cavalo de D. Quixote), a Menina dos Pés Ocos, a Pedra, e muitos outros. Frente ao espelho, sorri para ele, como faço quase todas as manhãs, ele sorriu para mim, (ou seria a minha imagem a sorrir para mim?) e eu disse-lhe:-Espelho meu, espelho meu (não, não lhe perguntei nada, eu já sei que sou o mais bonito!) hoje acordei tão bem disposto que vou abraçar todas as pessoas que encontrar na rua. O espelho abriu-se num largo sorriso, ficou do tamanho de toda a parede e assentiu com a cabeça (seria eu reflectido, a acenar?). Mas eis que, catrapuz, lá vem a ZON estragar-me o dia: telefone avariado, chamada p'raqui, chamada p'racolá, o saldo do celular a voar, corridas às lojas. Resultado:toca a desembolsar, telefone novo e dia estragado. E, zangado como estava, lá se foram os abraços. Mas para que os meus caros carantonhas não fiquem desapontados, aqui fica um texto muito bonito sobre o abraço:

ABRAÇAR É


Precisamos de quatro abraços por dia para sobreviver.
Precisamos de oito abraços por dia para manutenção.
Precisamos de doze abraços por dia para crescermos.

Virgínia Satir

"Abraçar é saudável. Ajuda o sistema imunológico, cura a depressão, reduz o stress e induz o sono. É revigorante, rejuvenescedor e não tem efeitos secundários desagradáveis. Abraçar é um remédio miraculoso.
Abraçar é natural. É orgânico, naturalmente doce, sem ingredientes artificiais, não é poluidor, é amigo do ambiente e 100% motivador.
Abraçar é o presente ideal. Óptimo para qualquer ocasião, divertido de dar e receber, mostra atenção, vem em invólucro próprio, e é totalmente devolvível.
Abraçar é practicamente perfeito. Não tem pilhas que se gastem, é à prova de inflação, ,não engorda, não tem pagamentos mensais, é à prova de roubo e não está sujeito a impostos.
Abraçar é um recurso sub-utilizado com poderes mágicos. Quando abrimos os nossos braços e os nossos corações, incentivamos os outros a fazerem o mesmo.
Pense nas pessoas da sua vida. Há algumas palavras que queira dizer? Há alguns abraços que queira dar? Está à espera, na esperança de que alguém peça primeiro? Por favor, não espere! Tome a iniciativa!"

Charles Faraone
In O Pequeno Livro da Canja de Galinha para a Alma

Vá lá, tome a iniciativa e venha de lá esse abraço, que eu estou de saída para o Púcaros. para uma sessão de poesia. Até amanhã.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

E hoje estou feliz

Hoje fui mais uma vez, almoçar com o meu colega Nelson Ferraz. E voltámos a falar das Aventuras de João Sem Medo. Por coincidência ou premonição, não sei. E hoje estou felicíssimo. Porquê? perguntarão os caros carantonhas, e o Nelson também. Então não é que depois de almoço me telefonou a filhota, feliz também, comunicando-me que hoje eu tinha ajudado o neto mais velho. Intrigado, perguntei porquê, e vocês, caros carantonhas, perguntem também: porquê? E lá veio a explicação. Na turma do Ricardo (o neto), na disciplina de português, uma das tarefas era ler um livro e depois explicar a história na aula, bem como dar a conhecer o autor.
O Ricardo aconselhou-se com a mãe, e como eu em tempos lhe tinha oferecido as Aventuras de João sem Medo, que ele só tinha começado a ler, foi-lhe sugerido que acabasse a leitura do mesmo para apresentar na aula. Foi hoje, e por sorteio, não é que calhou ser o Ricardo o contemplado? E então como tem queda para o teatro (tem a quem sair - gaba-te cesta - desde os avós até à mãe) pegou no seu jeito clownesco de comédia em pé, quer dizer, para se perceber melhor, stand up comedy, e apresentou o trabalho. Foi um êxito. Desde a professora aos colegas todos classificaram de muito bom o trabalho, o que fez com que o Ricardo exultasse de alegria, e os pais também. E eu, repito estou felicíssimo.

De vez em quando, vou almoçar com o meu colega e amigo Nelson Ferraz. Por vezes, junto do seu local de trabalho topamos com uma feira do livro. Há uns tempos, quando olhávamos para os livros expostos, o meu amigo chamou-me a atenção para Aventuras de João Sem Medo do José Gomes Ferreira, que salvo erro, tinha começado a reler, e para uma fantástica citação, que era a seguinte:

É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

Expliquemos: O João era um rapaz "que vivia em Chora-Que-Logo-Bebes, exígua aldeia aninhada perto do Muro construído em redor da Floresta Branca onde os homens, perdidos dos enigmas da infância haviam instalado uma espécie de Parque de Reserva de Entes Fantásticos."
A floresta por trás do muro era -é - o sítio onde se instalaram os medos, os temores, os fantasmas (não serão estes também, medos? Fantasmas sem medo só conheço o Gaspar O Fantasminha) dos chora-que-logo-bebensses. Mas também as fantasias -há lá fadas, magos, árvores que andam e falam, e outros. Mas como medos e fantasias eram desconhecidas "dos infelizes chorincas que se lastimavam de manhã até à noite" ninguém tinha coragem sequer de espreitar por cima do muro, quanto mais de o ultrapassar para "combater bichos de sete bocas,gigantes de cinco braços ou dragões de duas goelas". Foi o que se propôs fazer, e assim fez, o nosso João, "farto de tanta choraminguice e de tanta miséria". E com tanta pressa o fez que nem leu o palavreado do letreiro até ao fim: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR. E se houver alguém que não ande espantado de existir, e queira saber toda a história, é aconselhável que leia o romance. É o que eu vou fazer, reler o livro, do qual já não lembro muita coisa. Se o fizerem, que vos aproveite.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Lembrando António Aleixo


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e

d
e
s
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n
h
o

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da autoria de Tossan.
Hoje é dia de lembrar o poeta popular António Aleixo. Natural de Vila Real de Santo António, onde nasceu em 18/2/1899, veio a falecer em Loulé em 16 de Novembro de 1949.
Ninguém, estou certo, desconhecerá as suas quadras, por as ter lido ou ouvido cantadas.
Quem não conhece, por exemplo:
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Vós que lá do vosso império
prometeis um mundo novo,
calai-vos que pode o povo
qu'rer um mundo novo a sério
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ou
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Que importa perder a vida
em luta contra a traição,
se a Razão mesmo vencida,
não deixa de ser Razão
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De ascendência proletária - seus pais eram operários - embora homem humilde e simples, era semi-analfabeto, pois sabendo ler escrevia com muitos erros. A sua vida, foi uma vida de pobreza, mudanças de emprego, emigração (França), tragédias familiares e doenças. Foi tecelão, polícia, pedreiro, guardador de gado e por último cauteleiro. Cantava as suas quadras pela feiras e romarias, sendo por isso conhecido por poeta-cauteleiro. As vicissitudes porque passou, vieram a traduzir-se numa tuberculose, que o levou, na esperança de cura, até ao sanatório da Quinta dos Vales, em Coimbra, onde encontrou o seu conterrâneo Tossan (António Santos) que o havia apresentado ao dr. Armando Gonçalves, médico que conseguiu o seu internamento. Foi Tossan quem lhe foi corrigindo a escrita e que o incentivou a elevar a sua cultura pessoal. Foi o seu período mais fértil. Aqui nasceram os seus Autos: Auto do Curandeiro, Auto da Vida e da Morte e Auto do Ti Jaquim, que não terminou. Foi em Coimbra que conheceu o dr.. Joaquim Magalhães, que coligiu ,e organizou para publicação, as suas quadras. Em Coimbra conheceu e privou com alguns intelectuais, entre eles o Dr. Paulo Quintela, Miguel Torga, Joaquim Namorado, Deniz-Jacinto e Arquimedes da Silva Santos, seus admiradores. Esteve em Coimbra por duas vezes, mas não conseguiu vencer a doença, que já lhe havia roubado uma filha. Regressou a Loulé, onde veio a falecer.
Fiquemos com algumas quadras menos conhecidas:
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Só desejo dar um beijo
no rosto duma mulher,
se for maior o desejo
do que o beijo que eu lhe der
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Sem que o discurso eu pedisse,
ele falou; eu escutei.
Gostei do que ele não disse;
do que disse não gostei.
++
Eu já não sei o que faça
p'ra juntar algum dinheiro;
se se vendesse a desgraça
já hoje eu era banqueiro.
++
Se o hábito faz o monge
e o mundo quer-se iludido,
que dirá quem vê de longe
um gatuno bem vestido?
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Meu amor vê se te ajeitas
a usar meias modernas,
dessas meias que são feitas
da pele das próprias pernas.
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Não sou esperto nem bruto,
nem bem nem mal educado:
sou simplesmente o produto
do meio em que fui criado.
++
Julgando um dever cumprir,
sem descer no meu critério,
digo verdades a rir
aos que me mentem a sério

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Sabedoria

Folheando alguns alguns textos soltos, num acto de arrumação de papeis, encontrei um texto interessante, que não resisto a partilhar com os meus amigos carantonhas.

-"Um velho índio, certo dia, durante uma conversa, confessou os seus conflitos intimos.
- Dentro de mim existem dois cachorros; um deles é cruel e mau, o outro é muito bom e dócil. Mas estão sempre a lutar.
Quando lhe perguntaram qual dos cachorros ganharia a luta, o velho sábio índio reflectiu e respondeu:
- Aquele que eu alimentar."

Comentários para quê! Uma tão curta resposta que encerra uma enorme lição de vida.

Preguiça


Voltei!! Eu sei que os quatro inefáveis carantonhas que me seguem já tinham estranhado a minha ausência. Também sei que eleições, novo governo, (talvez fosse mais aconselhável um governo novo, mas que lhe havemos de fazer!), corrupção, subornos de vária ordem, julgamentos que nunca mais acabam, outros que nunca mais se iniciam, assassinatos, enfim, o lote é demasiado extenso, tudo isso daria para as mais variadas abordagens aqui. Mas felizmente (já vão ver porque digo felizmente), nada disso me entusiasmou. Explico porquê: praí há um mês, passando por uma dessas feiras do livro que agora se fazem em qualquer canto, encontrei um livro fantástico. O livro objecto é um dois em um, quer dizer, são dois livros-texto, num só livro-objecto. A gente está a ler de um lado, e do outro, o texto está de pernas para o ar. Perceberam?
Perguntarão: E o que tem isso a ver com ausência tão prolongada? Tem tudo. É que de um lado (o que ando a ler devagar, devagarinho) o tema aborda um assunto que suponho caro a muita gente - O Direito à Preguiça. Do outro, por enquanto de pernas para o ar, A Arte da Sesta. E assim vou preguiçando e sestando. E embora saiba - eu, que tive educação católica, mas não pratico - que a preguiça é um pecado capital, tenho que aproveitar. Digam lá caríssimos se não tenho pelo menos duas razões para não vos aborrecer. Agora vou preguiçar mais um pouco pois a sesta já se foi.